Sonda da NASA detectou a mistura de gases após duas tentativas fracassadas em 2005 e 2007. É a primeira vez que atmosfera com a substância é encontrada diretamente fora da Terra.

A sonda Cassini – em órbita de Saturno desde 2004 –, da NASA, detectou a presença de oxigênio (O2) e dióxido de carbono (CO2) na atmosfera de Reia, a segunda maior lua de Saturno (que possui mais de 60 satélites).

É a primeira vez que um equipamento como esse consegue evidências diretas da presença de uma atmosfera com oxigênio em um outro astro que não a Terra. Embora haja indícios claros da presença de oxigênio em outros planetas e satélites (como Europa, lua de Júpiter), a maioria dessas conclusões se baseia em observações indiretas, como as do Telescópio Espacial Hubble.

Pesquisadores de Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha dizem que a presença de oxigênio na atmosfera do local é consistente com imagens feitas por equipamentos como o  Hubble.

A detecção da existência de atmosfera nas luas de Júpiter, Ganímedes e Europa, pelo Hubble, parecia implicar que havia a possibilidade de existir algo semelhantes nas luas geladas de Saturno. Em Titã, a suspeita foi confirmada. Como Reia é a segunda maior lua em massa de Saturno (atrás apenas de Titã) e tem gravidade suficiente para evitar que uma atmosfera se desmantele pelo espaço, os astrônomos viam nela uma forte candidata a ter a sua atmosfera também.

A sonda Cassini tentou repetidamente medir de longe a existência de uma atmosfera em Reia e não detectou nada, mas quando chegou mais perto em 2005 e 2007 percebeu que poderia existir uma usando outra forma de medição. Apenas em março deste ano, no entanto, ela passou a 97 km da superfície do astro e conseguiu coletar fisicamente as moléculas da atmosfera, analisá-las e confirmar que, sim, há uma atmosfera em Reia e ela tem oxigênio e gás carbônico. “Ela era muito fina para ser detectada de forma remota”, explicou Benjamin Teolis, do Instituto de Pesquisa do Sudeste, nos Estados Unidos, que liderou o trabalho publicado na revista Science desta quinta (25/11/2010).

A descoberta sugere que este tipo de atmosfera pode ser comum no sistema solar. Há diversas outras luas geladas em Saturno e Urano que têm massa suficiente para evitar que a atmosfera escape de suas gravidades e que estão sujeitas ao bombardeamento de íons e elétrons que geram o tipo de atmosfera encontrado em Reia. “Este bombardeamento quebra a superfície das moléculas de água, produzindo oxigênio e possivelmente dióxido de carbono , se houver moléculas orgânicas e outros minerais com carbono presente”, afirmou Teolis. A presença de oxigênio, no entanto, não faz de Reia uma candidata a sustentar a existência de seres vivos. “Ela é muito fria e não tem a água líquida necessária para a existência de vida como a conhecemos”, disse Teolis em uma entrevista ao jornal britânico The Guardian.

Roberto Costa, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP), também duvida da existência de vida no satélite de Saturno.”Essa descoberta não tem realmente nada a ver com vida. Saturno está fora do cinturão de habitabilidade. Ou seja, não tem água na fase líquida. Essas novas informações são realmente muito importantes, mas do ponto de vista do estudo da formação do Universo.”

Reia, segunda maior lua de Saturno (Foto: NASA)

A quantidade de oxigênio presente em Reia é muito inferior à que existe na Terra.  A atmosfera detectada pela Cassini é extremamente rarefeita, devido à baixa densidade e à massa pequena do satélite, entre outros fatores.

A capacidade de um corpo assim conseguir reter gases e formar uma atmosfera, aliás, foi um dos aspectos que mais intrigaram os cientistas. Normalmente, os corpos celestes que possuem atmosfera costumam ser mais densos.

A densidade do nosso planeta, por exemplo, é de aproximadamente 5,5 g/cm³, enquanto à de Reia não passa de 1,2 g/cm³. Isso significa que o satélite é apenas um pouco mais denso do que a água, que tem 1 g/cm³.

Reia tem apenas 1.500 km de diâmetro e está sempre coberta por uma fina camada de gelo. A estimativa é de que a temperatura no local seja de -180ºC. A atmosfera do satélite, que tem 70% de O2 e 30% de CO2, tem apenas 100 km – é tão fina que se estivesse submetida à temperatura e à pressão da Terra, caberia bem em um prédio de tamanho médio.

A descoberta vai ajudar os cientistas a entender onde mais no Universo pode haver oxigênio e a planejar futuras missões no espaço, inclusive com humanos.

 

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