Como os filósofos interpretam as viagens temporais? Podemos alterar o passado – e até colocar a própria existência em risco?

Texto escrito em 28 de agosto de 2011.

Olá! Como vai? Estamos chegando ao fim de "Tempo perdido?", um especial do BdA sobre viagens no tempo. "Tempo perdido?" é dividida em três partes:

  • Parte 1: Conceitos:
    Onde e quando surgiu a ideia de viajar no tempo? Conheça o conceito de viagem no tempo e os primeiros escritores a explorá-lo;

  • Parte 2: Física:
    O que realmente podemos dizer sobre viagem temporal? Veja como poderia ser possível viajar para o passado ou futuro;

  • Parte 3: Filosofia:
    Quais são os paradoxos da viagem no tempo? É possível alterar o passado – e até colocara própria existência em risco?

Nesta última parte, veremos como a Filosofia enxerga a viagem no tempo. Como as outras duas partes foram bem compridas, está será curta.

Como já vimos, as teorias de viagem no tempo são repletas de questões envolvendo causalidade e paradoxos. Comparado a outros conceitos fundamentais da Física atual, o tempo ainda não é muito bem compreendido. Filósofos divagam sobre a natureza do tempo desde antes da Grécia Antiga.

Eternalismo e presentismo  A relatividade da simultaneidade, que vimos na segunda parte, favorece uma visão filosófica conhecida como eternalismo e quadridimensionalismo, na qual objetos físicos são vermes do espaço-tempo temporalmente prolongados ou estágios de vermes do espaço-tempo. Esta visão, segundo Ted Sider, professor do departamento de filosofia da Universidade Cornell, seria favorecida pela possibilidade de viagem no tempo.

O eternalismo constitui um método padrão de modelagem do tempo como uma dimensão na física para dar ao tempo uma ontologia similar à do espaço. Isso significaria que o tempo é apenas uma outra dimensão, que eventos futuros "já estão lá" e não há fluxo objetivo de tempo.

Do outro lado, temos o presentismo, uma linha de pensamento na qual nem passado nem futuro existem, nem objetos que não são do presente. Porém, presentistas do Século XXI têm argumentado que, embora objetos passados e futuros não existam, ainda podem haver verdades definidas sobre eventos passados e futuros, sendo, desta forma, possível que uma verdade futura sobre um viajante temporal decidindo viajar para o presente poderia explicar a aparição do viajante no presente.

Paradoxo do avô  Outra questão filosófica levantada pela possibilidade de viagem no tempo é a ideia de que o viajante temporal possa ir ao passado e mudar algumas coisas. o paradoxo do avô, que também já abordamos anteriormente, e o auto infanticídio são os melhores exemplos disso.

No paradoxo do avô, o viajante assassina seu avô antes que este conheça sua avó, tornando impossível o nascimento de um de seus pais e seu próprio nascimento – de forma que ele nunca teria viajado ao passado e assassinado seu avô.

Ilustração do paradoxo do avô

O autoinfanticídio funciona de maneira parecida: o viajante vai ao passado e assassina a si mesmo quando criança, de forma que ele nunca cresceria e viajaria no tempo para tal.

A discussão é importante para a filosofia de viajem no tempo pois os filósofos questionam se estes paradoxos tornam a viagem impossível. Este é o ponto-chave: o viajante impedir a viagem. Alguns deles argumentam que pode ser possível a viajar ao passado mas impossível mudá-lo de alguma forma, assim como proposto no princípio de autoconsistência de Novikov, que vimos na parte anterior, na Física.

Compossibilidade  O filósofo e matemático alemão Gottfried Leibniz (1649–1716) criou o conceito da compossibilidade. Nele, algo completamente individual, uma pessoa, por exemplo, é caracterizada por todas as suas propriedades e isso determina suas relações com os outro indivíduos. A existência de um indivíduo pode contradizer a de outro. um mundo possível é feita de indivíduos compossíveis, que podem existir juntos. Mundos possíveis existem como possibilidades na mente de Deus. Um mundo entre eles é o mundo verdadeiro, e este é o mais perfeito.

A análise do filósofo estadunidense David Lewis (1941–2011) sobre a compossibilidade e as implicações de mudar o passado serve para explicar as possibilidades de viagem no tempo numa concepção unidimensional de tempo sem criar paradoxos lógicos.

Lewis deu o exemplo de Tim. Tim odeia seu avô e gostaria muito de matá-lo. O único problema para Tim é que seu avô faleceu há anos. Mas ele quer tanto matá-lo que constrói uma máquina do tempo e viaja para 1955, quando seu avô era jovem, e o assassina. Supondo que Tim pode viajar para um tempo em que sua avô ainda estava vivo, a questão é feita: Ele pode matar seu avô?

Para Lewis, a resposta estava no contexto da palavra "pode". Lewis explicou que a palavra deve ser vista contra o contexto de fatos pertinentes relativos à situação. Vamos supor que Tim tenha um rifle, anos de treino de tiro, um tiro certeiro num dia claro e nenhuma força externa para impedir seu dedo no gatilho. Tim pode atirar em seu avô? Considerando estes fatos, parece que sim – todos os fatos contextuais são compossíveis com Tim assassinando seu avô. Porém, ao refletir sobre a compossibilidade de uma dada situação, devemos reunir o conjunto de fatos mais abrangente que pudermos.

Agora, considere o fato de que o avô de Tim faleceu em 1993 e não em 1955. Este novo fato sobre a situação de Tim revela que ele assassinando seu avô não é compossível com o conjunto atual de fatos. Tim não pode assassinar seu avô pois este último morreu em 1993 e não na juventude.

Assim, Lewis concluiu que as declarações "Tim não [assassina seu avô], mas pode, pois tem o que é preciso" e "Tim não [assassina] e não pode pois é logicamente impossível mudar o passado" não são contradições. Ambas são verdade dados o conjunto relevante de fatos.

O uso da palavra "pode" é equivocado: ele "pode" e "não pode" sob fatos relevantes diferentes.

Então, o que acontece com Tim quando ele coloca seu avô na mira? Lewis acredita que a arma irá emperrar, um pássaro o atrapalhará, ou ele escorregará em uma casca de banana. De qualquer forma, haverá uma força lógica do universo que sempre irá impedir Tim de assassinar seu avô.

Outras questões  Há outros paradoxos que misturam Física e Filosofia. Vejamos alguns deles…

"Aviso! Proibido paradoxos!"

No paradoxo da acumulação, uma pessoa volta a um ponto do passado em que ela esteve, encontrando ela mesma – estando em dois lugares ao mesmo tempo –, como acontece com Zero, o personagem de Wagner Moura em "O Homem do Futuro".

No paradoxo do deslocamento em trânsito, o viajante do tempo leva consigo seu próprio tempo, o presente do modo exato que estava no momento de sua viagem, e não pode ser afetado por acontecimentos ocorridos após usa partida até que volte.

Um viajante temporal encontra, no passado, um conhecido que ainda não conhecia no passado visitado e não é reconhecido por ele. Este é o paradoxo da descontinuidade.

O paradoxo final é criado por um viajante que muda a História de modo que viagem no tempo nunca seja inventada. Entre este paradoxo e o do avô, temos o paradoxo de causa e efeito, no qual alguém viaja ao passado para alterar um evento e mudar o presente e, assim que o fizesse, o motivo pelo qual viajou deixaria de existir e, consequentemente, a viajem também. "O que foi prometido, ninguém prometeu."

No paradoxo da história retroativa, já bem explorado pela ficção, pessoas que não haviam nascido na época de acontecimentos historicamente registrados acabam tornando-se protagonistas desses mesmos eventos.

No paradoxo dos loops de informação, uma informação é enviada do futuro para o passado e se torna a fonte inicial de si mesma.

Me lembro de ter visto o loop de informação numa história em quadrinhos da Turma da Mônica quando eu era pequeno. Quando Mônica era um bebê, encontraram um quadro numa festa de aniversário dela. Ninguém sabia de onde o quadro havia vindo, mas o acharam bonito e o penduraram na sala da casa. Depois, quando Mônica já era mais crescida, ela viaja no tempo e leva o quadro junto – para o aniversário onde ele foi encontrado.

Um paradoxo semelhante é o dos loop sexual: o viajante vai ao passado e tornasse ancestral de si mesmo.

Por fim, há a Lei dos Paradoxos Menores, na qual, se dois paradoxos mutuamente exclusivos podem ocorrer simultaneamente, o primeiro a acontecer será o menos paradoxal.

Vamos encerrando nossa conversa por aqui… Tenho que avisar o editor deste blog que um satélite de pesquisa atmosférica da NASA vai cair em setembro. Provavelmente, ele só vai ter tempo para publicar algo a respeito poucos dias antes – ele vai estar realizando inscrições de candidatos no processo seletivo EMCA 2012.

Enquanto não fica claro se é possível mudar o passado – e se um dia seremos capazes disso –, só nos resta tentar superá-lo.

Independente de viajarmos no tempo, temos nosso próprio tempo. Como disse Renato Russo, não foi tempo perdido, somos tão jovens!

Abraços! Watch the skies!

"O melhor profeta do futuro é o passado."

– Lord Byron (1788–1824), poeta britânico

Eduardo Oliveira

editor

Anúncios