Rocha tem argilas formadas em água com pH neutro, favorável ao surgimento da vida. Robô está no planeta há quase 10 anos.

O robô Opportunity, da NASA, fez uma descoberta que ser a maior de sua carreira de quase dez anos: evidência de que a vida pode ter sido capaz de se fixar em Marte muito tempo atrás.

O robô descobriu minerais argilosos em uma rocha antiga na borda da Cratera Endeavour, sugerindo que água de pH neutro, benigno, um dia fluiu pela área, disseram cientistas.

"Esta é água que você poderia beber", disse Steve Squyres, da Cornell University, investigador principal, a repórteres ontem (07/06/2012), explicando o motivo de a rocha, apelidada de "Esperança", se destacar de outras rochas banhadas por água estudadas pelo robô.

"Esta é água que era provavelmente muito mais favorável em sua química, em seu pH, em seu nível de acidez, para coisas como a química pré-biótica – o tipo de química que poderia levar à origem da vida" disse ele.

Esperança: rocha pálida no alto central da imagem do tamanho de um antebraço; imagem é uma composição de três exposições da câmera panorâmica em 28/03/2012 (Foto: NASA/JPL-Caltech/Cornell/Arizona State Univ.)

Vida longa O robô, do tamanho de um carrinho de golfe, foi lançado em7 de julho de 2003 e pousou em 25 de janeiro de 2004. Seu gêmeo Spirit chegou Marte no mesmo mês. Eles deveriam funcionar por 90 dias em busca de sinais de água no passado. As sondas encontraram muitos destes sinais, mas a maioria indicando água extremamente ácida.

O Spirit parou de se comunicar com a Terra no frio de seu quarto inverno marciano, em 2010, e foi dado como morto um ano depois, mas o Opportunity permanece ativo. Em agosto de 2011, o robô de seis rodas chegou à borda da Cratera Endeavour, de quase 30 km, e está explorando-a desde então.

Foram sete tentativas até que o Opportunity conseguisse se posicionar o adequadamente para raspar a superfície da rocha pois ela estava parcialmente coberta por poeira. O robô utiliza instrumentos para determinar a mineralogia básica. Esperança contém argilas ricas em alumínio, o que mostra que água neutra fluiu pela rocha.

O Opportunity já viu sinais de argilas na cratera, mas nada próximo às concentrações observadas em Esperança. No geral, Esperança fornece evidências fortes de que Marte já foi habitável.

"As condições fundamentais que acreditamos serem necessárias para a vida foram encontradas aqui", disse Squyres.

Ele acrescentou que a água de pH neutro que gerou as argilas provavelmente fluíram pela região durante o primeiro bilhão de anos da história marciana, realçando que é quase impossível indicar a época absoluta de rochas marcianas sem trazê-las para a Terra.

Dedos cruzados  Embora encontremos micróbios vivendo em ácidos na Terra, cientistas acreditam que são necessárias condições mais neutras para a vida surgir.

"O duro de um ambiente ácido é que é muito, muito difícil, acreditamos, ter química pré-biótica, o tipo de química que pode levar à origem da vida", segundo Squyres.

"O que é animador sobre esta descoberta é que ela aponta para um pH neutro em uma época muito, muito distante na história marciana", acrescentou.

"O que temos aqui é uma química diferente." "Esta é a evidência mais poderosa para uma água de química neutra (não-ácida) que foi encontrada pelo Opportunity", disse.

A última descoberta do Opportunity se encaixa com outra feita em março na Cratera Gale, do outro lado do planeta, pelo robô maior e mais novo Curiosity, que encontrou sinais de que seu local de pouso pode ter tido vida microbiana em um passado distante.

A primeira análise do Curiosity de pó perfurado de um argilito antigo mostrou sinais de água neutra e elementos necessários para a vida microbiana. Resultados da segunda análise de amostra estão pendentes.

"É realmente impressionante para mim o quão similares os casos são para as rochas em Gale e Endeavour", comentou Squyres.

Tais observações poderiam ajudar os cientistas a mapear a transição de Marte de um mundo relativamente quente e úmido de muito tempo atrás para o planeta frio e seco que conhecemos hoje. Quando esta transição aconteceu, a evaporação da água deixou uma concentração maior de minerais na água restante – tornando-a mais ácida.

"Todos os detalhes precisam ser examinados, mas quanto mais olhamos, mais se encaixa no contexto geral", disse Ray Arvidson, da Washington University em St. Louis, vice investigador principal.

Simulação baseada em imagens 3D feitas por sonda orbital mostrando a borda oeste da Cratera Endeavour e proximidades; vista aponta para o sudoeste; exagero vertical de 5 vezes (Foto: NASA/JPL-Caltech/UA/OSU)

Seguindo em frente  O Opportunity passou os últimos 20 meses em um local chamado Cabo York, mas agora começou uma jornada de 50 metros por dia rumo a Solander Point, 55 metros acima das planícies ao redor.

A equipe da missão está intrigada pelas muitas camadas de material geológico que o robô pode investigar lá. Imagens mostram que o local apresenta várias camadas de terreno. Elas preservam um registro das mudanças climáticas na história do planeta.

A área também possui um declive com face para o norte, que permitirá que o Opportunity aponte seus painéis solares em direção ao Sol durante o inverno do hemisfério sul marciano, que se aproxima.

Em invernos anteriores, em terras mais planas, os níveis de energia caíram tanto que os engenheiros tiveram que estacionar o robô e esperar o tempo frio passar.

O auge deste inverno será em fevereiro de 2014, mas os operadores do Opportunity querem que ele chegue a Solander no começo de agosto, de forma que ele pode investigar a região e ajudar a planejar uma campanha científica de inverno, disseram os pesquisadores.

Não há motivo para pensar que o Opportunity não irá completar a jornada de 2,2 km a Solander ou que não sobreviverá ao seu sexto inverno marciano. O robô permanece em boa saúde apesar da idade avançada, disseram autoridades da missão.

Ainda assim, a equipe do robô não está deixando passar nada.

"O jipe poderia ter uma falha catastrófica a qualquer momento", disse John Callas, gerente de projeto do Opportunity, do Jet Propulsion Laboratory da NASA em Pasadena, Califórnia. "Então, cada dia é um presente."

O Opportunity deve quebrar o recorde internacional de distância viajada em outro mundo durante o caminho a Solander Point. A marca atualmente pertence ao robô da União Soviética Lunokhod 2, que viajou 37 km na Lua em 1973.

Porém, cientistas disseram que a quilometragem total da Lunokhod 2 é apenas uma estimativa, sendo difícil saber qual é o recorde verdadeiro. Eles planjam não fazer nenhum anúncio até que alguém consiga calcular uma leitura precisa de odômetro para a sonda soviética, possivelmente usando medições por naves orbitando a Lua.

O odômetro do Opportunity está marcando 36,6 km agora.

Projetado para funcionar por 90 dias marcianos, o robô se aproxima de seu 3400º, durando quase 40 vezes o tempo inicial.

 

  

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