Planeta mais quente do Sistema Solar tem nuvens de ácido sulfúrico. BdA se aproxima de seu quinto aniversário.

O ano está acabando. Alguns alunos já estão com aquela certeza de terem passado de ano. Outros, nem tanto… O frio gradativamente dá lugar ao calor… Onde moro, na verdade, só tivemos umas duas ou três semanas de frio propriamente dito. Este é o clima do Brasil – na maior parte do país, só há duas estações: o verão e o inferno!

Aproveitando a elevação das temperaturas (o que inclui o aquecimento global), vamos falar sobre um lugar que sabe bem o que é isso. Lá, a atmosfera é tão nociva que suas nuvens são de ácido e a superfície é tão quente que a chuva – ácida, como a de São Paulo – evapora antes de chegar ao chão.

Pelo calor, você pode achar que estou falando do Pará, mas não. Estou falando de um lugar com um clima um pouco mais agradável: Vênus.

Piadinhas a parte, Vênus é o planeta mais quente do Sistema Solar, com 485°C em sua superfície. Não é o primeiro a partir do Sol, é o segundo, a 108 milhões de quilômetros da estrela, estando entre Mercúrio e a Terra. É o astro mais luminoso do céu terrestre, depois do Sol e da Lua. É a primeira "estrela" a brilhar ao anoitecer e a última a se apagar pela manhã. Minha avó o chama de Estrela d’Alva e ele também é conhecido como Estrela Vésper e Estrela do Pastor.

Vênus (Foto: arquivo)

Para mim, suas características mais marcantes estão nas condições encontradas em sua superfície. Sua densa atmosfera é composta de gás carbônico (96,5%) e nitrogênio (3,5%). A superfície é permanentemente coberta por nuvens na faixa de 50 a 70 km da superfície. Esta cobertura de nuvens se divide em três camadas diferenciadas pela concentração e dimensão de aerossóis que possuem.

A camada superior é feita em sua maioria por gotículas de ácido sulfúrico em solução aquosa. Nas camadas inferiores, as gotículas formam precipitações que evaporam antes de atingir a superfície e formam uma bruma sulfúrica sob as nuvens. Abaixo de 30 km, a atmosfera permanece sempre límpida.

Essa cobertura de nuvens impede a observação direta da superfície venusiana. O mapeamento e estudo da topografia do planeta foi feito através de radares – cujas ondas atravessam as nuvens e são refletidas pela superfície – de radiotelescópios e de sondas que visitaram o planeta. Falaremos destas sondas mais à diante.

A alta temperatura da superfície venusiana pode ser explicada pelo efeito estufa causado pelo gás carbônico na atmosfera. A circulação atmosférica é complexa. Células de convecção transferem o calor recebido do Sol do equador para os polos. A lenta circulação norte–sul, de 25 km/h, é eclipsada por uma rápida rotação leste–oeste da cobertura de nuvens, de 400km/h, no topo das nuvens no equador. Porém nos polos, há turbilhões e o teto das nuvens desce para cerca de 15 km.

Suspeitas de raios foram confirmadas em 2007 pelas sonda europeia Venus Express. Na Terra, em Júpiter e em Saturno, raios são associados a nuvens de água, mas, em Vênus, são associados a nuvens de ácido sulfúrico.

Observações por radar mostraram que Vênus gira em torno de si mesmo uma vez a cada 243 dias em sentido inverso a dos outros planetas. Some a isso uma revolução sideral (translação) de 224,7 dias e o dia venusiano possui 117 dias terrestres.

Sob o véu, 70% da superfície é formada por planícies, 22% por depressões e 8% por montanhas e planaltos elevados. Os cumes mais altos, os montes Maxwell, chegam a 11 km. Há dois planaltos principais no planeta: Ishtar Terra, que tem o tamanho da Austrália e fica na região polar norte, e Afrodite Terra, do tamanho da América do Sul e estendendo-se por quase 10 mil km. Os montes Maxwell elevam-se na borda leste de Ishtar Terra.

Superfície de Vênus (Foto: arquivo)

Cientistas acreditam que a superfície venusiana foi completamente modificada de 300 a 500 milhões de anos. Mais de 1.000 pontos vulcânicos maiores que 20 km são encontrados na superfície do planeta. Fluxos vulcânicos produziram longos e sinuosos canais com centenas de quilômetros.

Fotografias feitas por sondas na superfície mostram fragmentos rochosos erodidos que, pela composição química, se assemelham aos basaltos. Há várias crateras com mais de 3 km formadas pelo impacto de asteroides. Crateras menores do que 1,5 ou 2 km não existem pois os meteoros que as formariam queimam completamente na densa atmosfera.

Por dentro, Vênus possui uma estrutura parecida com a da Terra – com exceção das placas tectônicas, sendo a crosta venusiana um bloco único. O relevo, revelado pela sonda Magalhães nos anos 1990, sugere que sua espessura não ultrapassa 30 km.

As imagens sugerem atividade interna e mobilidade da crosta (vulcões, lava, fraturas, falhas e crateras). Acredita-se que a atividade vulcânica que ajudou a modelar a superfície ainda exista.

 

Vênus

Comparação com a Terra (Terra = 1)

Dist. média ao Sol

108.209.475 km

0,723

Periélio (dist. mín. ao Sol)

107.476.170 km

0,731

Afélio (dist. máx. ao Sol)

108.942.780 km

0,716

Raio equatorial

6.051,8 km

0,9499

Circunferência equatorial

38.024,6 km

0,9499

Volume

928..415.345.893 km³

0,857

Massa

4.867.320.000.000.000.000.000.000 kg

0,815

Densidade

5,243 kg/cm³

~1

Área superficial

460.234.317 km²

0,902

Gravidade na superfície no equador

8,87 m/s²

0,91

Velocidade de escape

37.296 km/h

o,926

Período de rotação sideral (duração do dia)*

5.832,4 h

243,68

Período orbital (duração do ano)

224,7 d

0,615

Velocidade orbital média

126.074 km/h

1,176

Excentricidade orbital

0,00677672

0,406

Inclinação orbital em relação à eclíptica

3,39°

Inclinação do equador em relação à órbita*

177,3°

7,56

Circunferência orbital

679.892.378 km

0,723

Temperatura superficial

485°C

*retrógrado
Fonte: Venus: Facts & Figures / Solar System Exploration / NASA (
http://solarsystem.nasa.gov/planets/profile.cfm?Object=Venus&Display=Facts)

Vênus foi batizado com o nome da deusa romana do amor e da beleza – a equivalente romana da deusa grega Afrodite. Acredita-se que tenha-se associado a beleza ao seu brilho, o mais forte dos cinco planetas conhecidos na Antiguidade. Outras civilizações também associaram o planeta a suas divindades de amor e guerra.

Венера  Muitas sondas exploraram Vênus. Vamos conhecer algumas. As primeiras que abordaremos são da série soviética Venera. O programa Venera (Vênus, em russo) foi conduzido de 1961 a 1983 e suas sondas eram lançadas aos pares, sendo a segunda lançada uma ou duas semanas depois da primeira.

Apesar da pouca divulgação, o programa foi pioneiro em vários aspectos. Infelizmente, as condições encontradas na superfície venusiana não permitiram que as sondas durassem muito. As primeiras oito sondas foram construídas para pousar em Vênus e as oito seguintes eram feitas de um módulo que ficava em órbita e outro que pousava e era projetado para aguentar meia hora.

Venera em Vênus (Foto: "Space Odyssey: Voyage to the Planets" / BBC, Discovery Channel, Impossible Pictures)

Vamos às missões:

  • Venera I e II: Perderam contato com a Terra antes de chegar a Vênus;
  • Venera III: Possuía um corpo cilíndrico com uma redoma no topo, com uma altura total de cerca de 2 m, dois painéis solares laterais de dimensões relativamente pequenas, uma antena com mais de 2 m de diâmetro de alto ganho, responsável pela recepção dos sinais de controle, e uma antena linear longa para transmissão dos sinais à Terra. Os instrumentos científicos da nave incluíam detectores de íons, de micrometeoritos e de radiação cósmica e um magnetômetro. A redoma no topo da nave continha uma esfera pressurizada com insígnias soviéticas e era projetada para flutuar nos presumíveis oceanos de Vênus após o pouso. A nave não possuía retrofoguetes. Chegou ao planeta em 1º de março de 1965, mantendo contínuo contato por rádio com a Terra. O contato foi perdido pouco antes da entrada da sonda na atmosfera. A sonda tornou-se o primeiro objeto feito por mãos humanas a pousar em outro planeta – embora este pouso não tenha sido controlado;
  • Venera IV: Chegou a Vênus em 18 de outubro de 1967, tornando-se a primeira sonda a entrar na atmosfera e enviar dados à Terra. Também realizou a primeira comunicação radiofônica sonda-Terra. Liberou uma cápsula com dois termômetros, um barômetro, um altímetro e medidores de densidade do ar, 11 analisadores de gás e dois rádio-transmissores. O módulo principal da nave carregava detectores de raios cósmicos e de partículas, um magnetômetro, indicadores de oxigênio e hidrogênio. O módulo de pouso conseguiu transmitir informações durante a descida, até alcançar a altitude de 25 km, freado por paraquedas, onde foi destruído;
  • Venera V: Carregava um módulo de pouso dotado de paraquedas e instrumental científico. Também levava medalhões comemorativos com insígnias soviéticas e o baixo-relevo de Lênin. Chegou a Vênus em 16 de maio de 1969, entrando em sua atmosfera no mesmo dia, enviando dados à Terra antes de ser esmagada pela atmosfera. A sonda foi lançada no lado escuro do planeta;
  • Venera VI: Idêntica à Venera V, repetiu seus feitos no dia seguinte;
  • Venera VII: Foi a primeira projetada para resistir às extremas condições do planeta Vênus e a realizar um pouso controlado no planeta. Foi o primeiro artefato humano a pousar suavemente em outro planeta e transmitir informações durante certo tempo. Chegou ao seu destino em 15 de dezembro de 1970 e pousou no mesmo dia. Enviou informações por 23 minutos antes de sucumbir. Seu radar detectou ventos de mais de 100 km/h;
  • Venera VIII: Pousou em 6 de dezembro de 1970 e sobreviveu por 50 minutos;
  • Venera XII: Chegou a Vênus em 21 de dezembro de 1978 e sobreviveu por 110 minutos;
  • Venera XI: Chegou ao planeta 4 dias depois e sobreviveu por 95 minutos, mas seus sistemas de imagens (câmeras e radares) não funcionaram;
  • Venera XIII: Em 1º de março de 1982, enviou as primeiras imagens coloridas da superfície venusiana, suportando 456°C e 89 atmosferas por 127 minutos.
  • Venera XV: Aproveitou-se a nave base (orbitador) das Venera de IX a XIV, modificando-a ligeiramente. Destinada a mapear Vênus por radar a partir de sua órbita. Foi lançada em 2 de junho e cumpriu sua missão em 10 de outubro de 1983;
  • Venera XVI: Idêntica em hardware e missão à Venera XV. Lançada em 7 de junho, realizou o mapeamento em 14 de outubro de 1983.

Hoje, a Rússia planeja para 2016 o lançamento do projeto Venera-D, que pretende explorar a superfície de Vênus com radar e levantar locais para futuros pousos.

Um pouco de humor é sempre bom (Foto: Eduardo Oliveira)

Da órbita  Nos anos 90, foi conduzida a missão Magalhães – uma das mais importantes da exploração venusiana. A sonda estadunidense, batizada em homenagem ao navegador português Fernão de Magalhães (1480 – 1521) (Magellan, em inglês), foi lançada pelo ônibus espacial Atlantis em 4 de maio de 1989 e entrou na órbita de Vênus em 10 de agosto do ano seguinte. O objetivo era fazer mapas mais precisos por radar de, no mínimo, 70% da superfície.

A sonda mapeou 98% da superfície do planeta com uma resolução de 100 a 150 metros usando um radar de diafragma sintético, uma técnica que simula o uso de uma antena muito maior. A Magalhães mostrou que 85% do planeta é coberto por fluxos vulcânicos e levantou evidências de movimento tectônico, ventos superficiais turbulentos, canais de lava, e domos em forma de panqueca, além de produzir dados gravitacionais de alta resolução para 95% do planeta e testar uma técnica de manobra chamada aerobrake, na qual se usa o atrito com a atmosfera para ajustar a órbita.

Em 12 de outubro de 1994, a sonda mergulhou na atmosfera venusiana num último experimento para recolher dados atmosféricos.

Em 21 de maio do ano passado, os japoneses lançaram sua primeira missão a Vênus: Akatsuki (aurora, em japonês). A nave foi projetada para orbitar Vênus seguindo a rotação de sua atmosfera, mapeando a circulação e a estrutura vertical das espessas nuvens.

A Akatsuki, também chamada de PLANET-C, não consegui entrar na órbita venusiana em dezembro de 2010, como planejado. Atualmente, os envolvidos na missão avaliam a nave e possibilidade de tentar novamente quando ela retornar a Vênus em alguns anos.

Em novembro de 2004, a Agência Espacial Europeia (ESA) lançou a sonda Venus Express, um verdadeiro sucesso que está em operação na órbita do segundo planeta até hoje. A sonda foi projetada para estudar a atmosfera, da superfície à ionosfera. A missão reutiliza o design da Mars Express, também da ESA, e peças de outras missões.

Venus Express (Foto: ESA)

A sonda chegou a Vênus em abril de 2006 e tem feito descobertas interessantes desde então. Uma das mais importantes foi a de sinais de que o planeta teve atividade vulcânica nos últimos três milhões de anos – sugerindo que o planeta ainda pode estar geologicamente ativo.

A sonda também fez extensivos mapas meteorológicos, fornecendo medidas de ventos e temperaturas e composição química da atmosfera. A Venus Express encontrou um redemoinho de dois olhos que domina o polo sul, moléculas de água escapando para o espaço e evidências concretas de raios, além de fornecer rápidos vislumbres em infravermelho da superfície.

Enfim… Dá próxima vez que estiver um dia quente, lembre-se deste texto e de que o calor que você está sentindo não é nada comparado ao que faz no vizinho! E se estiver pensando em curtir esse calorão no fim do ano, não se esqueça do protetor solar!

Vênus vistao pela Venus Express (Foto: ESA)

Antes de terminar, gostaria de mencionar algumas coisas. A primeira é a palestra sobre qualidade ambiental que proferi na Escola Técnica Estadual (ETEC) "Dr. Geraldo Alckmin" – Centro Paula Souza, em minha cidade, no dia 11. Foi uma experiência muito boa. Espero que os alunos também tenham gostado.

Um exemplo dos focos da palestra foi coleta seletiva em casa, lembrando da importância e as vantagens de reciclar os resíduos domiciliares. Outro ponto importante foi a apresentação do trabalho do Núcleo de Prevenção de Acidentes e Qualidade Ambiental (NPAQA) da Escola SENAI "Felix Guisard" – do qual sou vice-presidente.

Uma curiosidade: a bateria do meu relógio acabou enquanto estava no palco e me fez falar por uma hora e vinte minutos, a invés de quarenta ou cinquenta minutos…

Como puderam notar, aumentei o tamanho da fonte das postagens do Blog. Foi uma sugestão. Também tem sugestões? Envie pela página "Contato"!

Em 16 de novembro, o BdA completa 5 anos… Fique atento às novidades!

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"As espécies que sobrevivem não são as mais fortes nem as mais inteligentes, são aquelas que se adaptam melhor às mudanças."

– Charles Darwin (1809 – 1882), naturalista britânico

Eduardo Oliveira,

editor

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