Acidente de avião, em 1968, teria sido causado por sonda atmosférica. Imagem de cosmonauta não foi afetada por queda da URSS.

Documentos desarquivados nesta sexta-feira (08/04/2011) sugerem uma nova versão para a morte de Yuri Gagarin, em 1968 – sete anos depois de ele ter se tornado o primeiro homem a voar ao espaço. O acidente com um avião MiG que ele pilotava pode ter sido causado por uma sonda atmosférica, da qual teve que se esquivar.

O caso havia sido classificado como "segredo de Estado" pelas autoridades soviéticas.

No dia 27 de março de 1968, no comando de um MiG-15 bimotor de treinamento e acompanhado por um instrutor, Gagarin se acidentou no nordeste de Moscou, em circunstâncias nunca esclarecidas.

Num momento em que a Rússia festeja os 50 anos do voo de Gagarin ao espaço, no dia 12 de abril de 1961, o chefe dos Arquivos do Kremlin, Aleksandr Stepanov, leu em entrevista à imprensa um documento sobre a investigação que estava guardado a sete chaves.

"Conclusões da comissão: segundo as análises das circunstâncias do acidente aéreo e os elementos da enquete, a causa mais provável da catástrofe seja uma manobra brusca (do piloto) para evitar uma sonda atmosférica". "Ou talvez, o que é menos provável, para evitar entrar numa camada de nuvens", acrescentou. "A manobra brusca deixou o aparelho numa situação crítica, em condições meteorológicas difíceis."

Outra funcionária, a vice-diretora dos arquivos estatais científicos, Larisa Uspenskaya, destacou que "mais de 200 documentos e processos haviam sido desarquivados", por ocasião dos 50 anos do voo de Yuri Gagarin.

Yuri Gagarin (Foto: arquivo)

Muitas hipóteses  A manutenção do segredo desde a época soviética sobre as causas da morte deste herói nacional gerou os mais diversos rumores. Eles variavam desde um complô da KGB à hipótese de um Gagarin sem treinamento, ou talvez embriagado, a quem as autoridades não teriam ousado rejeitar a autorização de voar.

Como sinal da importância do caso, as conclusões haviam sido inscritas num decreto do Comitê Central do Partido Comunista da então URSS, datado de 28 de novembro de 1968, com o selo de "segredo de Estado".

Alguns mencionaram a manobra de um segundo avião, que teria desestabilizado o MiG-15 de Gagarin e, outros, um problema técnico sobre o próprio aparelho.

Os que optaram pela tese de complô afirmaram que Yuri Gagarin pode ter sido vítima da KGB ou de outros serviços secretos da época. Outros diziam que o cosmonauta, piloto de formação, muito ocupado com o título de herói e seu papel de propagandista da União Soviética, poderia ter perdido sua habilidade para voar neste tipo de aparelho.

"Espero que ponham um ponto final às numerosas especulações que circulam na Rússia em livros pseudo-históricos", declarou Stepanov nesta sexta-feira.

O subchefe da Roscosmos, a agência espacial russa, Vitali Davydov, afirmou que todos os documentos disponíveis sobre o assunto foram desarquivados. No entanto, "não encontramos alguns deles", admitiu.  Yuri Gagarin (Foto: arquivo)

O homem  Gagarin foi escolhido pelo poder para encarnar o paradigma do homem soviético, especialmente por suas modestas origens camponesas. É um dos raros heróis nacionais cuja imagem não sofreu com a queda da União Soviética no fim de 1991, e continua sendo ainda hoje para os russos "a personalidade mais atraente do século XX", segundo pesquisas.

Suas origens populares – um pai carpinteiro e uma mãe camponesa – jogaram a favor de sua candidatura para se tornar o primeiro homem no espaço, frente a seu rival Gherman Titov, proveniente de uma família de professores e com a desvantagem de ter um nome germânico, segundo seus biógrafos.

Nascido em março de 1934 em um povoado perto de Smolensk (oeste), depois de uma infância difícil marcada pela guerra e pela ocupação nazista, Gagarin dedicou-se primeiramente a trabalhar como metalúrgico.

"Sua trajetória era semelhante à de qualquer de seus milhões de concidadãos", explicou Lev Danilkin, autor de uma monografia sobre o cosmonauta publicada nesta semana.

O jovem Gagarin, apaixonado por aviação, inscreveu-se em uma escola militar de Orenburgo (Montes Urais) e assumiu pela primeira vez o comando de um avião em 1955. Quando em um dia de outono de 1959 uma comissão selecionava voluntários para pilotar um "tipo moderno de aeronave", sua baixa estatura – apenas 1,60 m –, jogou a seu favor.

Vinte candidatos começaram um treinamento de um ano em um centro secreto de Moscou. Com o passar do tempo, não restaram mais de 12, e logo seis, entre eles, Gagarin.

Este homem loiro, de olhos azuis e sorriso quase infantil, encarna o arquétipo do homem russo apontado como exemplo pela propaganda soviética. Ganhou assim a simpatia de seus colegas, e em especial a de Serguei Korolev, pai da astronáutica soviética.

"Gagarin não era um líder, mas era amigo de todos, e Korolev o tratou como um filho", lembra o cosmonauta Boris Volynov.

Em 1961, Gagarin é designado para efetuar o primeiro voo do homem ao espaço, fixado para 12 de abril. Nesse momento, tinha 27 anos e era casado com Valentina, uma enfermeira que acabava de dar à luz uma segunda filha. A missão era perigosa: de 48 cães enviados ao espaço pela União Soviética, 20 tinham morrido. Mas "todos sonhavam em ir no lugar dele", disse Volynov.

"Yuri foi eleito por suas qualidades pessoais, muito próximas ao povo", e se transformou no símbolo perfeito dos êxitos da União Soviética, comentou o cosmonauta. Recebido de forma triunfal pelo mundo inteiro, Gagarin completaria essa missão perfeitamente, demonstrando segundo as testemunhas uma simplicidade absoluta.

Durante um jantar, recebeu um sorriso da rainha da Inglaterra ao admitir que não sabia com qual garfo poderia servir-se.

"Gagarin foi para os soviéticos o projeto de propaganda com mais sucesso", estimava Lev Danilkin.

Mas não apenas por isso: herói nacional com todos os privilégios, Gagarin passava horas ao telefone para conseguir um remédio, um lugar no hospital ou um tíquete para o teatro Bolshoi para seus diversos amigos, lembra Volynov.

Cinquenta anos depois de seu voo, Gagarin encarna tanto "um produto ‘kitch’ da propaganda soviética" como os heróis românticos de uma época pesada, destaca seu biógrafo.

Sonhava em ir à Lua, mas o destino tinha decidido outra coisa.

Muito apreciado pelas autoridades soviéticas, permaneceu longo tempo com a proibição de pilotar antes de obter autorização.

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