Bilionário Paul Allen planeja investir US$ 200 mi em novo empreendimento espacial. Foguete lançado por avião levará cargas e, eventualmente, pessoas à órbita.

O co-fundador bilionário da Microsoft Paul Allen, de 58 anos, que financiou a primeira espaçonave privada de passageiros, está reunido com o construtor do protótipo do SpaceShipOne Burt Rutan em um novo empreendimento para levar cargas e pessoas à órbita.

A empresa, chamada Stratolaunch Systems, planeja construir uma grande aeronave que pode carregar um foguete até altas altitudes antes de ser lançado ao espaço. Seu slogan é: "Qualquer órbita. Qualquer hora." ("Any orbit. Any time.")

Projeto da Stratolaunch (Foto: Stratolaunch Systems)

A nova aeronave, propelida por seis motores dos mesmos modelos que impulsionam o Boeing 747, será a maior a voar, pesando cerca de 545 toneladas e tendo uma envergadura de cerca de 117 metros – quase o dobro da do avião Jumbo. Para comparação, o comprimento máximo de um campo de futebol oficial é de 120 metros e o da Estação Espacial Internacional é de 109 metros. A envergadura do WhiteKnightTwo, aeronave que carrega a espaçonave comercial da Virgin Galactic, é de cerca de 43 metros.

O foguete será solto à altitude de 9.100 m e avião poderá voar até 2100 quilômetros antes de soltá-lo. Uma grande vantagem deste tipo de lançamento sobre a forma convencional está no fato de ele não precisar de uma plataforma de lançamento fixa. Para pousos e decolagens, será preciso uma pista de 3,6 quilômetros.

"A beleza de um grande avião turbofan é que ele realmente encontra a definição de reutilização", disse Rutan. "Um 747, por toda a sua vida, passa algo em torno de 12 ou 15 horas por dia no ar."

O sistema é similar, porém muito maior, à SpaceShipTwo, sucessora comercial da SpaceShipOne, que levou os US$ 10 milhões do Ansari X Prize em 2004 para os primeiros voos espaciais tripulados não governamentais ao fazer dois voos suborbitais dentro de duas semanas.

A SpaceShipTwo, que atualmente está sendo testada em Mojave, Califórnia, pertence a Virgin Galactic, de Richard Branson, que já tem reservas de cerca de 500 indivíduos privados e pesquisadores científicos para curtos passeios além da atmosfera. Ela deve começar seus voos comerciais no ano que vem, com passagens custando US$ 200 mil.

"Por muito tempo, sonhei em dar o próximo grande passo no voo espacial privado após o sucesso da SpaceShipOne – oferecer um sistema de lançamento espacial orbital flexível", disse além numa declaração. "Estamos na aurora de uma mudança radical na indústria do lançamento espacial. A Stratolaunch Systems está sendo pioneira numa solução inovadora que irá revolucionar a viagem espacial."

Allen, única fonte de financiamento para o desenvolvimento, não disse quanto investiria no projeto, mas indicou que seria US$ 200 milhões ou mais. Em 2004, ele gastou US$ 20 mi com o primeiro voo espacial tripulado privado.

Equipe  "É uma grande honra para mim estar de volta trabalhando com Burt Rutan", disse Allen a repórteres numa entrevista coletiva em Seattle ontem (13/12/2011) para revelar seu novo projeto. Allen disse que este projeto será "uma solução inovadora que revolucionará as viagens espaciais".

Rutan fundou e foi chefe executivo da Scaled Composites, que construiu as SpaceShipOne e SpaceShipTwo. Ele se aposentou em abril.

"Paul e eu fomos pioneiros na viagem espacial privada com a SpaceShipOne, que levou a Virgin Galactic ao programa comercial suborbital SpaceShipTwo", disse Rutan numa declaração. "Agora, teremos a oportunidade de estender esta capacidade para a órbita e além. Paul provou ser um visionário com a vontade, comprometimento e coragem para continuar expandindo as fronteiras da tecnologia espacial. Estamos bem cientes dos desafios à frente, mas montamos uma incrível equipe de pesquisa que terá inspiração na visão de Paul."

"Isto não é um esboço", disse Rutan. "Existe em centenas de desenhos detalhados e está relativamente perto [de ser construído] assim que tivermos um prédio grande o suficiente."

A Scaled – unidade da empreiteira de defesa Northrop Grumman –, baseada em Mojave, é a principal empreiteira para a aeronave da Stratolaunch Systems. Um sistema de integração construído pela especialista em aviação e mísseis Dynetics permitirá carregar o foguete. A Space Exploration Technologies, SpaceX – criada por Elon Musk, bilionário co-fundador do PayPal –, baseada em Hawthorne, Califórnia, que trabalha num projeto mais tradicional de cápsula para levar cargas e pessoas à órbita, está envolvida com o objetivo de fornecer uma versão modificada de seu foguete Falcon para ser o propulsor da Stratolaunch.

O novo foguete virá das linhas Falcon 4 ou Falcon 5 e será maior que o Falcon 1, porém menor que o atual Falcon 9. O foguete de classe média terá a capacidade de lançamento comparável à do Delta 2, da United Launch Alliance, que levou muitas cargas estatais ao espaço desde os anos 1980. Modificações adicionais – como adição de asas ou estabilizadores – serão avaliadas.

Simulação do projeto da Stratolaunch Systems (Vídeo: Stratolauch Systems / Via Space.com)

"Não é uma competição dentro da SpaceX", disse o vice-presidente de assuntos governamentais da companhia, Adam Harris. "É, na verdade, uma capacidade complementar."

A direção da empresa ficou a cargo de Gary Wentz, ex-chefe de engenheiros da NASA.

O conselho da companhia, que será centralizada em Hustsville, Alabama, inclui o ex-administrador da NASA Mike Griffin. Enquanto chefe da NASA, Griffin andou na corda bamba entre foguetes estatais e privados, decidindo por um substituto do ônibus espacial desenvolvido pela própria NASA enquanto supervisionava os contratos que agora colocaram a SpaceX à beira de levar cargas à Estação Espacial Internacional.

Mas ele disse que levará um tempo até a Stratolaunch abrir seus negócios. Em uma história de foguetes de 60 anos, Griffin diz que 3 entre 10 dos primeiros voos de teste nunca chegam à órbita. "Não interessa quem está construindo o foguete", disse. "É um negócio arriscado e difícil de acertar."

A Stratolaunch espera estar pronta para lançar satélites de peso médio e, eventualmente, tripulações de seis pessoas por vez, segundo Griffin. "Acreditamos que esta tecnologia tem o potencial de algum dia transformar em rotina os voos espaciais mediante a eliminação de muitas das limitações associadas aos foguetes lançados da Terra", declarou.

Do ar ao espaço  Henry Spencer, engenheiro espacial em Toronto, Canadá, disse que os benefícios deste sistema de lançamento incluem a possibilidade de execução sobre a água, longe de áreas habitadas que estariam em risco no caso de acidente. "Permite que você mova seu ponto de lançamento para adequar à órbita que você quer" disse.

"Em particular, se você está indo a uma estação espacial, você pode lançar diretamente na orbita exata da estação, evitando a necessidade de passar dois ou três dias no espaço esperando para combinar as órbitas."

Outra vantagem é que o lançamento de um ponto alto na atmosfera reduz a quantidade de energia que o foguete deve gastar lutando contra a fricção atmosférica, disse Jonathan McDowell, do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, em Cambridge, Massachusetts.

Uma vez que a aeronave transportadora pode ser reutilizada, o projeto poderia deixar o mundo mais próximo do sonho de um veículo de lançamento totalmente reutilizável que poderia ir à órbita e voltar muitas vezes, talvez a um custo muito menor, disse.

Segundo a empresa, o veículo pode levar 6,12 toneladas à baixa órbita da Terra – mais de 10 vezes a capacidade da Pegasus, pioneira da Orbital Sciences Corporation neste tipo de lançamento, realizado pela primeira vez em 1990, porém 10 vezes menos do planejado para o Falcon Heavy, da SpaceX, lançado de uma plataforma tradicional.

O principal problema com este tipo de lançamento é que o tamanho do avião limita o tamanho do foguete. E em alguns mercados, como no de satélites de comunicação, as cargas estão cada vez maiores.

Segundo Spencer, a trajetória de recordes de Rutan dá ao plano uma boa chance de sucesso. "Desenvolver uma aeronave é um grande trabalho e um investimento de ponta", ele disse À New Scientist. "Porém, ter a Scaled Composites fazendo isso reduz consideravelmente os problemas. Se alguém pode fazer isso a um custo razoável, são eles."

Voos de testes poderiam acontecer em 2016. Assim que o sistema se prove seguro e confiável, voos tripulados acontecerão.

Os cientistas da NASA deveriam estar felizes uma vez que a Stratolaunch planeja reduzir os preços dos serviços de lançamento cada vez mais caros que a NASA tem de comprar para colocar suas cargas científicas em órbita, embora o sistema que coloca 6,12 toneladas na baixa órbita terrestre provavelmente não será suficiente para voos interplanetários.

A aeronave será fabricada e testada nas instalações da Scaled em Mojave. Um local de lançamento ainda não foi selecionado.

Rutan e Allen disseram que o sistema de lançamento a partir do ar não apenas custa menos, como também será mais flexível que o convencional – frequentemente afetado por clima e questões logísticas. "Com a diminuição dos voos espaciais governamentais, existe uma oportunidade muito expandida para esforços privados", ressaltou Allen.

Allen até insinuou que a Stratolaunch pode tentar levar pessoas para a Estação Espacial. Ele lembrou que os russos – únicos fazendo viagens tripuladas ao complexo orbital atualmente – cobram US$ 60 milhões por viagem. "Então, se você criar … uma versão tripulada disso, podemos ser muito, muito competitivos."

Charles Simonyi, seu ex-colega de Microsoft, pagou US$ 20 milhões por uma viagem na nave russa Soyuz à Estação Espacial Internacional. Agora que o ônibus espacial não voa mais, a conta está três vezes mais alta.

"Obviamente, [este é um] grande investimento inicial que não estaríamos fazendo se não achássemos que haveria muitos clientes lá fora", disse Allen. "Mas você tem um certo número de sonhos na sua vida que você quer realizar, e este é um sonho que estou muito animado para ver se realizando."

"Existe uma incrível flexibilidade para voar cargas múltiplas em um período curto de tempo a partir de locais diferentes e para órbitas diferentes. Se houver demanda o bastante, poderíamos ver uma maneira de construir mais aeronaves portadoras. Há um caminho longo na estrada", disse Allen.

Piloto Mike Melvill celebra o sucesso de seu voo espacial privado com a SpaceShipOne sobre a nave (Foto: Mike Massee)

Além  A Stratolaunch é apenas a mais recente iniciativa espacial de Allen, que, quando criança, sonhava ser astronauta. "Para mim, a fascinação com o espaço nunca acabou e nunca deixei de sonhar com o que poderia ser possível."

O bilionário foi listado pela revista Forbes como a 57ª pessoa mais rica do mundo, com uma fortuna de US$ 13,2 bi. A visão debilitada o impediu de ser piloto, mas isso não foi suficiente para findar o sonho com viagens espaciais.

Ele criou o nome Microsoft e co-fundou o que se tornou a maior empresa de software do mundo com Bill Gates em 1975.

Deixou a Microsoft em 1983 e lutou sua primeira batalha contra o câncer. Recentemente, completou uma segunda parte do tratamento para um tipo diferente de câncer e está sadio agora.

Seus investimentos são focados em Seattle – sua cidade natal – e o noroeste do Pacífico. Ele é dono do time de futebol americano profissional Seattle Seahawks, o time de basquete Trail Blazers, em Portland, e sua firma de investimentos desenvolveu muito da região de South Lake Union, central para a re-emergência de Seattle como centro tecnológico.

Para laser, ele possui um dos maiores iates do mundo e criou o Experience Music Project. Suas memórias "Idea Man", foram publicadas neste ano.

ATA (Foto: SETI Institute)

Além de ter parte nas conquistas das SpaceShipOne e SpaceShipTwo, Allen também está envolvido em pesquisas avançadas de astronomia – especificamente busca por vida alienígena inteligente. Sua fundação ajudou a financiar o Allen Telescope Array (ATA) do Search for Extraterrestrial Intelligence Institute (SETI), um grupo de 42 antenas de rádio a 500 km a nordeste de San Francisco.

Desde 2001, a fundação de Allen deu US$ 29 milhões para desenvolver e ajudar a construir e operar o ATA, que pesquisadores usam para examinar exoplanetas recém-descobertos na busca por sinais de micro-ondas que poderiam indicar a presença de civilizações inteligentes

"Paul foi corajoso o bastante para sair num limbo e financiar todo o nosso trabalho de desenvolvimento de tecnologia por três anos, porque este é um tipo novo de telescópio que ninguém havia construído antes", disse Jill Tarter, diretora do Center For SETI Research, do SETI, ao site Space.com. "Ele tem sido um parceiro muito bom."

O plano de longo prazo é expandir para 350 telescópios. Allen nunca teve a intenção de financiar esta matriz maior sozinho – ele queria alguns parceiros para entrarem e ajudarem, disse Tarter. Isso ainda não aconteceu, então o SETI avança com os 42 telescópios por enquanto.

Allen também estabeleceu o Science Fiction Museum and Hall of Fame, aberto em Seattle em 2004, além de ser um generoso doador para a Universidade de Washington. Seus interesses científicos não estão limitados a astronáutica e à exploração espacial: ele ajudou a financiar grandes esforços científicos em vários outros campos como genética, medicina e neurociência.

"Sou um grande fã de qualquer coisa que amplie as barreiras do que podemos fazer em ciência e tecnologia", Allen disse. "Esta é minha história. Estas são minhas paixões."

Fontes: Discovery News, G1, Nature, New Scientist, Reuters, Space.com

Galeria de imagens

"Stratolaunch Images: Paul Allen’s Giant Rocket-Launching Plane", 13/12/2011, Space.com

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