Sonda europeia irá orbitar cometa em busca das origens do sistema solar. Sonda menor viajando de carona deve pousar no astro em novembro de 2014.

Lançada em 2004 pela Agência Espacial Europeia (ESA), a sonda Rosetta esteve hibernando por mais de dois anos e meio. A 673 milhões de quilômetros da Terra, ela será retirada de sua hibernação na manhã de 20 de janeiro para entrar na órbita do cometa o Churyumov-Gerasimenko e acompanhá-lo em sua viagem em torno do Sol. A Rosetta também irá liberar a sonda Philae, que pousará na superfície do astro em novembro de 2014.

A Rosetta fornecerá aos cientistas a chave para decifrar os mistérios da formação do Sistema Solar, há mais de 4,6 bilhões de anos, e talvez até da origem da vida na Terra, porque cometas são verdadeiros fósseis deste processo. Aglomerados de gelo, poeira, gases e rochas, eles preservam informações sobre a composição e características da imensa nuvem de material que deu origem ao Sol e aos planetas e também pode ter sido a fonte de boa parte de água e moléculas orgânicas que se acumularam aqui bilhões de anos atrás, criando as condições para o surgimento dos primeiros organismos vivos.

Daí também o nome das duas sondas, referências diretas a como ficou conhecida a pedra e à ilha do Rio Nilo onde ela foi encontrada em 1799 e que permitiu aos historiadores decifrar os hieróglifos do Egito Antigo.

Adormecida O longo sono da Rosetta foi necessário devido às peculiaridades de sua missão. Diferentemente de outras sondas do tipo enviados ao espaço distante, como as estadunidenses Voyager 1 e 2, alimentadas por baterias nucleares, a europeia obtém sua energia de dois enormes painéis solares, com 14 m de comprimento e área de 32 m² cada. O problema é que, a tal distância do Sol, eles recebem apenas 4% da radiação que chega à Terra, gerando só 400 watts de eletricidade – o bastante para acender quatro lâmpadas de 100 W.

Além disso, desde seu encontro com o asteroide Lutetia, em julho de 2010, a Rosetta ficou sem ter para o que apontar seus instrumentos e câmeras. Assim, e para economizar o consumo de energia e combustível e preservar seus equipamentos, em junho de 2011, a sonda foi quase toda desligada, com exceção do próprio sistema de geração de eletricidade, os receptores de rádio e o relógio de seu computador principal, cujo alarme vai despertá-la às 8h de 20 de janeiro, no horário de Brasília.

Para entrar na órbita do Churyumov-Gerasimenko, a sonda percorreu um longo caminho nos últimos dez anos, já que nenhum foguete existente teria potência suficiente para levá-la diretamente ao cometa. A viagem incluiu três voos rasantes pela Terra, em 2005, 2007 e 2009, e um por Marte, em 2007. Conhecidas como estilingues gravitacionais, estas manobras deram à sonda a velocidade e trajetória para interceptar a órbita do Churyumov-Gerasimenko.

Descoberto em 1969 e com 3 x 5 km, o cometa é de curto período: completa uma volta em torno do Sol a cada 6,45 anos, com periélio (ponto mais próximo do Sol) de 186 milhões de km, pouco mais que a distância média da Terra ao Sol, e afélio (ponto mais distante) de quase 850 milhões de quilômetros, além de Júpiter.

Manobra delicada  No momento, a Rosetta viaja a cerca de 57 mil km/h, aproximando-se do Churyumov-Gerasimenko a 800 m/s. Já totalmente desperta, a partir de janeiro ela começará a realizar uma série de manobras para diminuir a velocidade relativa ao cometa para 25 m/s, até chegar a apenas 100 mil km dele em maio de 2014. Então, serão mais 90 dias de delicadas manobras que levarão a sonda a reduzir ainda mais esta velocidade para 2 m/s até que, em agosto, a sonda entre em órbita em torno do núcleo do Churyumov-Gerasimenko, a uma distância de cerca de 25 km.

Depois, a sonda dará início à parte científica de sua missão. Além de estudar o cometa com seus 11 instrumentos, ela vai mapear sua superfície em busca de potenciais locais de pouso para a Philae. Uma vez selecionado o melhor ponto, a segunda sonda será liberada em novembro de 2014, aproximando-se do núcleo do Churyumov-Gerasimenko a uma velocidade de menos de 3,6 quilômetros por hora. Com outros dez instrumentos agrupados em um pequeno caixote com cerca de 100 kg, a Philae lançará uma espécie de arpão para se ancorar na superfície do cometa e evitar que escape de sua fraca gravidade.

Prevista para durar até dezembro de 2015, a missão Rosetta-Philae tem um custo total estimado em 1 bilhão de euros (cerca de R$ 3,25 bilhões).

 

O Globo

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