Após três décadas de atividades, frota será aposentada. Milhares de pessoas perderão seus empregos; futuro de país no espaço é incerto.

O Atlantis decolou nesta sexta-feira (08/07/2011) para cumprir sua 33ª missão e a 135ª e última viagem do programa de ônibus espaciais, que será encerrado pelos Estados Unidos depois de 30 anos de atividade. O retorno da nave está previsto para o próximo dia 20.

Atlantis decola rumo à ISS (Foto: AP)

Durante três horas, de manhã, o ônibus espacial recebeu mais de 2.000 litros de hidrogênio e oxigênio líquidos para o lançamento.

Pouco antes de tomar sua posição no veículo espacial, Christopher Ferguson reconheceu que esse é, para ele, "um desses momentos em que você precisa ser beliscado para confirmar se está acordado".

As condições meteorológicas chegaram a ameaçar a decolagem: havia chances de chuvas fortes com raios. Caso as tempestades impedissem o lançamento, a NASA teria só até domingo (10) para lançar a nave. Depois, seria preciso esperar uma semana por conta do tráfego espacial. A Força Aérea dos EUA já tinha um lançamento marcado para esse período.

Mas o tempo cedeu e, sob um céu nublado, cerca de 1 milhão de espectadores viram a partida do Atlantis do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. O Centro recebeu mais de 45 mil convidados da NASA.

Antes da decolagem, o diretor de lançamento da NASA, Mike Leinbach, desejou boa sorte à tripulação – que havia embarcado na nave pouco antes das 9h.

O lançamento da missão STS-135, previsto inicialmente para as 12h26 de Brasília (11h26 na hora local), ocorreu com pequeno atraso, às 12h29, após um reparo rápido ocasionado por um problema técnico que surgiu na última hora. O relógio da contagem regressiva parou apenas 30 segundos antes da hora de decolagem prevista e voltou a retomar dois minutos depois, para uma última verificação dos motores. O Atlantis foi visto por apenas 42 segundos antes de desaparecer na nuvens.

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A tripulação  Para a missão de 12 dias com destino à Estação Espacial Internacional (ISS), a nave levará apenas quatro astronautas: o comandante Christopher Ferguson, o piloto Doug Hurley e os especialistas de missão Sandra Magnus e Rex Walheim.

"Estamos muito honrados em estar nessa posição. Muitas pessoas gostariam de estar aqui", disse Ferguson, um capitão aposentado da Marinha.

Os administradores da NASA estavam procurando por veteranos do espaço quando chamaram esta tripulação minimalista, com sete voos espaciais já realizados entre eles. Eles são um grupo eloquente, multirracial nos seus quarenta anos em média, que estão abraçando os holofotes.

Ferguson é o baterista de uma banda de rock composta por astronautas. Hurley é louco por corridas de stock car. Walheim era um controlador de voo de ônibus espacial. Sua esposa é designer gráfica e criou os símbolos para todas as missões que ele voou, sempre na Atlantis.

Sandra é indiscutivelmente a chefe de cozinha mais distante do seu planeta. Ela preparou biscoitos de natal e molho para o Super Bowl a bordo da estação espacial entre 2008 e 2009 usando – como todos os bons chefes fariam –os ingredientes que estavam à mão.

Tripulação pouco antes do embarque no ônibus espacial; da esq.: Walhiem, Magnus, Hurley e Ferguson (Foto: Gary Hershorn / Reuters)

Insígnia da STS-135; detalhe da letra ômega, última do alfabeto grago, simboliza fim da era dos ônibus espaciais (Foto: NASA)

Originalmente eles foram recrutados para ser uma equipe de resgate. Se, em maio, alguma coisa acontecesse com a Endeavour durante seu vôo final, Ferguson e sua equipe teriam que correr até a ISS e trazer os astronautas para casa. Se nenhum resgate fosse necessário (como não foi), o plano era que a equipe de Ferguson simplesmente não voaria e a Atlantis seria mandada para um museu junto com os outros dois ônibus espaciais aposentados.

Mas, no começo de 2011, a NASA decidiu adicionar um novo voo. Já que a Atlantis estava sendo preparada para um possível resgate, a agência pensou: "Por quê não fazer uma última visita com suprimento de comida e outras provisões para manter a Estação bem abastecida? Isso, no entanto, levanta uma questão: e se a Atlantis fosse danificada? Quem iria resgatá-los?

A única opção viável é a nave espacial russa Soyuz. Suas cápsulas podem carregar no máximo três pessoas de cada vez e uma delas deve ser russa. Por isso a tripulação da Atlantis foi montada com quatro pessoas em vez de 6 ou 7 como é o habitual. Será a primeira viagem de um ônibus espacial com apenas quatro pessoas desde 1983.

Ferguson e sua pequena equipe sabem que existe uma chance – aproximadamente uma em 560 – que eles fiquem presos na Estação por causa de problemas de vôo na Atlantis.

Se isso acontecer vai demorar aproximadamente um ano até a última pessoa conseguir voltar para casa. Hurley, fuzileiro naval, será o último a voltar, numa escala baseada nas habilidades com um braço mecânico e com caminhadas no espaço, bem como o histórico de exposição a radiação cósmica.

O último fator evita que Sandra, ex-moradora da Estação, tenha de passar muito tempo no espaço. Hurley – que é casado com a astronauta Karen Nyberg e tem uma filha de um ano – olha para o lado positivo da história. "Se as coisas se encaminharem assim, vou ficar em uma expedição de um ano, sendo que fui treinado durante nove meses, então esse é um ótimo retorno do investimento", afirmou. Ele aponta para Sandra, uma cientista especializada em cátodos e radares, que foi treinada durante quatro anos para uma missão de apenas quatro meses. Missões de um ano são extremamente raras. Apenas três cosmonautas russos participaram delas. O americano que passou mais tempo no espaço, de uma vez só, ficou sete meses.

Além disso, menos gente a bordo significa mais espaço para carga e a agência quer aproveitar cada centímetro disponível em seu último voo.

A missão da nave é levar o módulo multipropósito Raffaello, com suprimentos e partes sobressalentes, para a ISS. O Atlantis entregará 3,7 toneladas de alimentos e equipamentos à ISS, para permitir que a estação orbital e a tripulação permanente, formada por seis pessoas, contem com abastecimento durante um ano.

Também é transportada a Missão de Reabastecimento Robótico (RRM), um experimento programado para demonstrar e testar as ferramentas, tecnologias e técnicas necessárias para o reabastecimento dos satélites no espaço.

Na volta à Terra, a tripulação trará de volta uma bomba de amônia que não funcionou na ISS. Os engenheiros querem compreender por que ela falhou e melhorar o projeto para futuras viagens.

Atlantis na plataforma de lançamento em 07/07/2011 (Foto: Bill Ingalls / NASA)

Infográfico ilustrando história do progama de ônibus espaciais da NASA (Foto: Editoria de Arte / Folhapress)A nave  Até o lançamento da STS-135, o Atlantis havia realizado 32 voos espaciais, tendo o primeiro sido em outubro de 1985, e percorrido 194.168.330 quilômetros. Ao todo, passou 293 dias, 18 horas, 29 minutos e 37 segundos no espaço.

O quarto ônibus espacial da NASA fez parte de alguns dos grandes marcos do programa espacial americano: lançou o telescópio espacial de raios gama Compton e as sondas Magellan para Vênus e Galileo para Júpiter. A nave também foi a primeira americana a acoplar com a estação espacial russa Mir, para onde fez sete voos consecutivos, entre 1995 e 1997.

Em 2009, o Atlantis fez a última missão de reparos prevista para o telescópio espacial Hubble, que permitiu que o observatório orbital, que estava definhando na época, pudesse ter sua expectativa de vida estendida para até 2014.

No voo seguinte, ele bateu o recorde do Discovery de menor número de problemas técnicos em uma missão: 54. Em 2010, bateu seu próprio recorde e baixou o número para 46.

A missão de 2010 estava prevista para ser a aposentadoria oficial do ônibus espacial. A atual era apenas uma missão de stand-by que seria usada para caso de necessidade de resgate do Endeavour, que, na época, estava previsto para fazer a missão final da frota. Com a decisão de tornar o voo de resgate em uma missão oficial, a nave foi recolocada em serviço.

Após a aposentadoria, o Atlantis será a único que continuará na Flórida, em exibição no complexo de visitantes do Centro Espacial Kennedy. O Discovery será enviado ao Museu Smithsonian na capital americana, no lugar do protótipo Enterprise, que nunca foi ao espaço e será transferido para Nova York. O Endeavour irá ao Centro de Ciência da Califórnia, em Los Angeles.

História  A frota de ônibus espaciais está em operação há mais de 30 anos. Ela é composta de seis naves: o protótipo Enterprise, que nunca foi ao espaço; o Columbia, que foi destruído na reentrada em 2003; o Challenger, destruído na decolagem em 1986; o Discovery e o Endeavour, ambos aposentados em 2011; e, finalmente, o Atlantis.

Lançados como a conquista definitiva do espaço, os Space Shuttles seriam uma opção muito mais barata e segura.

O objetivo da NASA com as naves era tornar a viagem espacial "corriqueira", com um veículo reutilizável. Uma meta alcançada apenas parcialmente: embora os ônibus espaciais tenham permitido que astronautas menos "super-humanos" fossem ao espaço, poucos lançamentos ocorreram por ano.

Quando os Estados Unidos iniciaram o programa, o país decidiu construir um veículo que faria das viagens espaciais uma rotina e superaria os soviéticos no esforço para dominar o espaço durante a Guerra Fria.

A aeronave resultante tinha 2,5 milhões de componentes e era nove vezes mais rápida que uma bala ao zarpar em direção ao céu. Foi a primeira espaçonave reutilizável, capaz de deslizar de volta para a Terra e pousar como um avião. As outras naves espaciais tripuladas não voltavam para casa inteiras – elas caíam no mar ou usavam paraquedas para retornar à Terra.

O historiador-chefe da NASA, Bill Barry, diz que, "naquele momento, era uma coisa de ponta".

O design das aeronaves é um produto dos anos de 1970. O presidente Richard Nixon assinou a autorização para o programa de ônibus espaciais em 1972, meros 15 anos após a União Soviética lançar o primeiro satélite feito pelo homem, o Sputnik, com o tamanho de uma bola de praia, que marcou o início da era espacial.

A primeira missão foi feita com a nave Columbia, em 12 de abril de 1981, quando os astronautas John Young e Robert Crippen passaram dois dias dando voltas em torno da Terra para fazer testes.

Para entender as relíquias que são os ônibus espaciais, considere: naquela época, a música ainda era vendida em fitas cassete, não havia endereços "pontocom" e os Estados Unidos não tinham um serviço comercial para celulares.

Infográfico destacando xaracterísticas técnicas do ônibus espacial e destaques da história do programa (Foto: Editoria de Arte / Folhapress)

Um ponto alto da história do ônibus espacial ocorreu em 1990, quando o Discovery lançou o primeiro telescópio espacial, o Hubble, que revolucionaria a história da astronomia. O Hubble tem um papel importante na observação do espaço, já que fica acima da atmosfera da Terra, reduzindo distorções da luz. Com isso, ele consegue imagens melhores do que os telescópios instalados na superfície.

O piloto da nave era Charles Bolden, atual diretor da NASA e primeiro negro a ocupar o cargo.

No fim de dezembro de 1993, o Endeavour efetuou a primeira missão de manutenção do telescópio, com o objetivo de corrigir um defeito de concavidade que o Hubble apresentava em um espelho. Os ônibus espaciais fizeram outras quatro missões de manutenção do telescópio, a última em 2009.

Em fevereiro de 1995, um voo do Discovery marcou o início de uma estreita colaboração espacial entre russos e americanos. A nave transportou um cosmonauta russo e chegou a se aproximar muito da estação russa Mir, que havia sido voluntariamente tirada de órbita com o objetivo de ser destruída em 2001.

Três meses mais tarde, o Atlantis realizou a primeira de nove missões à Mir, com quatro russos e um americano a bordo.

A construção da ISS, a partir de 1998, foi a principal missão os ônibus espaciais.

Mas o programa de ônibus espaciais viveu dois episódios trágicos.

No dia 28 de janeiro de 1986, a nave Challenger explodiu diante das câmeras de televisão 73 segundos após ser lançada. Os sete membros da tripulação morreram – entre eles Christa McAuliffe, de 37 anos, que seria a primeira professora a voar ao espaço. Os ônibus ficaram parados por quase três anos e reiniciaram suas expedições em setembro de 1988, com um voo do Discovery.

Os lançamentos de ônibus espaciais já eram coisa comum quando ocorreu uma nova catástrofe: o Columbia se desintegrou ao entrar na atmosfera em 1º de fevereiro de 2003 e seus sete tripulantes morreram.

Não houve voos dessas naves durante dois anos e meio por causa disso. Uma comissão de investigação designada para analisar as causas do acidente criticou duramente a NASA e formulou drásticas recomendações para melhorar as condições de segurança.

Mas em julho de 2005, em seu primeiro voo após a paralisação do programa, o Discovery perdeu um fragmento grande de espuma isolante no momento do lançamento. Esse mesmo problema foi apontado como causa do acidente do Columbia.

Por isso, os ônibus espaciais ficaram novamente nos hangares durante um ano.

Críticos do programa afirmam que, com os ônibus espaciais, a NASA ficou "confinada" à baixa órbita da Terra, em vez de se dedicar à exploração do espaço.

Mesmo com falhas, porém, o programa dos ônibus espaciais foi fundamental para o desenvolvimento da ciência em órbita. Eles transportaram a maior parte das peças e equipamentos para a montagem da ISS, além do telescópio Hubble, ambos revolucionários em suas áreas.

O programa espacial passou a ser considerado custoso e pouco prático pelas autoridades americanas. Ao longo de três décadas, ele gerou um gasto total de R$ 305 bilhões (US$ 196 bilhões), isso sem contar os dois acidentes que deixaram um total de 14 mortos.

O primeiro passo antes do anúncio do fim do programa foi a redução drástica do número de viagens. No entanto, o custo de todo o projeto, até 2010, foi de US$ 209 bilhões, pouco menos que o PIB do Chile. Cada uma das missões, portanto, custou US$ 1,6 bilhão, valor bem distante do inicialmente divulgado pelo governo americano: US$ 20 milhões.

Aposentadoria  A decisão de aposentar a frota veio após o acidente com o Columbia, que se desintegrou na reentrada na atmosfera em 2003. A orientação do então governo Bush era finalizar a ISS, aposentar a frota até 2010 e desenvolver uma nave nova que deveria estar em operação em 2014.

De lá para cá, o governo Obama confirmou a aposentadoria do programa, mas permitiu um ano a mais de voos, até 2011. As operações na ISS foram estendidas até pelo menos 2020. E o programa de naves da administração Bush, o projeto Constellation, foi cancelado. Em seu lugar, o atual presidente ordenou que a parte de desenvolvimento e construção de espaçonaves fosse delegada à iniciativa privada, enquanto a NASA se dedicaria a pensar as próximas fronteiras da exploração espacial.

Lançamento do Atlantis, na Flórida, às 16h29 de hoje (08/07/2011) (Foto: Gary Hershorn / Reuters)

"Vamos começar a estender as fronteiras que temos para que não fiquemos fazendo a mesma coisa repetidamente. Vamos pensar sobre qual é o próximo horizonte. Qual é a nova fronteira? Mas para fazer isso, vamos precisar de avanços tecnológicos que ainda não temos", disse Obama na quarta-feira (06) em uma entrevista com usuários do Twitter.

O presidente americano afirmou que a "nova fronteira" pode ser Marte e que, para chegar lá, "um asteroide é um bom ‘pit stop’".

E agora?  Enquanto a iniciativa privada não entrega a nova nave, no entanto, os americanos vão ficar sem acesso próprio ao espaço – algo que não acontece desde 1961, quando Alan Shepard se tornou o primeiro cidadão do país a deixar a Terra. Para chegar à ISS, eles terão que fazer algo que tiraria do sério Shepard, o homem que perdeu a chance de ser o primeiro no espaço para Yuri Gagarin por pouco mais de um mês, 50 anos atrás: pagar US$ 50 milhões (R$ 78 mi) para viajar em naves da Rússia.

Para os americanos, isso representa apenas umas poucas oportunidades de viagem durante um ano. Compare isso com os 35 a 50 assentos que os ônibus espaciais proviam a cada ano e não é de estranhar que a equipe de astronautas ativos da NASA tenha encolhido para 61 membros. Apenas os mais jovens e pacientes estão dispostos esperar, nestes tempos de dinheiro apertado.

Países parceiros na construção da ISS, como os da Europa, manifestaram-se contra a NASA por ter o acesso restringido. Enquanto isso, a nave substituta dos ônibus espaciais, o MPCV (Veículo Multifuncional Tripulado) não deve começar suas missões tripuladas antes de 2019.

Ela, no entanto, será usada para missões de longa duração, inclusive em uma eventual visita a Marte. As visitas à ISS ficariam a cargo da iniciativa privada – mas nem mesmo os programas particulares têm data para começar a voar.

Por conta dessa indefinição, ex-astronautas resolveram criticar abertamente a política espacial dos EUA. Neil Armstrong, o primeiro homem na lua, e outros astronautas escreveram uma carta aberta dizendo que a NASA está "consideravelmente fora de rumo".

O administrador da NASA, Charles Bolden, minimizou as críticas. Para ele, a NASA irá "consolidar a liderança americana no espaço".

Último lançamento do Atlantis (Foto: Joe Skipper / Reuters)

Desemprego Trabalhadores do Centro Espacial Kennedy sempre souberam que, com o fim do programa do Ônibus Espacial, a "Costa Espacial da Flórida" teria sérios problemas. Eles apenas não conseguiram prever a gravidade deles.

Com cortes de cerca de 7.000 empregos e as vagas disponíveis desaparecidas desde o ano passado – quando o presidente Barack Obama desfez planos de retorno dos astronautas à Lua –, os futuros desempregados e aqueles que já perderam seus empregos agora estão competindo em um mercado de trabalho onde mais de uma em cada dez pessoas estão desempregadas.

E os trabalhadores da Costa Espacial ainda estão sentindo os efeitos da crise imobiliária, que torna mais difícil vender suas casas e se mudar para outra localidade para procurar trabalho. "Parece que tudo está mudando para o pior", disse Kevin Smith, presidente do sindicato local de bombeiros, paramédicos e oficiais para aterrissagem de emergência do Centro Espacial. "As pessoas estão competindo até para as menores coisas lá fora."

A Costa Espacial já enfrentou tempos difíceis antes. Houve um momento entre o fim do Programa Apollo no meio dos anos 1970 até o lançamento do primeiro Ônibus Espacial em 1981, mas, naquela época, os trabalhadores da área espacial e de negócios tinham o ônibus espacial para olhar adiante ao final dos seis anos de hiato.

Não existe nenhum programa como esse para funcionários como o engenheiro Tony Crisafulli, que vai ser demitido dois dias depois que o Atlantis retornar da sua última missão em julho. "Todos nós estamos trabalhando sabendo que vamos perder nossos empregos em alguns dias", diz Crisafulli, que trabalha no centro espacial há aproximadamente 23 anos.

Com o cancelamento do Constellation, 2000 empregos foram eliminados. "Todos nós estávamos contando com o fato que seriamos remanejados durante a transição", disse Crisafulli. "Ao menos, era alguma coisa."

As agências de emprego locais estimam que a NASA injeta  US$ 1,2 bilhão (R$ 1,8 bi) na economia da Flórida e que dois empregos serão perdidos para cada cargo eliminado no programa aeroespacial.

No auge do programa do ônibus espaciais, o Centro Espacial Kennedy contava com 17 mil trabalhadores que trabalhavam principalmente para empresas privadas. Após a aposentadoria dos ônibus, irão sobrar apenas 8.500 empregos. Eles irão finalizar o programa, preparar os ônibus para os museus, cuidar de missões não tripuladas e testar a nova cápsula espacial.

O programa espacial vai além dos empregos, ele faz parte da identidade da região que se estende ao longo da Flórida. Essa era uma área tranqüila conhecida por sua vegetação e por seus resorts antes de ser escolhida no final dos anos 1950 para ser o local onde os Estados Unidos entraria na Era Espacial.

Com o lançamento dos foguetes Saturn, as comunidades de Titusville, Cabo Canaveral, Meritt Island e Cocoa Beach, receberam engenheiros altamente qualificados, gerentes de projetos e técnicos, e a indústria aeroespacial se tornou dominante na área.

O código DDD é 321. Escolas infantis ganharam o nome de ônibus espaciais e há a Escola Astronauta e a Escola Satélite de Ensino Médio. As pessoas podem ir até o restaurante Moon Hut ("Toca da Lua"), e turistas podem dormir em uma cama parecida com a dos ônibus espaciais no Best Western Space Shuttle Inn em Titusville.

Restaurantes e comércios já estão começando a sentir os efeitos do apertar dos cintos e os moradores da região começaram a ficar em casa para poupar dinheiro. Depois de julho, demorará bastante até que os hotéis estejam lotados como geralmente acontecia para o lançamento de ônibus espaciais.

Centenas de milhares de espectadores iam a Brevard County para assistir aos lançamentos. "Todos estão começando a sentir o beliscão. Pessoas não estão trabalhando. Elas estão economizando", disse Donna Trash, que organiza um workshop para trabalhadores da indústria aeroespacial em Brevard Workforce. "A cada lançamento essa área fica cheia de pessoas e todo mundo se beneficia disso."Morador de Cocoa Beach vende camisetas temáticas do voo do Atlantis (Foto: AP)

A Costa Espacial teve anos para se preparar para o final dos ônibus espaciais, mas durante o anúncio em 2004, os tempos eram diferentes. Na época, a taxa de desemprego na Flórida era de 3,5%, o boom imobiliário alimentava o crescimento da construção e a Costa Espacial tinha as propriedades mais caras no centro da Flórida.

Agora, a taxa de desemprego é de 20,6%, o crescimento desapareceu e surgem cada vez mais placas de "vende-se" nas vizinhanças. "O número de pessoas que encontraram outro emprego é insignificante. Você quase tem que se mudar para conseguir outro trabalho", disse Lew Jamieson, presidente do sindicato local de pessoas que prestam apoio ao lançamento de ônibus espaciais.

Os trabalhos na indústria aeroespacial que seriam naturais para as pessoas demitidas do programa do ônibus espacial estão em locais como a Carolina do Sul, Oklahoma e o Pacífico Norte. A Boeing e outras empresas aeroespaciais que possuem trabalhadores no centro espacial estão contratando para trabalhar em suas fábricas de avião. "Não precisamos de cientistas especializados em foguetes para construir aviões comerciais, mas necessitamos de pessoas inteligentes", disse Stephen Davis, relações públicas da Boeing.

Esses empregos, no entanto, estão na casa das dúzias, talvez centenas na melhor das hipóteses. E mesmo que esses trabalhadores sejam contratados fora da Flórida, eles ainda teriam que vender suas casas durante o maior colapso imobiliário em décadas. O valor médio de uma casa em Cabo Canaveral, cidade mais próxima do centro espacial, saiu de cerca de US$ 250 mil em 2007 para aproximadamente US$ 110 mil em maio, de acordo com o site da imobiliária Zillow.

O técnico espacial Giovanni Pinzon disse que a mudança é complicada para trabalhadores que como ele que se estabeleceram na área com uma família e casa. "Eu consideraria sair do estado. É minha última opção e eu ainda não a descartei completamente", disse Pinzon, 47, que também vai ser demitido dois dias depois da aterrissagem do último ônibus espacial.

Raymond Steele diz que ainda está lutando desde que perdeu seu emprego como engenheiro de logística no programa lunar e seu casamento entrou em colapso. Mas, aos 57 anos, ele está mais preocupado com o futuro da Costa Espacial, local que ainda chama de lar. "Há um enorme efeito dominó", disse. "Não se trata apenas de engenheiros aeroespaciais como eu que são demitidos. Há esposas, crianças, escolas, restaurantes. Não se trata apenas de empregos e sim de comunidades."

A sensação da população é confusa, diz Marcia Gaedcke, presidente da Câmara de Comércio de Titusville. "É o final de uma era de 30 anos para essa comunidade. O programa das naves, os lançamentos e as aterrissagens foram parte de nossa vida e será uma grande mudança emocional e mental."

Marcia lembra que tinha dez anos quando a primeira nave desse tipo foi lançada e diz que todas as pessoas que conhece "trabalharam no programa de uma maneira ou de outra".

O final da era dos ônibus espaciais foi comparado com o final do Programa Apolo, nos anos 1970, que conseguiu chegar à Lua, e que também deixou milhares de pessoas sem emprego.

O Centro Espacial Kennedy explicou, no entanto, que não empregou tanta gente como na era do Apolo e que "as pessoas têm opções em termos de empregos futuros".

Contudo, a realidade prevê que Kennedy demita entre 7.000 e 8.000 funcionários. Somando empregos diretos e indiretos, haverá um total de 20 mil a 24 mil empregos a menos na região.

O economista Hank Fishkind considerou que a região demorará entre cinco a dez anos para se recuperar do impacto.  Gaedcke vê a transição como uma "oportunidade", já que "muita gente muito qualificada passará às companhias de alta tecnologia".

Por exemplo, a companhia aérea brasileira Embraer abrirá uma fábrica de montagem em Melbourne e a companhia SpaceX, que procura ganhar o contrato para abastecer a ISS (Estação Espacial Internacional), construiu um centro de testes de sua cápsula Dragon em Cabo Canaveral.

Quanto ao turismo, o analista lembrou que o centro de visitantes Kennedy abrigará o Atlantis e considerou que "o povo continuará visitando para conhecer esta parte da história espacial americana".

Turistas acompanham a partida do Atlantis de longe (Foto: Gerry Broome / Associated Press)

"Grandeza"  Poucas pessoas aparentemente conseguem concordar com qual deve ser o próximo objetivo da NASA. A Lua, um asteróide, Marte? E qual é a melhor forma de se chegar lá? Enquanto o debate e as incertezas se arrastam, Ferguson disse que não percebeu nenhum sentimento negativo contra a NASA por parte daqueles que ainda trabalham no programa do ônibus espacial.

Apesar dos dois horríveis acidentes que mataram 14 astronautas e destruíram duas naves espaciais, o programa do ônibus espacial carregou mais pessoas ao espaço do que qualquer outra frota espacial. Foram 355 pessoas de 16 países, incluindo a Arábia Saudita que colocou um príncipe dentro da Discovery em 1985. Os quilômetros percorridas pelos cinco ônibus espaciais chegaram a mais de 864 milhões, com mais 6,5 milhões a serem adicionados com esta missão.

Ferguson e sua equipe querem que o voo final seja uma celebração. Durante a missão, eles irão prover um braço robótico para dar suporte a uma caminhada no espaço feita por dois astronautas da estação. A maioria do trabalho, porém, envolve transportar material da Atlantis para dentro da estação e pegar material quebrado ou lixo para descarte na Terra.

Uma coisa com a qual Ferguson não contava, quando estava mapeando o fluxo de treinamento há alguns meses foi toda a emoção que faria parte da vida da tripulação durante os já longos dias de trabalho. Quase todo trabalhador do ônibus espacial que eles encontravam queria partilhar uma história. Quanto tempo havia trabalhado no Centro Espacial Kennedy e o que o programa do ônibus espacial representava para eles. "Ao final do dia, nos nos dizíamos, uau, há muitas emoções aqui", disse Ferguson. "Mas eram todas histórias que queríamos ouvir."

Ferguson espera que a "grandeza do acontecimento tome conta de nós" no momento que as rodas tocarem o chão no dia 20 de julho, 42º aniversário dos primeiros passos do homem na lua, se o cronograma correr como planejado. Sandra imagina ter que segurar suas lágrimas enquanto anda na passarela, "contemplando 30 anos de um programa espetacular".
Ferguson completa: "Estamos apenas tentando saborear o momento. Nós queremos estar aptos a dizer ‘Nós lembramos de quando havia um ônibus espacial’."

Atlantis decola em sua última missão (Foto: Chip Somodevilla / Getty Images / France Presse)

 

Leia mais

"Análise: o legado dos ônibus espaciais", 08/07/2011, Último Segundo

 

Galerias de fotos

FolhaOnline (25 fotos)

G1 (17 fotos)

Detalhes do Atlantis e da estrutura de lançamento, G1 (5 fotos)

30 anos de operação dos ônibus espaciais, R7 (24 fotos)

Retrospectiva dos trinta anos do projeto de ônibus espaciais, Último Segundo (17 fotos)

 

Infográficos

Conheça o ônibus espacial e o processo de lançamento, G1

Saiba o que os astronautas vão fazer na última missão do Atlantis, G1

Como voa um ônibus espacial, Último Segundo

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