Rede de vigilância espacial será fechada como parte de cortes. Especialistas apontam perda de capacidade de detectar detritos em órbita.

Nesta segunda-feira (12/08/2013), a da Força Aérea dos EUA (USAF) emitiu uma nota à imprensa comunicando o fechamento de um componente chave de sua Rede de Vigilância Espacial (Space Surveillance Network): uma rede de nove estações conhecida como "Cerca Espacial" (Space Fence).

A decisão enfraquece a habilidade da Rede de detectar e caracterizar com precisão objetos na órbita da Terra, dizem especialistas. Eles apontam que a desativação da Cerca Espacial, ordenada pelo Gen. William Shelton, comandante do Comando Espacial da Força Aérea (Air Force Space Command), também reduzirá a capacidade total do sistema.

Ao mesmo tempo, sugerem que poderia aumentar a pressão na USAF para fazer um contrato para um sistema de próxima geração, que ficou estagnado em uma revisão dos planos de aquisição do Pentágono.

Segundo dois memorandos recentes obtidos pelo site SpaceNews, a USAF desativará o atual Sistema de Vigilância Espacial (Air Force Space Surveillance System) em 1º de setembro – embora a nota emitida ontem coloque a desativação em 1º de outubro. Os memorandos de Austin Frindt, um oficial de contrato com o Comando Espacial foram direcionados à Five Rivers Services, em Colorado Springs, operadora do sistema atual, que consiste de uma linha de radares VHF pelo sul dos EUA.

Desenvolvido nos anos 60, a Cerca Espacial abrange três locais com transmissores e seis estações de recepção. É responsável por cerca de 40% de todas as observações feitas pela Rede de Vigilância Espacial da USAF, que inclui outros equipamentos no solo e no espaço, disse Brian Weeden, conselheiro técnico na Fundação Mundo Seguro (Secure World Foundation), uma ONG dedicada à sustentabilidade do espaço.

"A Cerca Espacial levanta muito peso", disse Dave Baiocchi, engenheiro sênior da Rand Corp., um grupo de reflexão da USAF em Santa Monica, Califórnia. Sem ela "você perde algum nível de precisão", disse ele.

O fechamento da Cerca economizará US$ 14 milhões por ano.

Fechamento  Em um memorando datado de 1º de agosto, Frindt diz que a USAF não estava exercendo sua opção por um quinto ano de contrato para fornecer gerenciamento e apoio logístico pra as nove estações.

Lori Thomas, presidente da Five Rivers, recusou comentar e encaminhou perguntas à USAF.

"Este é seu aviso para começar a preparar os locais para fechamento", diz o memorando. "Uma lista específica de itens de ação lhe será fornecida assim que for finalizada."

Um memorando seguinte, datado de 9 de agosto, pedia à Five Rivers uma análise do que custaria fechar os locais da Cerca. O memorando disse que o sistema seria desligado em 1º de setembro.

Em um e-mail de 5 de agosto, Andy Roake, porta-voz do Comando Espacial, indicou os cortes automáticos de verba conhecidos como confisco. "Neste ambiente de orçamento difícil e confiscado, estamos considerando muitas opções, mas para o FY14, nenhuma decisão final foi feita", disse.

Os memorandos indicam o contrário, pedindo fotografias dos locais fechados, compensado em janelas e atualizações semanais. Roake não respondeu a perguntas até o momento desta matéria. Um porta-voz do Comando Estratégico dos EUA (U.S. Strategic Command), que supervisiona o Centro de Operações Espaciais Conjuntas (Joint Space Operations Center), encaminhou perguntas ao Comando Espacial.

Importante  Embora faça parte de uma rede mais ampla, a Cerca Espacial é crucial porque pode rastrear objetos a até 24 mil km. Outros sensores da rede no solo geralmente rastreiam objetos a altitudes menores que uns poucos milhares de quilômetros, disse Weeden.

"A Cerca Espacial é muito importante porque dá uma capacidade de ‘rastreamento sem dúvidas’", disse ele. "Por estar transmitindo constantemente, pode detectar objetos sem receber esta tarefa. Há alguns outros sensores na rede que podem fazer algum grau de rastreamentos sem dúvidas, mas a Cerca Espacial é única no simples tamanho de cobertura de detecção que tem."

A Cerca, junto a operadores no Centro de Operações Espaciais Conjuntas, pode observar objetos do tamanho de uma bola de basquete e fazer determinações precisas de usas características, posição e movimento. A cada mês o sistema é responsável por registrar mais de 5 milhões de observações de objetos espaciais, segundo dados da USAF.

Especialistas dizem que sem a Cerca, a USAF terá mais trabalho em saber quando colisões orbitais tiverem ocorrido.

"Será mais difícil e levará mais tempo para detectar e catalogar novas peças de detritos, especialmente os de grandes rompimentos", disse Weeden. "E a perda de capacidade provavelmente significa que temos órbitas menos precisas para uma boa parte dos detritos espaciais" na Baixa Órbita da Terra, disse.

Em abril, Shelton disse que dois dos receptores da Cerca haviam sido postos "na geladeira", um em Glennville, no Estado da Geórgia, e outro em Hollandale, Mississipi, reduzindo a precisão e efetividade totais do sistema. A mudança foi feita como parte da reação da USAF aos confiscos de março.

Em julho, a USAF lançou uma requisição de propostas para operar o atual sistema a partir de setembro de 2015 – um anos após o fim do contrato da Five Rivers. A requisição dizia que a Cerca "foi identificada como um sistema de defesa crítico e, portanto, deve ser guarnecida 24 horas [por dia], 7 dias por semana, 365 dias por ano nos locais de transmissores e 8 horas [por dia], 7 dias por semana, 365 dias por ano nos locais de receptores".

Substituto?  Mas como os confiscos tardaram, segundo especialistas, desativá-la pode bem ter sido a melhor de um grupo de opções ruins. Outros sensores, dizem, tem a missão dual de vigilância espacial e aviso de mísseis.

"Fechá-los teria impactado estas outras missões e provavelmente gerado muito mais calor político do Congresso", disse Weeden.

Enquanto isso, um contrato atrasado para construir uma Cerca de próxima geração está em espera na recém completada Revisão de Escolhas Estratégicas e Gerenciamento (Strategic Choices and Management Review) do Departamento de Defesa (Defense Department, DoD), que examinou as opções do Pentágono sob três cenários de fundos para a próxima década.

"Quando combinada ao novo ambiente de computação de alta performance do Centro de Operações Espaciais Conjuntas, a nova Cerca realmente representará um salto quântico à frente na consciência situacional espacial da nação", disse na nota à imprensa o Gen. Shelton.

Baiocchi disse que esperava que o fechamento da atual Cerca Espacial aumentasse a pressão no Pentágono e no Congresso para financiar um sistema de próxima geração, consistindo de radares de banda S, que seriam capazes de rastrear objetos do tamanho de uma bola de golfe.

A Lockheed Martin Mission Systems and Sensors, em Moorestown, Nova Jersey, e a Raytheon Integrated Defense Systems, em Tewksbury, Massachusetts, desenvolveram projetos competidores para a nova Cerca.

Shelton disse em julho que engenheiros na Base da Força Aérea de Eglin (Eglin Air Force Base), na Flórida, estavam procurando por maneiras de melhorar a Cerca atual como plano B caso o Pentágono decida não prosseguir com um sistema de próxima geração.

Eglin  Segundo a nota emitida ontem, para compensar a falta da Cerca, o Comando Espacial está procurando formas de melhorar o radar espacial de Eglin e o Sistema de Caracterização de Aquisição de Perímetro (Perimeter Acquisition Radar Characterization System) na Estação da Força Aérea de Cavalier (Cavalier Air Force Station), em Dakota do Norte. A nota diz que estes equipamentos darão mais precisão que a Cerca.

T.S. Kelso, pesquisador astrodinamista sênior no Center for Space Standards & Innovation, um braço de pesquisa da fornecedora de software de modelos orbitais AGI alertou sobre depender demais de Eglin.

"Com Eglin sendo o único radar remanescente dedicado à vigilância espacial, qualquer inexperiência nos deixaria efetivamente cegos – contando somente com os locais de aviso de misseis colaterais, que também está sendo considerados para reduções", disse Kelso em e-mail. "Qualquer decisão de fechar [o Sistema de Vigilância Espacial] deve ser feita dentro deste contexto maior. Não há sistemas comparáveis operados em qualquer outro lugar do planeta para compensar."

Segundo ele, esta não é a primeira vez que a USAF considera fechar a Cerca. Ele disse que depois que a Rede da USAF assumiu o controle do sistema da Marinha (USN), em 2004, vários estudos da USAF consideraram a possibilidade de fechá-lo, mas descobriram que fazer isso resultaria em uma perda significante de capacidade.

A USN estimou que a Cerca precisava de US$ 400 milhões para um programa de extensão de vida de serviço, disse Kelso.

 

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