Há meio século, Gagarin orbitava a Terra na cápsula Vostok; viagem foi marcada por riscos e teorias conspiratórias. Rússia organiza muitas homenagens.

Uma nova onda de curiosidade para desvendar a vida e a morte do primeiro homem a ir ao espaço, Yuri Gagarin, se espalha pelo mundo no 50º aniversário da odisseia do cosmonauta soviético.

O voo de 108 minutos realizado no dia 12 de abril de 1961 pelo jovem astronauta de 27 anos, a uma altitude variável de 175 km a 380 km, ainda é motivo de orgulho para os russos, duas décadas após a queda da URSS.

Viagem "O importante é que temos salsichão para acompanhar aguardente", brincou Gagarin pouco antes de a nave Vostok ser lançada ao espaço em 12 de abril de 1961.

Gagarin (1934-68) manteve uma breve conversa, que entrou para os anais da história, com o pai do programa espacial soviético, Sergei Korolev, que tentava acalmar os nervos do cosmonauta.

"Aí você têm café da manhã, almoço e jantar. Embutidos, balas e chá. Ao todo, 63 peças. Vai voltar gordo", falou à época Korolev, obsessivo para que o cosmonauta tivesse alimentos suficientes antes de retornar à Terra.

A integridade de Gagarin foi tal que até teve tempo de rir dos nervosos técnicos que o acompanharam até o interior da Vostok quando, devido a uma falha hermética, tiveram de retirar e colocar cada um dos 32 parafusos que selavam a escotilha.

Logo em seguida, Gagarin pronunciou o famoso "Vamos lá!", após o qual deu início a volta no planeta em 108 minutos.

"Os primeiros sempre são pessoas de sorte. É preciso reconhecer que o bem-sucedido voo de Gagarin foi em grande parte uma questão de sorte", garante Anatoli Davydov, subchefe da agência espacial russa, Roscosmos.

Incertezas  Ao comentar os documentos soviéticos recém desclassificados sobre a odisseia, Davydov garante que "podem ter ocorrido inúmeras situações desagradáveis".

"Mas não ocorreram", matizou o funcionário, que garante que a ideia inicial era que Gagarin desse uma só volta ao redor da Terra, mas Korolev decidiu fornecer mais alimentos para o caso de complicações.

Os voos experimentais realizados com animais, como a famosa cadela Laika em 1957, demonstraram que o estado vital piora dramaticamente a partir da terceira volta.

Nem todos acreditavam que o voo teria sucesso, que Gagarin retornaria vivo e que não perderia a razão, portanto as autoridades soviéticas prepararam de antemão três versões oficiais sobre o fato.

Outra preocupação das autoridades dizia respeito à hipótese de Gagarin aterrissar fora do território soviético, por isso a agência oficial de notícias Tass preparou um documento informando todas as nações que a viagem do cosmonauta poderia terminar em seu solo.

O próprio Gagarin, muito consciente do risco da gravidade zero, escreveu uma carta a sua esposa, na qual dava permissão para casar-se novamente e pedia que educasse suas duas filhas "não como pequenas princesas, mas como pessoas normais".

Gagarin em treinamento (Foto: Tass - 12/04/1961)

Finalmente, Tass emitiu um documento com o título de "Sobre o bem-sucedido retorno do homem do primeiro voo espacial" no qual dizia que "às 10h55 no horário de Moscou a nave espacial Vostok aterrissou na região prevista da União Soviética".

"O piloto-cosmonauta major Gagarin comunicou: ‘Peço que informe ao Governo que a aterrissagem transcorreu com normalidade, que estou bem e não sofri qualquer lesão", acrescentou.

Mentira?  Outro aspecto que ainda tira o sono de muitos é a suspeita de que a morte de Gagarin em 27 de março de 1968 durante um voo de treinamento a bordo de um caça Mig na região de Vladimir, que levou alguns analistas a falar de uma conspiração.

"A causa mais provável da catástrofe foi uma brusca manobra para evitar uma sonda", assinalou nesta semana Aleksandr Stepanov, chefe dos arquivos do Kremlin.

O relatório secreto de novembro de 1968 aponta que "a brusca manobra levou à entrada do avião em um estado crítico de voo e a sua queda em condições climatológicas adversas".

Os desclassificados relatórios da comissão que investigou a tragédia também indicam "a improvável causa" que o acidente ocorresse quando Gagarin tentava evitar a entrada em uma camada de nuvens.

Leia mais: "Rússia divulga novos documentos sobre a morte de Gagarin", 09/04/2011

Multidão assiste ao lançamento de um modelo de foguete em São Petersburgo, Rússia, com a Catedral de São Pedro e São Paulo ao fundo; evento faz parte das comemorações (Foto: AP Photo/Dmitry Lovetsky)

Comemorações A Roscosmos aproveitou o aniversário para negar que Gagarin e outros cosmonautas soviéticos tivessem visto ou mantido contato com objetos voadores não identificados (OVNIs) procedentes de outros planetas.

Yuri Gagarin durante visita oficial à Inglaterra em 11 de julhp de 1961 (Foto: AFP)A pedido da Rússia, a Assembleia Geral da ONU declarou em 12 de abril "Dia Internacional do Voo do Homem ao Espaço", que Moscou realizará com diversos atos, incluindo uma salva de artilharia de 50 tiros de canhão a partir do Kremlin.

Em outros países do mundo, o cosmonauta será homenageado, como é o caso da estátua que será erguida na lendária praça Trafalgar de Londres, a primeira cidade que após seu histórico voo Gagarin visitou fora do espaço socialista.

Ontem (11/04/2011), pioneiros de dois voos espaciais durante a Guerra Fria se reuniram em Moscou, para lembrar o voo espacial de Gagarin, considerado o maior êxito da URSS (União das Repúblicas Soviéticas) sobre os Estados Unidos.

Participaram do encontro um colega de Gagarin, Alexei Leonov, o primeiro a fazer uma caminhada espacial, Thomas Stafford, comandante da primeira missão espacial conjunta entre Estados Unidos e URSS (a Apollo-Soyuz), Valentina Tereshkova, a primeira mulher a viajar ao espaço, e o primeiro astronauta chinês, Yang Liwei, entre outros.O ex-cosmonauta Alexei Leonov, a astronauta da NASA Peggy Whitson, e o ex-astronauta Thomas Stafford, em festa em homenagem a Yuri Gagarin (Foto: Alexander Natruskin/Reuters)

"Somos todos filhos de Gagarin", disse Jean-Jacques Dordain, diretor da Agência Espacial Europeia (ESA).

"Se Gagarin não tivesse ido primeiro, eu provavelmente não teria ido para a Lua", disse Stafford, que comandou a missão Apollo 10. Em maio de 1969, Stafford chegou a 12 km da superfície lunar, na última missão preparatória para o pouso que seria realizado por Neil Armstrong e Buzz Aldrin, na Apollo 11.

Crítica  A Rússia corre o risco de perder sua vantagem no espaço, advertiu uma cosmonauta, em meio às celebrações dos 50 anos da viagem espacial de Yuri Gagarin.

Svetlana Savitskaya, que participou de duas missões espaciais em 1982 e 1984 e se tornou a primeira mulher a realizar uma caminhada espacial, criticou duramente o Kremlin por prestar pouca atenção ao espaço após o colapso soviético de 1991.

Os ex-astronautas Thomas Stafford, Alexei Leonov e Helen Sharman se encontram em Moscou (Foto: AP)"Não há nada de novo para nos orgulharmos nos últimos 20 anos", disse ela, que é membro do Parlamento russo, eleita pelo Partido Comunista.

As antigas naves russas passarão a ser o único elo entre a Terra e a Estação Espacial Internacional (ISS) depois da aposentadoria dos ônibus espaciais, em meados deste ano. Os EUA estão trabalhando em uma nova geração de naves, e a Rússia não fez praticamente nada para substituir o antigo modelo Soyuz, disse a ex-cosmonauta.

"Se não corrermos agora para alcançar o que perdemos nos últimos 20 anos… ficaremos sem nada", disse numa entrevista coletiva.

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