Radiotelescópio mais poderoso – e caro – do mundo inicia suas atividades. Complexo de 66 antenas no Atacama deve ficar pronto em 2013.

Um dos observatórios terrestres mais complexos iniciou oficialmente seus trabalhos de pesquisa estelar. O projeto astronômico terrestre mais ambicioso e caro até hoje começou suas operações nesta segunda-feira (03/10/2011). O Atacama Large Millimeter Array (ALMA), uma parceria entre Chile, Europa, Ásia e Estados Unidos, captou a primeira imagem do espaço, que não poderia ser observada por telescópios ópticos ou infravermelhos.

A foto das galáxias Antena – um par de galáxias em colisão que se apresentam de forma muito distorcida na constelação do Corvo, descoberto em 1785 – feita pelo ALMA revela algo que não pode ser visto no óptico: as nuvens de gás frio e denso a partir das quais se formam as novas estrelas.

Ela também mostra enormes concentrações de gás não apenas nos centros das duas galáxias mas também na região caótica onde elas colidem. Ali a quantidade total de gás corresponde a bilhões de vezes a massa do nosso Sol – uma espécie de reservatório rico em matéria para gerações futuras de estrelas.

Galáxia da Antena vista pelo ALMA (Foto: ALMA (ESO/NAOJ/NRAO) / Imagem de luz visível: Hubble Space Telescope (NASA/ESA))

Apenas 12 telescópios foram utilizados para compor a imagem.

Cientistas do mundo todo competiram entre si para estar entre os primeiros a explorar com a nova ferramenta astronômica alguns dos mais escuros, mais frios, mais longínquos e mais escondidos segredos do cosmos.

Ainda em construção, o ALMA tem apenas um terço das 66 antenas de rádio previstas em seu projeto. Mas, mesmo assim, o ALMA já é o maior de seu tipo já construído – e também o mais caro: o total do custo da empreitada passa de US$ 1 bilhão. Levará mais dois anos para que o ALMA esteja pronto.

As 66 antenas funcionarão como um único grande telescópio, com resolução 10 vezes superior ao telescópio espacial Hubble.

"Cada antena por si só é muito precisa, mas todas juntas equivalem a uma antena muito maior. As antenas podem ser instaladas em um raio de 150 metros, que é muito preciso, ou em um raio de 15 km, que equivale a uma antena de 15 km de diâmetro. Então, consigo ver muito mais longe e com mais precisão", explicou à AFP Martin Mündnich, engenheiro mecânico de antenas.

Para transferir as antenas, de 12 metros de diâmetro, foi necessário desenvolver um veículo especial de 14 rodas capaz de levantá-las sem danificá-las. A 5.000 metros, deve-se ter cuidado especial com a poeira, o vento e a temperatura, que passa dos 30°C durante o dia a -15°C ou -20°C à noite.

"Chajnantor é um lugar espetacular. É muito seco e não temos umidade na atmosfera. Para as frequências que precisamos observar, a umidade é a mais emblemática. Às vezes, vimos em Chajnantor que o nível de unidade no topo da antena é de 0, isto é, entre a antena e a estrela não há nada de água, algo espetacular que só ocorre aqui em todo o mundo", acrescentou.

O conjunto de radiotelescópios é o primeiro projeto astronômico do qual participam Europa, Estados Unidos e Japão, em cooperação com o Chile.

O programa tem um orçamento estimado em US$ 600 milhões, financiado prioritariamente pela Organização Europeia para a Pesquisa Astronômica no Hemisfério Sul e a Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

O complexo encontra-se no planalto do Chajnantor, ao norte do Chile, a uma altitude de 5.000 metros. O local, extremamente seco, oferece as melhores condições para a radioastronomia, que explora o universo através de ondas de rádio emitidas por galáxias, estrelas e outros corpos celestes, não captados pelos telescópios ópticos e infravermelhos que só percebem a luz visível.

O Alma observa o Universo nos comprimentos de onda do milímetro e submilímetro, aproximadamente mil vezes maiores que os comprimentos de onda da radiação visível.

Utilizando estes comprimentos de onda maiores, os astrônomos podem estudar objetos extremamente frios – tais como as nuvens densas de gás e poeira cósmicas, a partir das quais se formam estrelas e planetas – assim como objetos muito distantes, situados no Universo primitivo.

Antenas do ALMA (Foto: José Francisco Salgado/ESO)

"Este tipo de observação será vital para nos ajudar a compreender como as colisões de galáxias podem provocar o nascimento de estrelas. Este é apenas um exemplo de como o ALMA revela partes do universo que não podem ser observadas pelos telescópios ópticos e infravermelhos", destacou um comunicado.

"Esperamos muito tempo para chegar ao ponto de que o ALMA seja capaz de fazer ciência. Foi um longo caminho, mas todas as partes que precisávamos para construir este telescópio por fim se uniram e temos os primeiros resultados", disse Richard Hills, chefe de projetos científicos do ALMA.

"Os resultados são realmente melhores do que podíamos esperar. São perfeitamente claros, não há nada de desordem nos dados; foram obtidos exatamente tal como esperávamos e nos mostram o que está acontecendo dentro destas galáxias que estávamos procurando", acrescentou Hills na base de operações do projeto, situada a 2.900 metros de altitude.

Para a primeira etapa de pesquisas do ALMA, que deve durar nove meses, foram recebidos 900 pedidos de observação, dos quais foram escolhidos 100 dos melhores trabalhos, que "cobrem um amplo espectro de temas, de estrelas, galáxias, planetas, cometas ou objetos distintos", disse Hills. Ao todo, os administradores do observatório já receberam mais de 900 propostas de estudos.

"Existem tipos de instrumentos ou telescópios similares no mundo, mas o ALMA é entre 10 e 100 vezes mais propensos do que os outros. Com 16 antenas (já em operação), somos tão poderosos quanto os instrumentos que existem agora", disse Lars Nyman, chefe de operações científicas.

As metas da ALMA são ambiciosas. "Deveríamos poder ver a formação das primeiras galáxias do universo", assegurou Nyman.

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