Primeiro cometa descoberto em 2013 passará perto de Marte em outubro de 2014. Chances de impacto direto são poucas; consequências seriam devastadoras.

Olá! Como vão? Estou tempo um pouco mais de tempo este semestre para trabalhar em rascunhos que tenho feito. À medida em que forem textos terminados, vou postando aqui. Neste artigo, reuni algumas informações a partir de uma matéria que vi no site Bad Astronomy.

Astrônomos profissionais e amadores já registraram vários impactos de cometas e asteroides contra Júpiter – com um campo gravitacional assim, não poderia ser diferentes. (Você pode conferir no arquivo do blog.) Já viram cometas terminarem suas vidas caindo em direção ao Sol. O Telescópio Espacial Hubble já captou até uma colisão entre dois asteroides.

Quando apontamos nossos telescópios para nossos vizinhos rochosos, vemos suas cicatrizes. E não estamos falando apenas dos planetas, mas também de luas e asteroides do Sistema Solar. As duas luas de Marte, Fobos e Deimos, são asteroides que passaram perto do planeta e ficaram presos em seu campo gravitacional. No futuro, as duas irão se encontrar violentamente contra a superfície marciana. Acredita-se que Marte já teve mais de 200 luas – todas asteroides capturados.

Além das crateras, Marte possui uma dicotomia hemisférica: a espessura da crosta do planeta cai de 50 para 20 quilômetros. É a característica mais visível da paisagem de Marte. Conhecida pelos astrônomos há mais de 30 anos, é atribuída ao impacto massivo de um asteroide há mais de quatro bilhões de anos.

Impacto massivo há 4 bi de anos deformou crosta de Marte (Foto via Scientifc American)

Sim, ao viajar pelo Sistema Solar, a Terra está dançando em um campo de tiro… Se observarmos nossa Lua, mesmo a olho nu, veremos inúmeras provas disso. Mas nem precisaríamos, pois a própria Terra possui várias marcas de impacto.

Susto  Em fevereiro a comunidade científica se preparava para a passagem de um asteroide de 45 metros – 2012 DA14 – a menos de 30 mil quilômetros. A mídia geral não deu tanta atenção ao assunto. Pelo menos não até poucas horas antes da passagem, quando uma rocha de 17 metros entrou na atmosfera terrestre e explodiu sobre a Rússia. A onda de choque foi quebrou vidros e derrubou telhados na cidade de Tchielabinsk, ferindo mais de mil pessoas.

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No mundo inteiro houve a preocupação de poderia haver mais meteoros. Questionou-se uma relação entre o ocorrido na Rússia e o 2012 DA14. Na verdade, foi uma grande coincidência cósmica – tanto que os dois corpos estavam em rotas diferentes.

Meteorito cruza o céu de Tchielabinsk

Vi numa entrevista uma senhora russa dizendo que estava preocupada. "Agora eu acredito neste risco. Foi uma coisa dessas que matou os dinossauros, certo? Tenho medo de que aconteça conosco."

Muito bem lembrado! Há cerca de 65 milhões de anos, um corpo com uns 15 quilômetros se chocou contra a Terra, gerou inúmeros impactos secundários, transformou a atmosfera em um forno, criou grandes ondas sísmicas e sônicas e levantou detritos que impediram que a luz solar chegasse ao chão por mais de um ano em todo o planeta. A maior parte das espécies presentes no planeta nesta época foi extinta a partir daí.

(E esta não foi a maior pancada que a Terra já levou, mas isso fica para outra conversa…)

Após o que aconteceu na Rússia mês passado, a comunidade internacional reconheceu a ameaça representada pelos corpos que passam por nossa região do Sistema Solar e surgiram iniciativas para ampliar suas buscas e elaborar planos para impedir impactos – caso o alarme soe. Existem asteroides que merecem nossa desconfiança, mas nada muito sério por enquanto.

Quem também está desconfiado é nosso vizinho vermelho. Marte pode ser atingido por um cometa em 2014! No momento, as chances de um impacto direto são poucas, mas provavelmente ele será atingido por fragmentos oriundos do cometa. A notícia soa interessante, mas fazer previsões sobre a órbita de um cometa pode ser muito difícil. A situação pode mudar.

Visitante  O cometa é o C/2013 A1 (Siding Spring), descoberto em 3 de janeiro de 2013 (o primeiro do ano) pelo australiano Robert McNaught, caçador de cometas veterano que fazia observações em Siding Spring, Austrália. Assim que foi anunciado, astrônomos no Catalina Sky Survey revisaram seus dados e o encontraram em suas observações de 8 de dezembro de 2012. Isso ajudou a traçar a órbita do cometa. Percebeu-se que ele passará a 100 mil quilômetros de Marte em 19 de outubro de 2014.

Observações feitas no ISON-NM, Novo México, EUA, na semana de fim de fevereiro e início de março deram mais precisão à estimativa da órbita, permitindo melhores previsões. Com estes novos dados, o cometa passa ainda mais perto de Marte. Segundo Leonid Elenin, outro caçador de cometas veterano que participou destas observações, ele passará a apenas 37 mil quilômetros da superfície.

37 mil quilômetros. Esta é a distância que os satélites geossíncronos mantém da superfície da Terra.

(Curiosidade rápida! Marte não tem satélites geossíncronos. Se tivesse, eles estariam a 20 mil quilômetros do planeta. A sonda europeia Mars Express tem a maior órbita, chegando a 10 mil quilômetros. Todos as outras sondas orbitais ativas estão a cerca de 300 ou 400 quilômetros de altitude.)

E a coisa fica ainda mais interessante.

(Marte: NASA/JPL/MSSS; Cometa Halley: Hale Observatory; arte: Phil Plait)

Rochas e gelo  Asteroides são grandes fragmentos, em sua maioria de rochosos, que sobraram da formação do Sistema Solar. Cometas também, mas com algo mais: gelo, muito gelo! Geralmente encontramos monóxido e dióxido de carbono e água na Terra como gases ou líquidos. No espaço, eles ficam congelados – formando a parte sólida do cometa, o núcleo. À medida em que o cometa se aproxima do Sol e se aquece, estas substâncias sublimam-se (passam diretamente de sólidas para gasosas). Elas podem estar presentes na superfície e no subsolo dos cometas e quando, quando sublimam, entram em erupção através de aberturas parecendo-se com gêiseres. Estas aberturas agem como foguetes que gentilmente empurram o cometa. Com o tempo, a órbita do cometa pode mudar um pouco em virtude disso. Por isso fazer previsões precisas sobre a posição de um cometa daqui a muito tempo pode ser difícil.

Agora o C/2013 A1 está a mais de um bilhão de quilômetros do Sol. Muito frio! Ainda assim, pode ser visto um pequeno sinal da coma ou cabeleira – oriunda da sublimação. (Veja na foto abaixo.) Com sua aproximação do Sol, devemos ver mais gases a partir dos próximos meses. Sendo assim, sua órbita pode mudar o bastante para ser afastado de Marte ou ser empurrado na direção dele. Não teremos certeza até o fim do inverno deste ano pelo menos, quando mais observações serão possíveis. O astro está prestes a ficar muito próximo do Sol do ponto de vista terrestre.

Nuvem  Ainda tem mais. Geralmente, cometas não são muito sólidos, podendo ser comparados a grandes montes de cascalho unidos por gelo. Com a sublimação do gelo, o cometa se dissolve podendo soltar cascalho. Este material, usualmente do tamanho de grãos de areia até pequenas rochas, têm suas órbitas muito próximas da do núcleo do cometa. É daí que vêm as chuvas de meteoros. O gás se expande ao redor do núcleo em uma nuvem chamada coma ou cabeleira. O núcleo pode ter apenas alguns quilômetros de diâmetro mas a cabeleira pode se estender por várias centenas de milhares de quilômetros!

Então, no momento da passagem por marte, a cabeleira pode ser maior que a distância até o planeta. É muito provável que Marte passe por esta nuvem. E quanto mais perto o cometa passar, maiores as chances de que ele seja bombardeado pelos fragmentos do cometa em si.

Se isso realmente acontecer, será uma tremenda chuva e meteoros!

Cometa Siding Spring observado a partir do Vaticano (Foto via transientsky.worpress.com)

Os astrônomos ainda não tem certeza do que poderemos ver da Terra. Marte estará imuto bem posicionado no céu noturno, mas a maioria dos fragmentos seria muito pequena, diminuindo as chances de vermos muita coisa. Sem falar que haverá um cometa bem próximo ofuscando a visão. Será interessante fazer uma comparação "antes e depois" das duas luas marcianas. Elas também tem boa chance de receber impactos.

Robôs  Nossas sondas robóticas estariam em perigo? Com certeza, há cientistas nas agências espaciais tentando responder esta pergunta. Podemos fazer alguns chutes. O que mais importa é o tamanho das partículas. Elas podem variar de submicrômetros a milímetros ou centímetros e maiores. Na verdade, a maior parte da massa particulada expelida pelo núcleo se concentra em partículas grandes. Estamos falando em partículas do tamanho de grãos de poeira. Elas não representam risco às sondas orbitais. O que mais preocupa é o que as partículas maiores que poeira podem fazer se estiverem no lugar errado na hora errada.

Outro fator importante é a velocidade destas partículas, que vamos abordar já já.

A densidade da cabeleira é próxima de zero. A princípio, o risco às sondas orbitais também.

As sondas na superfície também devem estar seguras. As partículas queimarão na atmosfera na foram de meteoros. As menores crateras de impacto vistas em Marte tem 10 cm. Um estudo indicou que o menor objeto que poderia atingir a superfície teria 5 mm de diâmetro. Muito pequeno, podendo ser muito bem desacelerado pelo atrito com a atmosfera. Quantas destas partículas haverão? Se for uma por quilômetro quadrado, tudo bem. Uma por metro quadrado é preocupante.

Deixando a segurança de lado, o que as sondas poderão ver da superfície? Também não sabemos. Cometas podem ser brilhantes, mas este estará tão espalhado pelo céu que é difícil dizer. É muito cedo para pensar em observá-lo com as sondas. Quando soubermos mais sobre o astro e sua trajetória, as equipes de imageamento farão seus cálculos para descobrir o que será possível observar – se as sondas ainda estiverem funcionando.

Concepção artística de impacto que criou a região marciana de Hellas

Impacto profundo  E se o núcleo acertar o planeta? Seria incrível. Impressionante. Inacreditável. Extraordinário. Amazing. Apocalíptico.

O núcleo do C/2013 A1 ainda não é muito bem conhecido. Pode ter 15 ou 50 quilômetros. Mesmo usando o menor número, o impacto seria inimaginável. O cometa estará se movendo em uma órbita hiperbólica retrógada a  cerca de 55 km/s, 200 mil km/h, no momento do impacto. Ele estará com uma energia cinética imensa. Essa energia será descarregada em Marte na forma de uma explosão. Uma grande explosão.

Grande mesmo!

Em cálculos simples, o astrônomo Phil Plait, do site Bad Astronomy, obteve um bilhão de megatons. Um trilhão de toneladas de TNT explodindo. 25 milhões de vezes maior que a maior arma nuclear já testada na Terra. A cratera deixada teria centenas de quilômetros e seria o maior impacto em Marte em muito tempo.

Lembrando: há poucas chances de um impacto direto. O mais provável é que Marte atravesse a cabeleira, o que já seria incrível.

De certa forma, este impacto seria negativo para nós na Terra:muito provavelmente, perderíamos todas as sondas robóticas em órbita e na superfície – material seria lançado por todo o planeta e elas poderiam ser destruídas. Mesmo algo em órbita não seria seguro. O material ejetado seria lançado para todas as direções na órbita de Marte. Seria como orbitar um tiro de espingarda.

Mesmo a passagem do cometa seria perigosa para as sondas pois haveria fragmentos de qualquer forma. Com sorte, vão ficar bem e poderão fazer imagens. Teremos que esperar para ver o que acontece nos próximos meses.

Concepção artística do núcleo de um cometa

Pego pela cauda  Mesmo que o C/2013 A1 não fosse passar perto de Marte, valeria a pena estudá-lo. Pelo que sabemos até agora, sua órbita é hiperbólica. Se as pesquisas estão corretas, ele está viajando mais rápido que a velocidade de escape do Sol. Provavelmente veio da Nuvem de Oort, um vasto enxame de cometas além da órbita de Netuno. Pode ter recebido ajuda gravitacional de algum planeta do Sistema Solar externo – geralmente, Júpiter faz este trabalho – para ganhar uma velocidade extra.

Isso é bem raro, havendo apenas algumas dezenas de cometas conhecidos com trajetórias hiperbólicas. Se ele sobreviver ao encontro com Marte, voltará para o espaço profundo e, muito provavelmente, nunca mais volte. Esta será nossa única chance e observá-lo.

E como isso vai ficar no nosso céu?  O cometa deve ficar mais brilhante: as partículas de gás são altamente reflexivas e podem formar uma nuvem muito maior que Marte. Devemos ver um ponto brilhante, ou um disco se a cabeleira for grande o bastante, se aproximando aos poucos da "estrela" vermelha de Marte. Com o passar das semanas, elas irão se aproximar até o ponto em que será necessário um telescópio para diferenciá-las.

Depois, elas começaram a se distanciar, conforme o cometa começa a voltar para as profundezas do espaço.

Por enquanto, é isso. Ainda é muito cedo para dizer muita coisa. Temos que aguardar… Este é um assunto que, nos próximos meses, deve ser bem noticiado pela mídia astronômica. Watch the skies!

 

"A mais notável descoberta feita pelos cientistas é a própria ciência."

– Gerard Piel (1915 – 2004)

 

Eduardo Oliveira
editor

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