Cientistas prevêem que fuligem de voos espaciais comerciais mudará temperaturas globais. Ozônio também seria afetado.

A mudança climática causada pela fuligem emitida durante uma década de voo espacial comercial seria comparável à da atual aviação global, estimam pesquisadores.

As descobertas, relatadas no periódico Geophysical Research Letters, sugerem que as emissões de 1000 lançamentos privados de foguetes por ano persistiriam na estratosfera, potencialmente alterando a circulação atmosférica global e distribuições de ozônio. As simulações mostram que as mudanças no clima poderiam aumentar a temperatura superficial dos pólos cerca de 1°C e reduzir o gelo polar em 5-15%

"Há limites fundamentais de quanto material os seres humanos podem por em órbita sem ter um impacto significante", diz Martin Ross, autor do estudo e cientista atmosférico do Aerospace Corporation, em Los Angeles, Califórnia, EUA.

A indústria de voo espacial está crescendo rápido. O Spaceport America, um centro de lançamento em Las Cruces, Novo México, EUA, inaugurou sua primeira pista de pouso hoje (22/10/2010). Pelos próximos três anos, empresas como a Virgin Galáctic, com seu quartel general no Spaceport America, espera fazer dois lançamentos por dia para turistas espaciais. Enquanto isso, o Ato de Autorização da NASA aprovado pelo Congresso estadunidense em setembro provê US$ 1,6 bi para o desenvolvimento de veículos privados para colocar astronautas e cargas em órbita.

Foguetes comerciais queima uma mistura de querosene e oxigênio líquido. Mas várias empresas privadas de voo espacial, como a Virgin Galáctic, podem, em breve, usar um motor de foguete híbrido mais econômico que queima hidrocarbonetos sintéticos com óxido nitroso, diz Ross. Estes foguetes híbridos emitem mais fuligem do que um foguete de querosene e oxigênio, ele acrescenta.

"Chuva e clima limpam estas partículas da atmosfera próxima à superfície da Terra, mas, na estratosfera, não há nenhuma chuva e elas podem perdurar de 3 a 10 anos", diz Michael Mills, químico atmosférico do National Center for Atmospheric Research (NCAR), em Boulder, Colorado, e outro autor do trabalho.

Surpresa  Os pesquisadores fizeram modelos atmosféricos globais de uma injeção de cerca de 600 toneladas de fuligem por ano em um único local: Las Cruces. Os resultados mostraram uma camada de fuligem na estratosfera que fica dentro de 10° de latitude do centro de lançamento, diz Ross. Além disso, cerca de 80% da fuligem permaneceu no hemisfério norte, se espalhando entre 25°N e 45°N.

A camada de fuligem fez a temperatura cair cerca de 0,4°C nos trópicos e subtrópicos, ao passo que a temperatura nos pólos aumentou 0,2-1°C, ele diz, enfatizando que os detalhes exatos teriam que ser refinados com modelos melhores. A fuligem também causou reduções de mais de 1,7% nos trópicos e subtrópicos e aumentos de 5-6% nas regiões polares.

Os resultados são surpreendentes, diz Simone Tilmes, química atmosférica do NCAR que não participou da pesquisa. "O que é interessante é que, se você forçar todo o sistema climático em um ponto ou um hemisfério, pode fazer grandes mudanças", diz ela. Posteriormente, mais estudos detalhados examinando a circulação de partículas ajudarão a reduzir algumas das incertezas no modelo, acrescenta.

Ross e sua equipe esperam organizar cientistas, engenheiros e membros da indústria de voo espacial provado para discutir os tipos de medidas que precisam ser tomadas para produzir resultados mais definitivos.

"A meta aqui é ajudar a indústria espacial comercial para que ela possa se desenvolver normalmente", diz Ross.

Ele compara o problema a outro também enfrentando a indústria: detritos espaciais – resíduos que permanecem em órbita e podem representar potencial risco de colisão com astronautas. "Temos que nos unir para cuidar do que é comum no espaço", diz.

 

Anúncios