Boias foram encontradas em outubro passado em local que não é rota pesqueira; equipamento recebe, envia e codifica sinais de comunicações entre base foguete. Presença de estrangeiros chama atenção da Agência; Foguete teve problemas de comunicação em julho de 2007.

A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) investiga a possibilidade
de espionagem e até mesmo risco de sabotagem no programa brasileiro e
ucraniano de lançamento de foguetes.


Recentemente, a agência elaborou relatório reservado sobre equipamentos de telemetria (que podem captar, enviar
e processar dados à distância) instalados em boias apreendidas em
praias que cercam o CLA (Centro de Lançamentos de Alcântara), no dia 11
de outubro do ano passado. É a terceira vez que a agência encontra o
mesmo tipo de aparelho nos arredores de Alcântara.


Essas boias são utilizadas para pesca em alto-mar, na localização de
cardumes, mas têm capacidade de interferir nos sinais de navegação dos
foguetes se para isso forem programadas, de acordo com a Abin. O
equipamento foi submetido à análise do Instituto de Pesquisas da
Marinha, no Rio.

A hipótese de que o equipamento pode ser utilizado para interferir
nas comunicações entre os foguetes e a base de Alcântara não foi
descartada.

Os técnicos do instituto também ressaltaram o fato de Alcântara
estar muito distante das rotas de pesca em alto-mar. Eles trabalham
agora numa perícia mais aprofundada.


Uma das boias apreendidas perto de Alcântara; equipamentos de telemetria, que podem captar e enviar dados, estavam nas boias

“A agência tem monitorado o aparecimento de boias em intervalos de
dois em dois anos, nas praias do CLA. Elas são acionadas por controle
remoto via satélite e têm capacidade de enviar, transmitir e medir
frequência, além de possuírem espaço suficiente para abrigarem corpos
estranhos; estão equipadas com bateria de longa duração e painel
solar”, informa o relatório sigiloso da Abin.

“Há de se estranhar a presença dessas boias no local porque a região
não tem indústria pesqueira, não está na rota de barcos que utilizem
essas boias, elas não se deslocam para muito distante de onde são
colocadas e, no entanto, só são encontradas nas praias próxima ao CLA,
apesar dos quilômetros de praias existentes no Maranhão”, diz o
documento.


Até hoje, nenhuma empresa no Brasil ou no exterior reclamou os equipamentos encontrados pela Abin.

“Caso isso ocorresse [interferência na telemetria dos foguetes], não
seriam prejudicados apenas os eventuais lançamentos a partir de
Alcântara, mas também se colocaria em risco a execução de operações de
rastreio de veículos espaciais estrangeiros — serviço prestado pelos
centros de lançamento de Alcântara/MA e Barreira do Inferno/RN”, cita o
relatório da Abin, referindo-se à análise do Centro de Pesquisas da
Marinha.

As boias encontradas em outubro são de dois fabricantes diferentes,
um espanhol e outro japonês. O modo de transmissão de dados do primeiro
é via satélite. O do segundo, por ondas VHF e/ou UHF.

Agentes da Abin envolvidos na investigação ressaltam que, em casos
de espionagem, é comum a adaptação de aparelhos normalmente empregados
em outras finalidades para camuflar a ação clandestina.

O CLA é um dos locais em que a Abin promove um trabalho preventivo
de proteção do conhecimento nacional. A agência tem adotado medidas, em
conjunto com dirigentes de centros de pesquisa, empresas estatais e até
mesmo em companhias privadas, para tentar impedir que tecnologias
desenvolvidas no país sejam alvo de espionagem ou sabotagem.

Além das boias de pesca, a Abin levanta suspeitas também sobre a
presença de muitos estrangeiros na região do CLA, uma área pobre, com
pouca atividade e infraestrutura turística. Em 2006, o Grupo de
Trabalho da Amazônia, coordenado pela Abin, produziu um relatório que
abordou o tema.

O documento informa que, segundo fontes da polícia estadual do
Maranhão, havia 116 estrangeiros no dia 15 de maio daquele ano em
Alcântara, quando membros do CTA visitaram a base de lançamentos.

“Não foi possível saber quais as atividades que desenvolviam, tendo
em vista que não haveria atividade no Centro de Lançamentos. Os altos
índices de exclusão social presentes na cidade de Alcântara deixam a
comunidade que ali reside exposta e fragilizada a tentativas de
aliciamento e recrutamento por parte de ONG e agentes a serviço de
países que muito teriam a perder com os sucessos dos lançamentos da
Base de Alcântara”, diz o documento.

Suspeita de sabotagem  A Abin ainda não conseguiu esclarecer se os aparelhos instalados nas
boias estavam em operação durante lançamentos feitos da base de
Alcântara.

No dia 19 de julho de 2007, por exemplo, período intermediário entre
duas apreensões (2006 e 2008) dos equipamentos, o CLA lançou o foguete
VSB-30. O teste foi parcialmente bem-sucedido. O foguete percorreu o
trajeto estipulado e o chamado módulo útil pousou no mar, mas o
equipamento não foi encontrado após o lançamento, como previsto.

Na época, o CLA informou que, “durante a queda, houve oscilações no
sinal de telemetria, o que dificultou o resgate do módulo após o
lançamento”.


Foto: Abin

Fonte: Folha Online

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