Quando surgiu a ideia de viagem temporal? É mesmo possível viajar no tempo?

Texto escrito em 2 de setembro de 2011.

Olá! Como vai? Tem olhado muito para cima? Espero que sim!

Como comentei na última "Palavra", escolho os temas dos textos quando eles chamam minha atenção por algum motivo. Pois bem… Em agosto, assisti ao trailer de "O Homem do Futuro", de Claudio Torres.

Trailer de "O Homem do Futuro"

O filme chegou às telonas em 2 de setembro. Zero (Wagner Moura) é um cientista brilhante mas infeliz. Vinte anos atrás ele foi humilhado e deixado pelo amor de sua vida, Helena (Alinne Moraes). Ao iniciar um novo experimento em sua pesquisa de novas fontes de energia, ele viaja para 1991 e tem a chance de mudar seu passado – e seu presente.

Como certamente aconteceu com a maioria das pessoas que assistiu a trailer, refleti e li muito sobre viagens no tempo e resolvi dedicar esta "Palavra" ao assunto.

Além disso, a última "Palavra", "Die Glocke – o Sino", acaba se relacionando com viagens no tempo. Ainda não leu? Não perca este link!

O conceito, basicamente, é se mover entre diferentes pontos no tempo de forma análoga a como fazemos no espaço, mas sem passar pelo período que separa os dois pontos – pelo menos não no ritmo normal. A viagem não precisa ser feita por um objeto propriamente dito, poderia ser feita apenas por informação.

Embora muito explorada pela ficção desde o Século XIX e uma viagem só de ida para o futuro seja teoricamente possível – exploraremos as possibilidades mais adiante – ainda não se sabe se as leis da Física permitem uma viagem ao passado.

Algumas interpretações sugerem que se você tentar viajar ao passado, poderá ir a um universo paralelo cuja história começaria a se diferenciar da sua história original após o memento em que você chegou ao passado.

Creio que os últimos três parágrafos tenham deixado claro que o assunto é complexo – e extenso. Por isso, vou dividí-lo em três partes:

  • Parte 1: Conceitos:
    Onde e quando surgiu a ideia de viajar no tempo? Conheça o conceito de viagem no tempo e os primeiros escritores a explorá-lo;
  • Parte 2: Física:
    O que realmente podemos dizer sobre viagem temporal? Veja como poderia ser possível viajar para o passado ou futuro;
  • Parte 3: Filosofia:
    Quais são os paradoxos da viagem no tempo? É possível alterar o passado – e até colocara própria existência em risco?

Hoje falaremos sobre os conceitos de viagem no tempo e suas origens.

DeLorean, máquina do tempo da série cinematográfica "De Volta para o Futuro" ("Back to the future")

Não há consenso sobre considerar estórias antigas como as primeiras evidências de viagem no tempo, uma vez que várias delas sugerem tal. Na mitologia hindu, o Mahabharata menciona que o Rei Revaita viajou ao céu para encontrar o criador Brahma e ficou chocado quando voltou e percebeu que muito tempo havia se passado.

A lenda japonesa de Urashima Tarõ, descrita inicialmente no Nihongi, sugere uma viagem ao futuro. Na lenda, o jovem pescador Urashima visita um palácio submerso onde permanece por três dias. Ao retornar, sua casa está em ruínas, sua família morreu há muito tempo e ele estava três séculos à frente de seu tempo. Outra estória antiga está no judaico Talmud. Honi HaM’agel dormiu por 70 anos e acordou num mundo em que seus netos eram avós e todas as pessoas que conhecia estavam mortas.

Literatura  Na ficção "Rip Van Winkle", de 1819, de Washington Irwin, o personagem homônimo tira uma soneca numa montanha e acorda vinte anos no futuro, quando ele já havia sido esquecido, sua esposa estava morta e a filha crescida. O sono também foi usando para viajar no tempo em "Pravdopodobnie Nebylitsi", de 1924, de Faddey Bulgarin, no qual o protagonista acorda no Século XXIX.

Em 1771, foi publicado "L’An 2440, rêve s’il en fût jamais" ("O Ano 2440: Um Sonho se já Houve um"), de Louis-Sébastien Mercier, um romance utópico no qual o personagem principal acorda no ano 2440. Com 25 edições posteriores, o livro descreve as aventuras de um anônimo que, após se envolver numa calorosa discussão com um amigo filósofo sobre as injustiças de Paris, dorme e vê-se no futuro parisiense.

A viagem ao passado parece ser uma ideia mais moderna, mas sua origem também é um tanto ambígua. "Memoirs of the Twentieth Century" ("Memórias do Século XX"), de 1733, de Samuel Madden é principalmente uma série de cartas de embaixadores ingleses em vários países ao Alto Lord do Tesouro Britânico, junto a algumas respostas do Escritório Estrangeiro Britânico, escritas em 1997 e 1998 e descrevendo as condições da época. Porém, no quadro geral da estória, as cartas eram documentos reais dados ao narrador por seu anjo guardião numa noite em 1728.

Por isso, Paul Alkon, em "Origins of Futuristic Fiction" ("Origens da Ficção Futurística"), sugere que "o primeiro viajante no tempo na literatura inglesa é um anjo guardião que retorna com documentos do estado de 1998 para 1728", embora o livro não mostre explicitamente como o anjo obteve os documentos. Posteriormente, Alkon escreve que "Seria esticar nossa generosidade elogiar Madden por ser o primeiro a mostrar um viajante chegando do futuro" e que Madden "merece reconhecimento por ser o primeiro a brincar com a rica ideia de viajem no tempo na forma de um artefato enviado para trás a partir do futuro para ser descoberto no presente".

Em 1836, Alexander Veltman publicou "Predki Kalimerosa: Aleksandr Filippovich Makedonskii" ("Os antepassados de Kalimeros: Alexander, filho de Felipe da Macedônia"), que foi chamada de primeiro romance russo de ficção científica e primeiro romance a usar a viagem no tempo. O narrador viaja à Grécia antiga em um hipogrifo, encontra Aristóteles e viaja com Alexandre, o Grande, antes de retornar ao Século XIX.

Sono profundo  Na antologia de ficção científica "Far Boundaries" ("Fronteiras Distantes"), de 1951, o editor August Derleth identifica o conto "Missing One’s Coach: An Anachronism" ("A Diligência do Desaparecido: Um Anacronismo"), escrito por um anônimo em 1838 para a Dublin Literary Magazine, como uma viagem no tempo. O narrador aguarda sob uma árvore pela diligência que irá buscá-lo e tirá-lo de Newcastle quando vê-se mais de mil anos no passado e encontra São Beda (Beda, o Venerável) em um monastério e dá a ele irônicas explicações sobre os séculos futuros.

Nunca fica totalmente claro se o personagem viajou mesmo ou se estava apenas sonhando – ele diz que quando encontrou um lugar aparentemente confortável nas raízes da árvore, sentou-se, "e, como meu cético leitor irá me dizer, distrai-me e dormi", mas depois diz que ele está "decidido a não admitir" estas explicação. Um número de elementos semelhantes a sonhos na estória podem sugerir o contrário ao leitor, como o fato de que nenhum membro do monastério parece poder vê-lo no início e o fim abrupto, no qual Beda se atrasa conversando com o narrador e os outros monges irrompem pensando que algo de ruim ocorreu com ele e, repentinamente, o narrador vê-se sob a árvore no presente (agosto de 1837), com sua diligência acabando de passar por seu ponto na estrada, deixando-o em Newcastle por mais uma noite.

Alguns também consideram "A Christmas Carol" ("Um Conto de Natal"), de 1843, de Charles Dickens, como uma das primeiras representações de viagem no tempo. O protagonista, Ebenezer Scrooge, é transportado para Natais passados, presentes e ainda por vir. Como Scrooge podia apenas ver – sem interagir – cada período, usualmente considera-se sua experiência como meras visões e não viagem verdadeira.

Um exemplo mais claro de viagem no tempo está em "Paris avant les hommes" ("Paris Antes dos Homens"), de 1861, do geólogo e botânico francês Pierre Boitard. Na estória publicada postumamente, o personagem principal é transportado para a Pré-História pela magia de um "demônio coxo" (um trocadilho francês com o nome de Boitard – "boiteux" significa "coxo") e encontra animais extintos, com um plesiossauro e uma versão de um ancestral humano primata imaginado por Boitard e é capaz de interagir ativamente com alguns deles.

Em 1881, apareceu no New York Sun um claro exemplo de viagem temporal na ficção: "The Clock That Went Backward" ("O Relógio que Girou para Trás"), de Edward Page Mitchell.

Em "A Connecticut Yankee in King Arthur’s Court" ("Um Yankee de Connecticut na Corte do Rei Arthur"), publicado em 1889 por de Mark Twain, o protagonista vê-se no tempo do Rei Arthur após uma briga na qual foi atingido por uma marreta. O livro ajudou a trazer o conceito de viagem no tempo a um público maior e foi uma das primeiras estórias que mostraram a história ser mudada pelas ações do viajante.

Cena do filme "A Máquina do Tempo" ("The Time Machine"), de 1960

Máquina do tempo  A primeira estória a mostrar a viagem no tempo sendo feita com uma máquina foi "El Anacronópete", publicado por Enrique Gaspar y Rimbau em 1887.

A "máquina do tempo" ganhou popularidade com "The Time Machine" ("A Máquina do Tempo"), de H. G. Wells, publicada em 1895, que também destacava uma máquina do tempo e é frequentemente vista como inspiração para todos as outras estórias posteriores de viagem no tempo, usando um veículo que permite que o operador viaje proposital e seletivamente. O termo "máquina do tempo" ("time machine"), cunhado por Wells é agora universalmente usado em referência a tal veiculo.

Antes de "The Time Machine", Wells havia publicado, em 1888, uma estória de viagem temporal que não teve tanta influência: "The Chronic Argonauts" ("Os Argonautas Crônicos").

Mas chega de literatura! Eu só queria mostrar como o conceito foi bastante explorado pela ficção. E repare que nem abordei o cinema ou a TV! Por enquanto, chega de ficção. Vamos aos fatos! O que realmente podemos dizer sobre viagem no tempo?

Qual é a física por trás da viagem no tempo?Algumas teorias, com destaque as Relatividades Especial e Geral, sugerem que geometrias apropriadas de espaço-tempo ou tipos específicos de movimento no espaço podem permitir a viagem para o passado e para o futuro se forem possíveis.

Em trabalho técnicos, físicos costumam  evitar o linguajar comum de "movimento" e "viagem" pelo tempo ("movimento" normalmente se refere apenas a uma mudança na posição espacial conforme a variação da coordenada temporal) e discutem a possibilidade de curvas temporais fechadas (closed timelike curves, CTCs) – linhas de universo* que formam voltas fechadas no espaço-tempo, permitindo que objetos voltem para seu próprio passado. Sabe-se que há soluções para as equações de relatividade geral que descrevem espaço-tempos que contenham CTCs, mas a plausibilidade física destas soluções não é certa.

Gêmeos  Segundo a Teoria da Relatividade, se alguém fosse para longe da Terra a velocidades relativísticas – próximas à da luz – e retornasse, mais tempo teria se passado na Terra que na nave do viajante. Desta forma, a Relatividade permite "viagem para o futuro". Segundo a teoria, não há uma resposta objetiva de quanto tempo "realmente" se passou entre a partida e o retorno, mas há uma resposta objetiva de quanto tempo próprio* se passou na Terra e na nave.

Este é o paradoxo dos gêmeos. Um gêmeo faz uma viagem espacial a altíssima velocidade e, ao retornar, descobre que seu irmão idêntico, que ficou na Terra, envelheceu mais do que ele. O resultado parece intrigante já que cada um vê o outro viajando e, aplicando ingenuamente a dilatação do tempo, cada um deveria paradoxalmente ter visto o outro envelhecer mais devagar. Na verdade, o resultado não é um paradoxo pois pode ser resolvido com o enquadramento padrão da Relatividade Especial. O efeito já foi comprovado experimentalmente usando medidas de relógios precisos em aviões e satélites.

Avô  Na contramão, muitos na comunidade científica acreditam que viajar para o passado – como Zero fez no cinema – é muito improvável. Qualquer teoria que permita a viagem ao passado precisaria resolver os problemas de causalidade (relação entre causa e efeito).

Um exemplo clássico envolvendo causalidade é o paradoxo do avô, proposto (desta forma) pelo escritor de ficção científica René Barjavel em 1943 no livro "Le Voyageur Imprudent" ("O Viajante Imprudente"). Suponhamos que um homem vá ao passado e mate seu avô biológico antes deste conhecer a avó biológica. Como resultado, um dos pais biológicos do viajante imprudente (e ele próprio) nunca teria sido concebido. Desta forma, ele não poderia ter viajado no tempo, o que significa que o avô teria continuado vivo e o viajante teria ido ao passado e assassinado-o. Este é um excelente exemplo de paradoxo lógico: cada possibilidade implica sua própria negação.

Apesar do nome, o paradoxo do avô não exclusivamente se refere à impossibilidade do nascimento do viajante. Refere-se a uma ação que impede a viagem ao passado. Outro exemplo envolve o conhecimento necessário para a invenção da máquina do tempo. O viajante vai ao passado e, de alguma forma (já houve muitas menções a assassinatos), acaba impedindo que o cientista que descobriu algo fundamental para a criação da máquina termine seu trabalho.

Um paradoxo equivalente e mais direto é conhecido na Filosofia como autoinfanticídio: voltar no tempo e matar si mesmo quando criança.

A ausência de visitantes do futuro significa que é impossível viajar para o passado?

O paradoxo do avô é usado como argumento contra a possibilidade de viagem para o passado. Porém, existem hipóteses postuladas para evitá-lo, como a ideia de que o passado é imutável, de forma que o avô sobreviveria, e de que o viajante criaria uma linha de tempo alternativa na qual ele nunca nasceria.

Segundo o princípio ou conjectura de consistência de Novikov, desenvolvido pelo físico russo Igor Dmitriyevich Novikov nos anos 1980, se existe um evento que daria origem a um paradoxo ou a qualquer "mudança" no passado, sua probabilidade é zero. Isto é, é impossível criar paradoxos temporais.

Outra teoria diz que ao viajar no tempo, o viajante vai para um universo paralelo. O que quer que ele faça lá não vai colocar sua existência ou a viagem em risco.

Abordaremos estes paradoxos temporais nas segunda e terceira partes de "Tempo Perdido?".

Turistas  Uma vez, Stephen Hawking sugeriu que a ausência de turistas do futuro constitui um argumento contra a viagem no tempo – uma variação do paradoxo de Fermi (a aparente contradição entre a grande probabilidade da existência de civilizações extraterrestres e a falta de evidências ou contatos com tais civilizações).

Claro que isso não prova que a viagem no tempo não é possível, uma vez que ela pode ser possível mas nunca chegar a ser desenvolvida (ou cautelosamente nunca feita) e mesmo que seja desenvolvida, Hawking nota que ela pode só ser possível numa região em que o espaço-tempo está deformado da forma correta e que se não pudermos criar tal região até o futuro, os viajantes não poderiam viajar antes dessa data. "Esta imagem explicaria porque não estamos sendo inundados de turistas do futuro."

Uma vez, Carl Sagan sugeriu que os viajantes poderiam estar aqui, mas estariam disfarçando sua existência ou não estarem sendo reconhecidos como viajantes temporais. Muitos alienígenas são descritos com uma incrível aparência humana…

Tudo é relativo!  A Teoria da Relatividade Geral sugere bases para crermos que a viagem para o passado seja possível sob situações incomuns, embora argumentos da gravidade semiclássica (uma abordagem da teoria da gravitação quântica na qual o campo de matéria é tratado como quântico e o campo gravitacional como clássico) sugiram que quando efeitos quânticos são incorporados à Relatividade Geral os buracos das CTCs possam ser fechados.

Estes argumentos semiclássicos levaram Hawking a formular a conjectura de proteção da cronologia, sugerindo que as leis fundamentais da natureza previnem a viagem temporal, mas os físicos não conseguem chegar a um julgamento definido sem unir a gravitação quântica, a mecânica quântica e relatividade geral em uma teoria completamente unificada.

Enquanto os físicos quebram a cabeça, você confere abaixo um clipe da música "Tempo Perdido", da banda Legião Urbana, tema de "O Homem do futuro", cantada pelos protagonistas do filme e com cenas do longa.

Clipe de "Tempo Perdido", interpretada por Alinne Moraes, Wagner Moura e banda, trilha sonora de "O Homem do Futuro"

Eu ainda não assisti ao filme, mas pretendo ir ao cinema no próximo fim de semana – assim como ao 4° Encontro Ufológico de São José dos Campos.

Na segunda parte de nossa incursão às viagens temporais, exploraremos com maiores detalhes as possibilidades físicas para sua realização. Até lá, eu deixo uma pergunta: o que você faria se tivesse uma máquina do tempo? Envie sua resposta pela página Contato! As melhores cinco ganham pares de ingressos para o filme!

Para encerrar, lembro que a Escola Municipal de Ciências Aeronáuticas, de Taubaté (SP), em breve abrirá inscrições para seu processo seletivo para 2012. Mais detalhes aqui.

Obrigado por acompanhar o Blog do Astrônomo! A segunda parte de "Tempo Perdido?" está disponível aqui! Céus limpos! Abraços!

"Mesmo que o futuro lhe pareça distante, ele está começando neste exato momento."

-Mattie J. T. Stepanek (1990–2004), poeta estadunidense

Eduardo Oliveira

editor

*A linha de universo de um objeto é o caminho único do objeto conforme ele viaja no espaço-tempo tetradimensional (três dimensões espaciais e uma temporal).

*Tempo próprio é o tempo decorrido entre dois eventos medidos por um relógio que passa pelos dois.

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