Nove alpinistas foram encontrados mortos na Rússia em 1959. Características sem explicação geram especulações até hoje.

Ano passado, assisti ao filme “O Mistério da Passagem da Morte”, disseram que me interessaria. No filme, estudantes estadunidenses vão à Rússia investigar o desaparecimento de nove pessoas nos Montes Urais em 1959 – um dos maiores mistérios do Século XX, que ficou conhecido como Incidente da Passagem de Dyatlov. Para isso, eles fazem o mesmo percurso feito pelo grupo e filmam tudo – as filmagens são o ponto de vista do filme.

Trailer do filme “O Mistério da Passagem da Morte”

É claro que não vou contar o fim do filme, mas devo dizer que esperava outra coisa… Mas a história merece atenção. Após assistir ao filme, decidi que escreveria um post sobre isso e até comentei no Twitter, mas a ideia acabou ficando de lado após terminar o rascunho. No começo do ano, retomei a ideia e o conclui, ficando aguardando a proximidade do 55º aniversário do incidente.

(É bom avisar. Algumas imagens pode ser fortes demais para pessoas mais sensíveis.)

O incidente aconteceu em 2 de fevereiro de 1959 no lado leste da montanha Kholat Syakhl, “Montanha dos Mortos” no dialeto do povo Mansi, que habita próximo dali. 27 pessoas perderam a vida nos últimos 100 anos na montanha. O local recebeu o nome de Passagem de Dyatlov em homenagem ao líder do grupo e ficou fechado para alpinistas por três anos.

A investigação determinou que eles cortaram a barraca de dentro e partiram descalços na neve a -30°C. Alguns cadáveres mostravam sinais de luta, duas vítimas tinham os crânios fraturados, duas tinham costelas quebradas e uma estava sem a língua. Segundo os investigadores, uma “força natural incontrolável” causou as mortes. Por conta destas evidências e da falta de testemunhas e sobreviventes, sempre houve muita especulação sobre o que aconteceu.

Jovens  O grupo era formado por estudantes do Instituto Politécnico Ural (IPU), em Sverdlovsk, atual Iecaterimburgo. O líder do grupo era Igor Dyatlov, 23 anos, aluno do quinto ano de engenharia de rádio. Talentoso, projetou e construiu um rádio durante o segundo ano e o utilizou em expedições nas Montanhas Sayan em 1956. Ele também fez um pequeno fogão, que usava desde 1958 e levou para a Montanha dos Mortos. Era descrito como pensativo e nunca tomava decisões às pressas. Dyatlov era um dos atletas mais experientes do grupo e traçou a rota da viagem.

Ele cortejava Zinaida Kolmogorova, que também parecia gostar dele. Kolmogorova, 24, era do quarto ano de engenharia de rádio e tinha experiência em trilhas como essa, tendo feito seis grandes viagens em lugares selvagens. Em uma delas, foi mordida por uma víbora e ainda assim não quis aliviar a carga para não prejudicar os companheiros. Era descrita como “o motor da universidade”, por estar sempre envolvida em alguma atividade. Estava sempre com muitas ideias e era querida por todos, sempre tratando as pessoas com respeito.

Yuri Doroshenko, 21, era do Oblast (Estado) de Kursk e tinha dois irmãos. Seu pai se formou em uma universidade de Kiev. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, a família toda se moveu com sua fábrica para além dos Montes Urais para escapar dos alemães. Seu pai faleceu em 1954 de ataque cardíaco e Doroshenko se formou no Ensino Médio com as notas mais altas no ano seguinte. Ele manteve um relacionamento com Kolmogorova e até conheceu os pais dela. Após o fim do relacionamento, mantiveram a amizade. Também tinha experiência com viagens assim, tendo liderado vários grupos nos Montes Urais em trilhas com diferentes dificuldades.

Igor Dyatlov  Zinaida Kolmogorova  Yuri Doroshenko

Lyudmila Dubinina, 20, era do terceiro ano de Engenharia e Economia. Ativa no clube turístico, gostava de cantar e fotografar. Muitas das fotos desta viagem foram tiradas por ela. Em uma expedição nas Montanhas Sayan em 1957, ela foi baleada acidentalmente por um colega que limpava um rifle. Ela não só aguentou a dor corajosamente a ponto de não reclamar, como se sentiu mal por causar tantos problemas para o grupo.

Rustem Slobodin, 22, se formou em 1959 e era filho de um professor de outra universidade de Sverdlovsk. Era atlético, honesto, decente e um tanto calado. Gostava de tocar um bandolim que costumava levar nas viagens mais longas.

Yuri Krivonischenko, 23, se formou em 1959. Enquanto trabalhava em Chelyabinsk-40, uma instalação nuclear secreta, presenciou o Acidente Kushtumkoy. Em 29 de setembro de 1957, uma instalação de plutônio teve vazamento radioativo e ele foi umas das pessoas designadas a limpá-lo.

Lyudmila Dubinina  Rustem Slobodin  Yuri Krivonischenko

Alexander, ou Sasha, Kolevatov, 24, era do quarto ano de Física e já era formado em Metalurgia de Metais Pesados Não-ferrosos na Universidade de Mineração e Metalurgia. Era um bom aluno e trabalhou em Moscou secretamente no Ministério de Construção de Máquinas Médias, chamado apenas pelo número serial I 3394, e no Instituto de Pesquisas de Materiais Inorgânicos, envolvido na produção de materiais para a indústria nuclear. Voltou para Sverdlovsk em 1956 e entrou para o IPU. Era descrito como diligente, pedante, metódico e com as qualidades de um líder.

Nicolai, ou Kolya, Thibeaux-Brignolles, 24, se formou em Engenharia Civil em 1958. Seu pai, comunista francês, foi executado nos anos de Stalin e ele nasceu em um campo de concentração para prisioneiros políticos. Era querido por sua energia, bom humor e caráter geralmente amigável e aberto. Todos o conheciam, acampavam com ele e diziam que possuía uma senso de cuidado para com os membros do grupo. Ele costumava ajudar os mais jovens ou mais fracos a carregar as coisas e arrumava suas mochilas para reduzir o desconforto e as dores. Yuri Yudin, um membro do grupo que teve que retornar no início da viagem, disse que Thibeaux-Brignolles havia o ajudado em sua primeira grande viagem pela floresta siberiana. Thibeaux-Brignolles prometeu à sua mãe que esta seria sua última viagem dessas.

Semen Zolotarev, cossaco completando 38 anos, sobreviveu à Grande Guerra Patriótica, servindo de 1941 a 1946, sendo que a taxa de sobrevivência da geração 1921-22 foi de 3%. Recebeu quatro medalhas, incluindo a Ordem da Estrela Vermelha. Zolotarev é um grande interesse para os pesquisadores do Incidente. Para começar, apresentou-se como Alexander para o grupo e escondia várias tatuagens pelo corpo. Sua biografia tem outros pontos que levantam dúvidas e os abordaremos mais adiante.

Alexander Kolevatov  Nicolai Thibeaux-Brignolles  Semen Zolotarev

Yuri Yudin, falecido em 27 de abril de 2013, estava no quarto ano de seu curso e deixou a expedição por dores nas costas – que havia machucado na viagem anterior.

Vladimir L. Shunin costumava estar nas viagens do grupo mas não pode estar nesta. Sua descrição dos amigos deixa transparecer um patriotismo típico da época, comum aos outros membros do grupo.

“Todos foram criados na infância faminta pós-guerra. Mas não veneravam dinheiro. Acreditavam nas ideias de fraternidade, igualdade, liberdade e fé no ‘reino brilhante do socialismo’. Estudo e trabalho para o bem de todas as pessoas… Naqueles dias, não havia pessoas ricas. Todos eram igualmente pobres. Estudantes ganhavam dinheiro de toda forma que podiam. Basicamente, trabalhavam carregando e descarregando vagões de trem. Não estavam muito bem vestidos também. Principalmente, trajes de esqui… Mas se divertiam muito. Tínhamos grande curiosidade, que nos ajudou a estudar, aprender, trabalhar, praticar esportes e viajar. O alpinismo teve um papel particularmente importante em nossas vidas. […] Nada disso foi feito pelo dinheiro. Fizemos pelo romantismo da taiga, montanhas e o bem da terra-mãe.”

Localização da Passagem de Dyatlov (Foto: Google Earth / Arte: Eduardo Oliveira)

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Jornada  Todos eram experientes em viagens longas de esqui e expedições montanhosas. O objetivo deles era chagar a Otorten (“Não vá lá”), uma montanha a 10 quilômetros do local do ocorrido. Na época, a rota era considerada de categoria 3, a mais difícil.

O grupo chegou a Ivdel, no Oblast de Sverdlovsk, em 25 de janeiro e foram de caminhão até Vijei, a última parada habitada ao norte. Começaram a caminhada de lá em 27 de janeiro. No dia seguinte, Yuri Yudin voltou.

Diários e câmeras encontrados próximos ao último acampamento tornaram possível estabelecer a rota do grupo no dia anterior ao incidente. As fotografias mostram que estavam relaxados e animados, prontos para encarar as condições difíceis do ambiente. Em 31 de janeiro, o grupo chegou ao limite de uma área montanhosa e começaram a se preparar para escalar. Em um vale arborizado, eles esconderam alimentos extras e equipamentos que seriam utilizados na volta.

No dia seguinte, os alpinistas começaram a atravessar a passagem. Aparentemente, planejavam montar acampamento para a noite seguinte no lado oposto, mas pela piora nas condições climáticas, tempestades de neve e visibilidade reduzida, eles perderam o rumo e se desviaram para oeste, subindo em direção ao topo da montanha Kholat Syakhl.

Ao perceber o erro, decidiram parar e acampar na ladeira da montanha ao invés de descer 1,5 km até uma área de floresta que teria oferecido proteção contra o clima. Yudin supôs que Dyatlov não queria perder a altitude que haviam ganhado ou que decidiu praticar acampar na ladeira da montanha.

Segundo documentos oficiais, análises das fotos sugerem que a montagem da barraca começou por volta das 5 da tarde de 1º de fevereiro.

Dyatlov e colegas antes de partirem em sua última viagem  Foto feita por câmera do grupo

Foi combinado previamente que Dyatlov enviaria um telegrama ao clube esportivo do IPU assim que o grupo retornasse a Vijei – o que deveria acontecer até 12 de fevereiro. Dyatlov disse a Yudin que poderiam demorar mais, atrasos de alguns dias eram comuns nestas expedições. Assim, quando a data passou e nenhuma mensagem chegou, não houve reação. Um grupo de alpinistas que retornou da região em meados de fevereiro informou ter visto uma grande tempestade de neve na região onde o grupo de Dyatlov estava. Lev Semenovich Gordo, chefe do clube, chegou a mentir que recebeu um telegrama de Dyatlov para acalmar os pais de Dubinina e Kolevatov.

Os parentes dos viajantes exigiram uma operação de resgate para o chefe local do partido comunista. Temendo publicidade negativa, ações foram tomadas. O chefe do departamento militar do IPU, Coronel Georgy Semenovich Ortyukov, liderou as equipes de busca e salvamento. Muitos professores e estudantes se voluntariaram. Os primeiros grupos partiram em 20 de fevereiro. Até caçadores mansi se voluntariaram para ajudar.

Depois, o exército e polícia se envolveram, com aviões e helicópteros. Pelo menos três helicópteros participaram das buscas, sendo um deles civil. A URSS raramente mostrava tanta dedicação na busca de turistas comuns e, segundo algumas pessoas, o empenho se deu pelos laços de um ou mais alpinistas com a KGB. É claro que o fato de que a viagem era dedicada ao Congresso Comunista em Moscou – e tinha certo grau de motivação política – fez as autoridades investirem na busca.

Coronel Georgy Ortyukov  Boris Slobcov  Michael Sharavin

No dia 23, o grupo de buscas de Boris Slobcov foi deixado próximo a Otorten. No dia seguinte, chegaram ao topo da montanha e concluíram que o grupo de Dyatlov nunca chegara ali.

A tenda  No dia 25, o grupo de Slobcov encontrou rastros que presumiram ser dos estudantes. No dia seguinte, foi encontrara a barraca abandonada e avariada na Montanha dos Mortos. Mikhail Sharavin, estudante que a encontrou, disse que “a tenda estava meio virada e coberta com neve. Estava vazia e todos os pertences e calçados do grupo foram deixados para trás”. Investigadores disseram que a tenda foi aberta com um corte de dentro para fora.

Na tenda, Slobcov encontrou uma lanterna de fabricação chinesa sobre uma cobertura de 5 a 10 cm de neve, mas sem neve sobre si. Ele testou-a e ela funcionou perfeitamente.

A barraca do grupo; fotografia feita em 26/02/1959

A barraca; os cortes feitos pelos estudantes estão em destaque  Desenho mostrando como a barraca foi aberta

Segundo o relatório oficial, a barraca estava a 300 metros do topo da montanha 1079 (termo oficial que designa a Montanha dos Mortos), em seu barranco nordeste, inclinado 30°. O chão da barraca era nivelado por neve e tinha oito pares de esquis para suportá-la. A tenda estava esticada pelos polos e fixada por cordas. No chão, foram encontradas nove mochilas com vários itens pessoais, casacos, capas de chuva, nove pares de sapato, calças masculinas, três pares de botas, casacos de pele, meias, gorros, capas de esqui, utensílios, baldes, o forno construído por Dyatlov, um machado, uma serra, biscoitos em duas bolsas, leite condensado, açúcar, concentrados, cadernos, um itinerário, três câmeras e acessórios fotográficos, documentos e muitos outros itens pequenos.

Como não esperavam encontrar os estudantes mortos, não houve grande preocupação em preservar e registrar as pegadas no local. Julgando pelos relatos do grupo de buscas e do fotógrafo que fez as imagens após a chegada do grupo, havia uma cadeia de oito ou nove pegadas deixadas por pessoas diferentes com meias, um único sapato e descalças. Elas puderam ser seguidas descendo a ladeira e chegando à margem de um bosque próximo no lado oposto da passagem, 1,5 km a nordeste, mas depois de 500 metros, elas estavam cobertas por neve.

Fotografia de pegada próxima à barraca

Pegadas próximas à barraca do grupo

Pegadas próximas à tenda

Algumas pessoas foram às pressas para o acampamento montado no pé da montanha. Nativos mansi se juntaram ao grupo, assim como Egor S. Nevolin, operador de rádio. Às 18h, informaram por rádio as descobertas e o IPU respondeu que um grande grupo seria levado de helicóptero até o local com duas barracas militares grandes. Um detetive e o Coronel Ortyukov também se uniriam ao grupo.

Várias pessoas começaram a fazer o jantar enquanto o resto tentava encontrar pistas. Encontraram 710 rublas e passagens de trem para o grupo todo e interpretaram como bom sinal. No jantar, Slobcov propôs um brinde à saúde dos amigos e expressou esperança em encontrá-los logo. Um dos locais, Ivan Paschin, estava menos otimista e sugeriu que deveriam brindar pelos mortos. Ele quase foi agredido por sua atitude pessimista. Ainda não viam a possibilidade de que o grupo de jovens pudesse ter perecido na neve da Sibéria.

Encontrados  Na manhã seguinte, Yury Koptelov e Sharavin procuravam por um novo local para o acampamento, explorando o vale do rio Lozva. Na margem da floresta, um local parecia promissor. O vento soprava constantemente ali e não deixava a neve se acumular muito. Ao se aproximar, eles pararam espantados. Sob um grande cedro antigo, encontraram os restos de uma fogueira e os dois primeiros corpos: Yuri Krivonischenko e Yuri Doroshenko, sem calçados e vestidos apenas com as roupas de baixo.

Dois corpos foram encontrados junto a restos de uma fogueira sob uma árvore

Os corpos de Krivonishenko e Doroshenko

Os galhos estavam quebrados até 5 metros de altura, sugerindo que pelo menos um deles escalou para observar algo, talvez o acampamento. Posteriormente, descobriu-se restos de pele e sangue humanos alojados nas fendas das cascas da árvore.

O promotor de Ivdel Vasily Ivanovich Tempalov descobriu outro corpo a 300 metros do cedro e os estudantes o reconheceram rapidamente como Igor Dyatlov. Os caçadores mansi começaram a explorar a região da montanha com cães e logo encontraram o corpo de Zina Kolmogorova, a 480 metros da árvore. Eles estavam em uma linha direta entre a árvore e a barraca e a posição dos corpos indicava que estavam tentando voltar para a tenda.

O cadáver de Igor Dyatlov

Enquanto isso, os objetos eram removidos da barraca sem nenhuma ordem, fotografias ou presença de um representante da lei. Os estudantes simplesmente removeram os objetos e tentaram organizar os pertences por dono. Podemos entender o desejo deles de devolver os pertences às famílias, mas isso prejudicou as pesquisas. Há apenas poucos relatos das pessoas que tomaram essas ações e alguns são conflitantes. Aparentemente, o grupo estava prestes a fazer uma refeição.

Na semana seguinte, foi encontrada outra lanterna chinesa no vale do rio Lozva. As baterias estavam gastas, mas ela estava com a chave na posição ligada.

Em 2 de março, três estudantes e dois mansi encontraram o que as provisões deixadas pelo grupo de Dyatlov para o retorno: comida e equipamentos para carregar a carga (55 kg). Também estavam lá o bandolim de Rustem Slodobin, algumas roupas, sapatos de esqui e um par de esquis. No dia seguinte, a maioria dos estudantes abandonou as buscas para retornar aos estudos.

O corpo de Slobodin foi encontrado na linha entre o cedro e a barraca em 5 de março. Ele estava entre Dyatlov e Kolmogorova e era o único que estava relativamente quente ao cair. O calor de sua cabeça derreteu a neve próxima que congelou novamente sob seu corpo.

Em 31 de março, o grupo de voluntários viu estranhos orbes laranjas pulsando no céu. “Aconteceu bem cedo, enquanto ainda estava escuro. Viktor Mescheryakov, que ficou de guarda naquela noite deixou a barraca e viu uma grande esfera pulsante no céu. Ele acordou todo mundo. Assistimos a este orbe (ou disco) por cerca de 20 minutos até não desaparecer atrás da montanha. Nós o vimos à direção sudoeste de nossa barraca. Estava se movendo rumo ao norte. Este acontecimento assustou todos. Temos certeza de que este acontecimento está de alguma forma envolvido na morte do grupo de Dyatlov”, relatou Valentin Yakimenko.

Helicóptero militar usado na operação de busca  Helicóptero civil usado na operação de busca

Os outros quatro foram encontrados em 4 de maio sob 4 metros de neve em um barranco floresta adentro, a 75 metros da árvore. Estes quatro estavam melhor vestidos que os outros, havendo sinais de que os que morreram primeiro cederam roupas a eles. Zolotarev estava vestindo o casaco de pele falsa e o gorro de Dubinina, enquanto que os pés dela estavam envoltos em um pedaço das calças de lã de Krivonischenko.

Ainda não está totalmente claro se eles caíram em uma garganta ou se cavaram um buraco para se abrigar do vento. Galhos de cedro estavam dispostos de forma a minimizar o contato das pessoas com a neve. Nos galhos, havia roupas retiradas dos corpos que foram encontrados na árvore.

Desenho mostrando o ocorrido na Passagem de Dyatlov (Foto: Vadim Chernobrov / Legendas: Eduardo Oliveira)

Ferimentos  Um inquérito legal começou imediatamente após o achado dos primeiros cinco corpos. Exames médicos não revelaram ferimentos que pudessem ter levado às mortes e concluiu-se que todos morreram de hipotermia. Slobodin tinha uma pequena fratura no crânio, mas não foi considerada fatal.

O exame dos quatro corpos encontrados em maio mudaram o cenário. Três tinham ferimentos fatais: Thibeaux-Brignolles tinha grande dano no crânio e Dubinina e Zolotarev possuíam grande fraturas no peito. Segundo o Dr. Boris Vozrozhdenny, a força necessária para causar tais danos teria sido extremamente forte, comparada à de um acidente automobilístico. Notavelmente, os corpos não tinham ferimentos externos, como se tivessem sido atingidos por um alto nível de pressão.

Dubinina estava sem a língua. Inicialmente, houve especulações sobre o povo indígena Mansi ter atacado e assassinado o grupo por terem invadido suas terras, mas a investigação indicou que a natureza das mortes são suportava a tese.

Embora a temperatura fosse baixíssima – cerca de -30°C – e houvesse uma tempestade acontecendo, os corpos foram encontrados apenas vestidos parcialmente. Alguns tinham apenas um sapato, enquanto outros estavam apenas de meias ou mesmo totalmente descalços. Alguns foram encontrados envoltos em recortes de roupas que pareciam ter sido tirados daqueles que já estavam mortos.

Até 25% das mortes de hipotermia estão associadas à nudez paradoxal, que ocorre tipicamente em hipotermias moderada e severa, na qual a pessoa fica desorientada, confusa e agressiva e pode considerar despir-se, aumentando a perda de temperatura.

Autópsias  Os primeiros quatro encontrados foram autopsiados em Vijei em 4 de março por Boris Vozrozhdenny. Ironicamente para o legista, seu sobrenome significa “renascer”. Ele registrou os danos e as roupas que as vítimas usavam no momento em que foram encontradas. A autopsia de Slobodin foi feita em 8 de março.

Doroshenko, encontrado perto da árvore, era o mais alto e robusto membro do grupo, com 1,80 m. Ele usava uma veste de baixo, uma camisa de mangas curtas, calças tricotadas, um shorts sobre as calças e um par de meias de lã, estando a esquerda queimada. As calças tinham um rasgo de 23 cm no lado direito e um de 13 no lado esquerdo. Havia gotas por dentro das calças nas coxas.

Diagrama das observações da autópsia de Yuri Doroshenko

1. Cabelo queimado no lado direito da cabeça;
2. Orelha, nariz e lábios cobertos por sangue;
3. Contusão na axila direita de 2 x 1,5 cm;
5. Superfície interna do ombro direito tem duas abrasões de 2 x 1,5 cm se sangramento nos tecidos e dois cortes na pele;
6. Contusões marrom avermelhadas no terço mais alto do antebraço direito de 4 x 1 cm, 2,5 x 1,5 cm e 5 x 5 cm;
9 e 10. Pele rasgada nos dedos de ambas as mãos;
11. Pele contundida no terço mais alto de ambas as pernas;
Sinais de queimaduras de fio na face e nas orelhas;
Fluido cinza espumante vindo da boca na bochecha direita;
Quantidade de urina na bexiga: 150 gramas.

A espuma na boca de Doroshenko deu razões para acreditarem que algo ou alguém estava pressionando seu peito. Isso era comum em interrogatórios da polícia secreta de Stalin (NKVD) e das Forças Especiais. Também seria motivo para a queda abrupta da árvore. Os fatos foram ignorados nos documentos finais. Causa da morte: hipotermia.

O corpo de Krivonischenko também estava sob o cedro. Ele vestia uma camisa, uma camisa de mangas longas, calças de natação e uma meia rasgada na perna esquerda.
Observações sobre a autópsia de Yuri Krivonischenko

1. Contusão de 0,3 x 1,8 cm na testa e contusões ao redor do osso temporal;
2. Sangramento difuso nas regiões temporal direita e occipital devido a dano no músculo temporal;
3. Falta a ponta do nariz;
4. Queimaduras de frio nas orelhas;
5. Contusões de 7 x 2 cm e 2 x 1,2 cm;
6. Contusões nas mãos;
7. Descolamento da epiderme na parte traseira da mão esquerda com 2 cm de largura;
8-11. Contusões com pequenos cortes nas coxas;
15. Queimadura de 10 x 4 cm na perna esquerda;
16. Contusão de 10 x 3 cm na nádega esquerda;
17-18. Abrasões de 6 x 2 cm e 4 x 5 cm no lado externo da coxa esquerda;
19-21. Contusões de 2 x 1 cm, 2 x 1,5 cm e 3 x 1,3 cm na perda esquerda;
Porção de epiderme da mão direita encontrada na boca;
Quantidade de urina encontrada na bexiga: 500 gramas.

Causa mortis: hipotermia. Ele simplesmente congelou. A presença de pele da mão entre os dentes sugere que Krivonischenko tentou ficar no cedro pelo máximo que pode. Algumas pessoas dizem que foi resultado de seu empenho em cortar quantos galhos pudesse. Outras dizem que algo no chão o manteve na árvore.

Os dois corpos mostraram um padrão esperado de morte: congelamento. Suas roupas foram removidas pelos amigos. Esta é a realidade na Sibéria: se não conseguir se manter aquecido, vai morrer rapidamente.

Zinaida Kolmogorova estava melhor vestida que os dois sob a árvore. Dois gorros, camisa de mangas compridas, suéter, outra camisa e um suéter com os punhos rasgados. Não estava claro se ela mesma os cortou ou outra pessoa o fez. Ela também vestia calças, calças atléticas de algodão, calças de esqui com três pequenos buracos no fundo, três pares de meias e uma máscara militar.

Esquema mostrando observações da autópsia de Kolmogorova

1 e 4. Contusão longa de 29 x 6 cm cercando o corpo no lado direito;
2. Queimaduras nas falanges dos dedos;
2 e 3. Várias contusões nas mãos e nas palmas;
Inchaço das meninges (característica importante da hipotermia).
Quantidade de urina na bexiga: 300 g.

Causa mortis: hipotermia por acidente violento. Estudos posteriores mostraram que ela não era sexualmente ativa na época da morte.

Igor Dyatlov não usava nada na cabeça. Vestia um casaco de pele desabotoado com bolsos, um suéter, uma camisa de mangas longas, calças de esqui sobre outras calças. Usava uma meia de lã no pé direito e uma de algodão no pé esquerdo. No bolso, uma faca e uma foto de Kolmogorova. Seu relógio marcava 5:31.

Observações sobre a aut[opsia de Dyatlov

1. Pequenas abrasões na testa;
2. Abrasões marrom avermelhadas acima da sobrancelha esquerda;
3. Abrasões marrom avermelhadas em ambas as bochechas;
Sangue seco nos lábios;
Faltava um incisor na mandíbula. A mucosa intacta sugere que o dente foi perdido muito tempo antes da viagem;
4. Muitos arranhões vermelho escuros no terço mais baixo do antebraço direito e na palma.
Juntas da metacarpofalange da mão direita tinham contusões marrom avermelhadas (ferimento comum em brigas, quando se atinge alguém com o punho fechado);
5. Contusões roxo amarronzadas na mão esquerda e feridas superficiais nos 2º e 5º dedo;
6. Joelhos contundidos sem sangramento nos tecidos subjacentes;
7. Contusão no terço mais baixo da perna direita;
8. Abrasões vermelho claras de 1 x 0,5 cm e 3 x 2,5 cm com hemorragia nos tecidos adjacentes em ambos os tornozelo;
Sem lesões internas;
Quantidade de urina na bexiga: quase um litro.

Cadáver de Igor Dyatlov

Segundo a autópsia, a causa da morte foi hipotermia. Posteriormente, Yuri Yudin alegou que a camisa de mangas longas que Dyatlov vestia era dele e a deu a Doroshenko antes de voltar. Presume-se que Dyatlov a pegou depois que Doroshenko morreu.

Rustem Slobodin vestia uma camisa de mangas longas, outra camisa, um suéter, duas calças, quatro pares de meias e um valenkí (uma bota de inverno russa perfeita para a Sibéria) no pé direito. Seu relógio estava parado em 8:45. Seus bolsos tinham 310 rublas e um passaporte. Também foram descobertos uma faca, uma caneta, um lápis, um pente e uma caixa de fósforos com uma meia.

Observações da autópsia de Rustem Slobodin

1. Pequenas abrasões marrons na testa, dois arranhões de 1,5 cm a 0,3 cm um do outro;
2. Contusão marrom avermelhada na pálpebra superior direita com hemorragia nos tecidos adjacentes;
3. Sinais de sangramento no nariz;
Boca inchada;
4. Inchaço e várias abrasões pequenas de forma irregular na metade direita do rosto;
5. Abrasões no lado esquerdo do rosto;
6. Epiderme rasgada no antebraço direito;
7. Contusões nas juntas metacarpofalangeais das duas mãos (similares às de uma luta corporal);
8. Contusões marrom cereja no cotovelo e palma esquerdos;
9. Contusões de 2,5 x 1,5 cm na tíbia esquerda.

Fraturas e hemorragias na cabeça de Rustem Slobodin

A imagem acima demonstra as fraturas e hemorragias (áreas hachuradas) no músculo temporal de Slobodin. Boris Vozrozhdenny sugeriu que poderiam ter sido causadas por um objeto sem pontas. A autópsia menciona que ele provavelmente perdeu a coordenação devido à pancada, que poderia acelerar sua morte por hipotermia. A previsão é cautelosa, colocando a hipotermia como causa mortis e a contusões e arranhões em seu último minuto de agonia

Ainda não está claro como ele machucou o exterior das mãos e das pernas. Quando uma pessoa cai, mesmo em estado irracional, geralmente é a palma que sofre mais, assim como os joelhos. Lesões na cabeça são menos comuns, principalmente bilaterais. É comum ferir a face e os lados da cabeça mas não a parte posterior. O cadáver de Slobodin mostra o oposto: seus padrões de ferimentos são o contrário do que veríamos em um homem com hipotermia nos últimos minutos de sua vida. É possível que ele tenha caído varias vezes batendo o rosto enquanto descia a montanha, conseguindo bater os lados da cabeça? Você consegue imaginar um jovem em boa forma física acostumado a tais viagens passando por isso?

Os outros quatro corpos foram examinados em 9 de maio de 1959.

Dubinina vestia um gorro, uma camisa de mangas curtas, uma de mangas compridas, dois suéteres, roupas de baixo, meias longas, dois pares de meias, estando o externo danificado por fogo e rasgado, e meias quentes. Uma terceira meia não tinha o par. Aparentemente, tentando preservar os pés, ela rasgou um suéter ao meio e enrolou uma metade no pé esquerdo. A outra metade foi deixada na neve.

Observações sobre a autópsia de Dubinina

A língua está faltando;
Tecidos moles estão faltando ao redor dos olhos, sobrancelhas e área temporal esquerda, estando o osso parcialmente exposto;
1. Faltam os olhos;
2. Cartilagens do nariz estão quebradas e achatadas;
Tecidos moles do lábio superior estão faltando, estando os dentes e o maxilar expostos;
3-5. Costelas quebradas em ambos os lados, estando duas linhas de fratura visíveis;
Grande hemorragia no átrio direito do coração;
6. Contusão de 10 x 5 cm no meio da coxa direita;
7. Tecidos danificados ao redor do osso temporal esquerdo, tamanho: 4 x 4 cm.

A ausência da língua de Dubinina é um dos aspectos mais contundentes e divulgados do incidente. Vozrozhdenny descreve apenas a falta do músculo hipoglossal e do chão da boca. Sem explicações, teorias, ou condições dos tecidos adjacentes. Os corpos examinados anteriormente tiveram um relatório mais detalhado e não há explicação para um relatório mais vago.

É mencionado também que o estômago dela continha cerca de 100 g de sangue coagulado – o que indica que o coração de Dubinina estava batendo e seu sangue fluindo enquanto a língua era retirada.

A causa da morte é atribuída como hemorragia no átrio direito, fraturas múltiplas nas costelas e hemorragia interna.

Cadáver de Zolotarev

O corpo de Zolotarev foi encontrado com dois gorros, um cachecol, uma camisa de mangas curtas, uma de mangas longas, um suéter escuro e um casaco com os dois botões de cima desabotoados. Vestia também roupas de baixo, duas calças, calças de esqui, um par de meias e um par de sapatos de couro feito a mão conhecidos como burka.

Não seria o suficiente para mantê-lo aquecido por muito tempo, mas, como estava na toca, seria o bastante para mantê-lo vivo. Algumas pessoas defendem a ideia de que não foi o frio o responsável por sua morte.

Ele possuía jornais, algumas moedas, uma bússola e alguns outros itens. Em seu pescoço, estava pendurada uma câmera que não é vista em outras fotos. Para Yuri Yudin, isso foi uma surpresa. Ele achava que o grupo tinha apenas quatro câmeras, que foram encontradas na barraca. Infelizmente, o gelo derreteu e entrou água no equipamento, danificando o filme.

Ficam perguntas no ar. Por que Zolotarev levou duas câmeras na viagem: uma que usava frequentemente e todos viam e outra que estava escondida? E por que ele não abandonou esta câmera na barraca?

Observações da autópsia de Zolotarev

1. Faltam os globos oculares;
2. Faltam tecidos moles ao redor da sobrancelha esquerda, estando o osso exposto, tamanho do dano: 7 x 6 cm;
3. Costelas 2, 3, 4, 5 e 6 quebradas com duas linhas de fratura;
4. Ferida de 8 x 6 cm aberta no lado direito com osso exposto.

Zolotarev e Dubinina tem um padrão interessante de ferimentos. São muito similares em direção e força, apesar das diferenças de forma, altura e composição do corpo dos dois. Isso sugere que o que causou os ferimentos não foi um evento único uniforme.

Cadáver de Zolotarev

O cadáver de Kolevatov estava bem isolado, mas estava sem um gorro e sapatos. O superior do torso estava protegido por uma camisa sem mangas, dois suéteres, um de lã, e uma jaqueta de esqui com zíper e botões que estava aberta, o que é estranho para alguém que queria se proteger do frio. Um grande buraco na manga esquerda tinha as bordas queimadas e media 25 x 12 x 13 cm. A manga direita tinha vários rasgos de 7 e 8 cm.

Em seus bolsos, foram encontrados chaves, um pino de segurança, um papel em branco (talvez para registar acontecimentos ou pensamentos) e dois pacotes de pílulas, soda e codeína.

A parte baixa do corpo tinha shorts, calças leves, calças de esqui e calças de lona. Dos bolsos, foram retirados uma caixa de fósforos encharcada. Seus pés tinham meias caseiras com sinais de queimaduras. O pé direito também estava vestido com uma meia leve sob uma de lã. O pé direito tinha três meias similares. Foi encontrada uma bandagem em seu tornozelo esquerdo, mas o kit de primeiros socorros do grupo estava na barraca.

Notas da autópsia de Kolevatov

1. Faltam tecidos moles e sobrancelhas ao redor dos olhos, estando o osso exposto;
2. Nariz quebrado;
6. Ferida aberta de 3 x 1,5 cm atrás da orelha;
4. Pescoço deformado;
5. Hemorragia difusa nos tecidos subjacentes do joelho esquerdo;
Maceração (pele amolecida e esbranquiçada) nos pés e dedos das mãos (indica exposição consistente do tecido vivo a umidade;
A cobertura geral da pele era cinza esverdeada com matiz roxa.

Este relatório também foi um tanto vago. O nariz quebrado, a ferida aberta atrás da orelha e a deformação no pescoço podem ser resultado de uma luta. Podem também ter sido resultado de três meses de exposição à natureza. No relatório, não há nenhuma tentativa de explicação, mas pescoço quebrado e golpe atrás da orelha são uma forma comum de assassinato por forças especiais na época.

Thibeaux-Brignolles estava bem protegido do frio siberiano. Foi sugerido que ele e Zolotarev estavam fora da barraca quando o ataque começou. Isso explicaria o motivo dos dos estarem calçados e bem vestidos.

Ele vestia um gorro de tela de pele, um gorro caseiro de lã, uma camisa, um suéter de lã ao contrário e um casaco de pele de carneiro. Luvas de lã, três moedas, um pente e vários pedaços de papel foram encontrados no bolso direito. Vestia também roupas de baixo, calças de moletom e de esqui, meias de lã feitas à mão e um par de valenki.

Em seu pulso esquerdo, havia dois relógios: um parado em 8:14 e outro em 8:39. Manchas cadavéricas foram encontradas nas costas, pescoço e braços. Sua barba tinha até 1 cm.

Observações da autópsia de Thibeaux-Brignolles

1. Fraturas múltiplas no osso temporal com extensões aos ossos frontal e esfenoide;
2. Contusão no lábio superior no lado esquerdo;
3. Hemorragia de 10 x 12 cm no baixo antebraço.

Fraturas no crânio de Thibeaux-Brignolles

Quando Lev Ivanov interrogou oficialmente o Dr. Vozrozhdenny sobre os ferimentos desta vítima, houve o seguinte diálogo:

– O que poderia ter causado os ferimentos que Nikolay Thibeaux-Brignolles sofreu?

– Ele pode ter sido jogado da altura de um homem adulto. Pode ter escorregado e caído. Porém, as fraturas cada vez mais profundas da base do crânio sugerem que os ferimentos deles são similares aos de uma vítima que foi jogada com grande velocidade e força de um carro se movendo rapidamente.

– Poderíamos presumir que ele foi atingido por uma rocha que era portada por outro homem?

– Neste caso, veríamos damos a tecidos moles e não vemos isso neste corpo.

Vozrozhdenny excluiu queda acidental da rocha como possível causa para as fraturas, tão incomuns. Alguns teorizaram que a forma das fraturas poderiam ter origem na pressão aplicada durante uma avalanche que teria atingido o grupo enquanto dormiam na barraca.

Se o jovem dormisse com a cabeça sobre uma câmera, o súbito aumento de pressão deixaria marcas em sua cabeça, mas a forma das fraturas provavelmente seria outra. Além disso, haveria uma grande hemorragia e ele ficaria incapacitado de se locomover sozinho para deixar a tenda. Não havia sinais de arrasto de pessoas na neve as pegadas sugerem que todos saíram andando com os próprios pés.

Preparando o acampamento, por volta das 5 da tarde de 02-02-1959

Avalanche…  É claro que muitas teorias surgiram diante dos fatos sem explicação aparente. De atividade paranormal a testes de armas secretas. Uma avalanche – um elefante na sala – é considerada por muitos a explicação mais plausível.

Neve em movimento derrubou a barraca e os alpinistas tiveram que cortá-la para sair. A neve provavelmente estragou as botas e as roupas extras. A cobertura de neve molhada nas temperaturas congelantes criou um risco grave com possível exaustão ou perda de consciência por hipotermia possivelmente em menos de 15 minutos. Thibeaux-Brignolles, Dubinina, Zolotarev, e Kolevatov seguiram em frente para encontrar ajuda quando caíram na garganta onde foram encontrados. A queda causou os ferimentos.

Um fator que suporta a teoria é que avalanches são comuns em qualquer ladeira que acumule neve. Apesar de alegações de que a área não é propensa a avalanches, avalanches de placas são típicas em neve nova e onde pessoas a rompem. Muitas evidências se encaixam neste cenário.

Contrárias à teoria, estão as pegadas e o fato de que os investigadores não notaram danos óbvios de avalanches. Porém, as pegadas poderiam ser preservadas se não houvesse precipitação nos 25 dias entre a avalanche e a descoberta da barraca.

Quanto à radioatividade nas roupas, algumas pessoas levantam a possibilidade de as luminárias utilizadas conterem tório, que emite radiação de partículas alfa. Do outro lado do muro, dizem que as luminárias que usam gás de tório não estavam disponíveis na Rússia naquela época.

Vale lembrar que Krivonischenko, que vestia roupas radioativas, presenciou um acidente nuclear em uma instalação secreta em 1957.

Helicóptero militar usado na operação de busca  Helicóptero militar usado na operação de busca

Ou outra coisa?  Alguns pesquisadores do caso alegam que alguns fatos foram ignorados, talvez deliberadamente, pelas autoridades.

Outro grupo, cerca de 50 km ao sul do incidente, relatou ter visto estranhas esferas laranjas no céu ao norte, na direção da Montanha dos Mortos, na noite do ocorrido. Avistamentos similares aconteceram em Ivdel e adjacências continuamente em fevereiro e março de 1959. Testemunhas independentes incluem serviços meteorológicos e militares. Posteriormente, Eugene Buyanov provou que eram lançamentos de mísseis intercontinentais R-7.

O último acampamento do grupo estava localizado diretamente entre o cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, de onde a URSS lançava os mísseis R-7, e Chyornaya Guba, no arquipélago de Novaya Zemlya, que era um importante local de testes de armas nucleares nucleares soviéticas.

Havia também o míssil R-12, que ainda estava sendo testado. Segundo uma teoria, já que não há absoluta certeza sobre a preservação das pegadas no local, um grupo das forças especiais soviéticas se livrou de algumas testemunhas no Incidente. É óbvio que os engenheiros e militares soviéticos não queriam que suas falhas fossem ditas aos quatro ventos.

Além disso, Sverdlovsk estava cercada de unidades de foguetes anti-aéreos. Por boa parte dos anos 50, os soviéticos não tinham defesas contra os aviões espiões dos Estados Unidos. O primeiro sucesso neste sentido ocorreu em maio de 1960, quando foguetes soviéticos abateram um avião espião U2 pilotado por Francis Gary Powers 67 km a oeste de Sverdlovsk.

Alguns relatórios sugerem que havia muita sucata metálica na área. Duas calças e um suéter eram altamente radioativos.

Yury Kuntsevich, na época com 12 anos, esteve em cinco funerais dos alpinistas e lembra-se de que as peles tinham um “bronzeado marrom profundo”. (Lembre-se deste nome: Yury Kuntsevich.) Várias outras pessoas, incluindo familiares, relataram uma coloração anômala nos corpos das vítimas.

Aqui vemos indícios a favor da teoria do teste de armamento – na qual um míssil nuclear sendo testado pode ter saído da trajetória e caído na passagem de Dyatlov. A teoria também envolve um elaborado trabalho de acobertamento feito pelas autoridades soviéticas.

Escavações próximo à tenda; ao fundo, a Passagem de Dyatlov

Sem explicação  Além dos relatos de que as peles estavam laranjas, também há boatos de que os cabelos estavam cinzas. Quanto as informações sobre a aparência terrível dos corpos nos funerais, céticos se perguntam se ela não teria sido causada pela exposição ao intemperismo.

Um dos mastros de esqui tinha sinais de danos feitos por faca. Por que eles danificariam propositalmente seu equipamento?

Já mencionei que foi encontrada radiação em algumas roupas, mas por que procuraram por radiação na investigação criminal? Os testes foram feitos entre 18 e 25 de maio. No dia 28, o caso foi fechado oficialmente. Estranho, não?

Kolevatov matinha um diário pessoal. Yudin afirmou que o diário estava com Kolevatov quando retornou. Este diário desapareceu. Analisando as fotos que foram recuperadas de câmeras encontradas no local, conclui-se que uma câmera também está faltando.

Foi encontrado perto dos corpos um obmotki, uma antiga proteção para os pés usada por soldados do Exército Vermelho: uma fita longa e estreita que era enrolada nos calçados para proteger os pés dos elementos do tempo. Os obmotkis desapareceram nos anos 1940, mas muitos veteranos guardaram os seus após deixar o serviço. Segundo Yudin, ninguém do grupo possuía um.

Semen Zolotarev se apresenta como Alexander ao grupo. No memorial ao grupo, seu nome está errado. Ele e Krivonischenko estão enterrados separados dos outros alpinistas em um cemitério que está oficialmente fechado há anos.

Da esq., Michael Sharavin, Vladimir Strelnikov, Boris Slobcov e Vyacheslav Chalizov em 25/02/1959 (Foto: V. Brusnicin)

Talvez o aspecto mais inquietante seja a ausência da língua de Dubinina – que não possui nenhuma explicação coerente ou descrição detalhada, o relatório da autópsia não menciona o estado dos tecidos próximos.

Segundo jornalistas que tiveram acesso aos arquivos do inquérito, eles mencionam que:

  • Seis do grupo morreram de hipotermia e três de ferimentos fatais;
  • O Dr. Boris Vozrozhdenny afirmou que os ferimentos fatais dos três corpos não poderiam ter sido causados por outro ser humano, “porque a força dos golpes foi muito grande e nenhum tecido mole foi danificado”;
  • Não havia sinais de outras pessoas próximas ou nos arredores;
  • A barraca foi rasgada de dentro;
  • Vestígios do acampamento mostraram que todos deixaram o acampamento com consentimento;
  • As vítimas morreram de 6 a 8 horas após a última refeição;
  • Testes forenses de radiação mostraram altas doses de contaminação radioativa nas roupas de algumas vítimas.

Não havia informações sobre os órgãos internos das vítimas.

O veredito final foi de que os alpinistas morreram por causa de uma “força natural incontrolável”. O inquérito foi fechado oficialmente em maio de 1959 por “ausência de parte culpada” e os documentos foram enviados para um arquivo secreto.

A imagem abaixo é a 33ª e última fotografia feita pela câmera encontrada. Não há nenhum acordo sobre a interpretação da imagem. Dizem que o grupo de buscas fez a foto acidentalmente ou que a imagem foi danificada por autoridades acidentalmente ou de propósito. É impossível determinar o que foi fotografado. Alguns veem um homem com os braços levantados e algo pegando fogo ou aceso ao fundo. Outros veem a entrada da tenda de dentro.

Última fotografia feita pela câmera encontrada junto ao grupo

Funeral das vítimasFuneral  Nem as cerimônias de despedidas dos estudantes escapa do mistério. Eles foram enterrados em Sverdlovsk. As autoridades locais não queriam que a tragédia fosse um chamarisco público e desaprovou a publicidade do local e a hora. Depois, não permitiram que um grande grupo de pessoas se reunisse próximo ao cemitério. Após grande insistência, as autoridades permitiram o enterro das vítimas conforme o planejado.

Até hoje, não foi explicado o motivo de Zolotarev e Krivonischenko terem sido enterrados no Cemitério Ivanovskoe, que posteriormente foi fechado para novos enterros. Também ainda não se descobriu quem deu a ordem para enterrar as vítimas separadamente, mas certamente não foram os familiares. Foi dito que os túmulos foram visitados por pessoas “com roupas civis”, termo usado na descrição de agentes da KGB.

Funeral das vítimas

Frequentemente, pessoas visitam o túmulo dos outros sete no Cemitério Michailovskoe e deixam flores e velas. Como os nomes de Zolotarev e Krivonischenko estão no memorial, parece que poucas pessoas sabem que eles não estão enterrados ali.

KGB?  Estes aspectos dão um pouco de crédito a uma teoria abandonada há muito tempo. Ela envolve espionagem do mais alto grau. A polícia secreta de Stalin seguia qualquer estrangeiro que pisasse na Rússia e a inteligência do Tio Sam contava com cidadãos soviéticos que queriam trabalhar para os capitalistas em regiões remotas onde a indústria nuclear estava sendo expandida e desenvolvida – de onde estrangeiros não podiam nem se aproximar. A corrida por armas nucleares colocou grande pressão na Agência de Inteligência Central (CIA) estadunidense por não haver uma forma rápida de provar que um local era ou não usado para enriquecimento nuclear.Túmulo de Zolotarev

O meio encontrado foi a entrega de um objeto contendo material radioativo. Tomsk-7, por exemplo, foi confirmado como instalação de enriquecimento por um único gorro de esqui em 1955. Parece absurdo nos dias de hoje, mas na época, era a única forma de suprir a paranoia em meio às limitações técnicas.

Mas os soviéticos também não foram bobos. Várias vezes, eles enganaram os ianques entregando material radioativo de lugares que não tinham nada a ver.

Segundo a teoria, pelo menos dois membros do grupo de Dyatlov foram contratados pela KGB para entregar provas falsas: roupas irradiadas. o resto do grupo provavelmente não estava ciente do real propósito da jornada.

Zolotarev e Krivonischenko são os melhores candidatos. Krivonischenko trabalhou para uma instalação fechada envolvida no desenvolvimento nuclear soviético. Faria sentido presumir que um estudante jovem e promissor foi abordado por agentes de inteligência ocidentais. Se foi mesmo, ele relataria o ocorrido a um osobist, um agente da KGB no local, e se tornaria um peão para a entrega de material radioativo falso.

Pouco antes da viagem, Krivonischenko foi preso por comportamento desordeiro e solto quase imediatamente. Seria uma situação armada para receber as roupas irradiadas? Ele esteve envolvido em um acidente nuclear, mas obviamente não guardaria as roupas usadas no dia. Mesmo pilotos de helicóptero se recusavam a transportar corpos quando ouviam que havia radioatividade.

Ele precisaria de um homem que pudesse auxiliá-lo em uma situação difícil. E aí entra Zolotarev. Ele teve experiência na guerra e se apresentou com outro nome ao grupo. Em sua biografia oficial, o mistério é ainda maior. Ele mencionou servir em uma unidade militar de engenharia – os primeiros a limpar as defesas inimigas e cair facilmente sob fogo inimigo. Basicamente, eram unidades suicidas.

Zolotarev e amigo na guerraAlgumas unidades perderam até 80% do contingente em poucos dias de batalha por Konigsberg e Berlim. Lhes foram oferecidas placas de metal para o peito para tentar reduzir as baixas, mas houve pouco efeito prático. Zolotarev serviu em uma destas unidades e sobreviveu.

Ele entrou para o exército em outubro de 1941, mas chegou ao front em maio de 1942. Na época, oficiais eram treinados por três meses e soldados por alguns dias, se tivessem sorte. Zolotarev treinou por 6 meses. Ele deveria ter sido enviado ao front às pressas e matado inúmeros inimigos.

Ele recebeu 4 medalhas – muito para um soldado soviético: Muitos não viviam o bastante para se encaixar nas qualificações para receber uma. Além disso, havia muitas razões para a URSS não dar medalhas. Por exemplo, nacionalidade: as famílias chechenas foram deportadas para o Cazaquistão a partir de fevereiro de 1944 e dar medalhas a seus filhos, irmãos e pais levantaria duvidas sobre a legitimidade de tal tratamento. Outros motivos envolviam região do país e experiência social. Zolotarev era um cossaco, uma subcultura russa de soldados e lavradores do sul do país, do vilarejo de Udobnaya, da região de Krasnodar, e filho de um médico. Os cossacos eram muito religiosos e independentes e chamavam a atenção no Kremlin, reduzindo as chances de Zolotarev ser condecorado.

Em sua biografia oficial, ele mencionou quatro sinais de distinção mas não descreveu as circunstâncias e locais das ações militares que lhe renderam reconhecimento. Estas biografias tinham regras e eram usadas como currículo para arrumar um emprego. Era preciso escrever o número da medalha em um documento oficial. Do contrário, o documento seria devolvido e haveria consequências para com o exército. Zolotarev não mencionou números, unidades ou locais e mesmo assim o documento era aceito sem problemas.

Zolotarev e seus pais

Após a Guerra, ele entrou para um partido comunista. Em abril de 1946, foi transferido para a Universidade de Engenharia Militar de Leningrado. Depois, foi para o Instituto Mink de Educação Física e, no início dos anos 50, trabalhou como guia para a base turística de Atybash, em Altai, no sul da Sibéria. Ele poderia ter ficado no exército trabalhando em uma base turística, mas não ficou, Viajou pelo país várias vezes sem explicação aparente. Só o fato de ser um cossaco e nunca ter casado e tido filhos já chama a atenção.

Ele também escondia várias tatuagens. Uma delas era seu ano de nascimento, 1921. Outra era uma frase militar. Havia também a inscrição “Г+С+П=Д”. Esta última era comum para soldados que serviram por muito tempo. O Д é de дружба, “drujba”, amizade. As três primeiras letras são os nomes: С é de Семен, Semen. Não se sabe os nomes das outras duas letras.

Ele celebrava o 38º aniversário em 2 de fevereiro. E faleceu nesta data.

“Turistas”  Voltando à teoria… O grupo encontrou “turistas perdidos” e compartilhou roupas num ato de boa vontade. Eles deveriam se separar, mas algo deu errado e os “turistas” forçaram os estudantes para fora da barraca e os fizeram tirar os sapatos. Slobodin pode ter tentado defender seu grupo e foi atingido na cabeça. Os agentes estadunidenses procuraram por provas de sua passagem por ali e recolheram uma câmera e o diário de Kolevatov. Quatro estudantes fugiram e tentaram se esconder. Após matar os cinco primeiros, os agentes encontraram e mataram os quatro.

As primeiras vítimas foram Doroshenko e Krivonischenko, que foram deixados no cedro com uma fogueira. Doroshenko tinha uma estranha espuma cinza na boca. Segundo algumas pessoas, ele foi torturado com peso sobre o peito, o que aumenta a pressão hidrostática do sangue nos capilares. Isso produziu exsudato (saída de líquidos pelas membranas celulares) que encheu os pulmões e apareceu como espuma em volta de seus lábios.

Aparentemente, Krivonischenko mordeu as palmas das mãos. Dizem que ele tentou escapar dos inimigos subindo na árvore, mas suas mãos congeladas estavam muito fracas. Ele teria tentado mordê-las, deixando marcas nas mãos e epiderme na parte mais interna dos dentes. Após cair, teria sido espancado e abandonado para morrer, o que não teria demorado muito.

Eles procuraram pelos outros na floresta. O grupo veio ao cedro e os agentes ouviram suas vozes.

A teoria perdeu crédito há muito tempo. Algumas perguntas foram levantadas. Por exemplo, por que a KGB não substituiu os estudantes por seus próprios agentes, treinados e capacitados para o serviço? E por que eles não levaram armas, mesmo rifles de caça que eram legais. Faria sentido ter um destes rifles numa expedição destas. Aliás, por que os agentes estadunidenses também não portavam armas? Não seria muito mais fácil simplesmente atirar nos jovens? Só se não quisessem usar armas de fogo para não haver evidências mesmo.

O que realmente aconteceu aos nove estudantes?

Público  Em 1967, Yuri Yarovoy, escritor e jornalista de Sverdlovsk, publicou o romance “Do Mais Alto Grau de Complexidade” (Высшей категории трудности), inspirado no incidente. Yarovoy esteve envolvido com as buscas e o inquérito, inclusive atuando como um fotógrafo oficial na campanha de busca e no estágio inicial da investigação. O livro foi escrito na era soviética, quando detalhes eram secretos e o autor evitou revelar qualquer coisa além da posição oficial dos fatos. A obra romantizou o episódio e teve um final mais otimista que a realidade: apenas o líder do grupo foi encontrado morto. Os colegas de Yarovoy dizem que ele tinha um final alternativo que foi negado pela censura. Desde sua morte, em 1980, todos os arquivos de Yarovoy, incluindo fotos, diários e manuscritos estão perdidos.

Alguns detalhes da tragédia tornaram-se públicos em 1990 seguindo publicações e discussões na imprensa regional de Sverdlovsk. Um dos primeiros autores foi o jornalista Anatoly Guschin, que relatou que autoridades policiais deram a ele permissão especial para estudar os arquivos originais do inquérito e usar o material em suas publicações. Ele notou que havia páginas excluídas dos arquivos, como um envelope mencionado na lista de materiais. Ao mesmo tempo, fotocópias de alguns arquivos começaram a circular entre pesquisadores não-oficiais.

Guschin resumiu sua pesquisa no livro “O Preço de Segredos de Estado São Nove Vidas” (Цена гостайны – девять жизней). Alguns pesquisadores criticaram a obra devido a sua concentração na especulação de um experimento bélico soviético secreto, mas o livro levantou a discussão pública, estimulado por interesse no paranormal. De fato, muitas pessoas que ficaram em silêncio por trinta anos relataram novos fatos sobre o incidente. Uma delas foi o ex-policial Lev Ivanov, que liderou o inquérito policial em 1959.

Em 1990, Ivanov publicou um artigo com sua admissão de que a equipe de investigação não possuía explicação racional para o ocorrido. Ele também relatou que recebeu ordens diretas de oficiais regionais de alta patente para dispersar o inquérito e manter seus materiais secretos após relatar que a equipe havia visto “esferas voadoras”. Ivanov acredita em explicações paranormais e, principalmente, em OVNIs.

O que está por trás do Incidente da Passagem de Dyatlov?

Em 2000, a Agência de Televisão Ural (Телевизионное Агентство Урала, ТАУ) produziu o documentário “O Mistério da Passagem de Dyatlov” (Тайна Перевала Дятлова). Com ajuda da equipe de filmagem, Anna Matveyeva, escritora de Iecaterimburgo, publicou o docu-drama homônimo. Boa parte do livro inclui amplas citações do caso oficial, diários de vítimas, entrevistas com pesquisadores e outros materiais coletados pela produção. A linha narrativa do livro detalha o cotidiano e os pensamentos de uma mulher moderna (um álter-ego da autora) que tenta resolver o caso.

Apesar da narrativa de ficção, o livro permanece a maior fonte de materiais documentais já tornada disponível ao público. Além disso, páginas de arquivos e outros documentos (em fotocópias e transcrições) são gradualmente publicadas em fóruns na internet por pesquisadores e entusiastas.

Com a ajuda da Universidade Técnica Estadual Ural, instituição de onde os alpinistas eram alunos, foi fundada a Fundação Dyatlov, liderada por Yury Kuntsevich. (Lembra-se do nome?) O objetivo da fundação é convencer as atuais autoridades russas a reabrir a investigação do caso e manter o Museu Dyatlov para perpetuar a memória dos alpinistas.

Turismo A Passagem de Dyatlov acabou tornando-se uma ponto turístico marcante na região. Quer incluí-la nos planos de suas férias?

Iecaterimburgo é uma grande parada de transportes e é fácil chegar até lá de trens que saem das principais cidades russas. O trem 016E, por exemplo, sai de Moscou e chega à cidade em cerca de 15 horas e meia. Também há três voos diários entre de Moscou a Iecaterimburgo.

Monumento aos nove estudantes (Foto: Dmitriy Nikishin)

Apesar da montanha Kholat Syakhl ser um dos lugares de mais difícil acesso na Rússia, o fascínio do público faz algumas empresas de turismo oferecerem um tour pela Passagem.

A rota ao platô Manpupuner passa por lá. A viagem leva 14 dias. Os primeiros 1.300 km, a partir de Iecaterimburgo, são feitos em veículos off-road e os 155 km seguintes são feitos à pé. Os participantes passam a noite na Passagem.

Leva cerca de uma semana para cobrir os 400 km da rota de inverno pelos Montes Urais Setentrionais em veículos para gelo. Turistas mais aventureiros podem alugar veículos off-road. A rota passa pela cidade fantasma de Ushma, que hoje tem apenas três habitantes mansi. A vila ainda tem algumas ruinas do Gulag que foi montado lá em 1938. Ushma é próxima a Vijei – o ponto de partida do grupo de Dyatlov.

Os avistamentos ufológicos em Ivdel também atraem turistas. Segundo representantes de empresas de turismo “nenhum mês passa sem que os moradores relatem algum tipo estranho de brilho no céu”. Auroras e aeronaves não podem explicar os fenômenos.

Por razões óbvias, os participantes deve se registrar no Ministério de Situações de Emergência antes da viagem. Serviços de busca e resgate estão de prontidão.

Monumento ao grupo de Dyatlov (Foto Dmitriy Nikishin)

Nove  Se você for mesmo visitar a Montanha dos Mortos, cuidado! Ela parece ser atraída por grupos de nove pessoas. Segundo a lenda mansi, nove caçadores pernoitaram lá durante uma viagem. Na manhã seguinte, foram encontrados mortos pelos amigos. Não havia sinais de violência. Assim, o local ficou com fama de assombrado e as tribos locas o evitaram.

Em 1959, o grupo de Dyatlov. Em 1960, outras nove fatalidades aconteceram na montanha em três acidentes aéreos envolvendo pilotos e geólogos. No ano seguinte, nove turistas de Leningrado foram encontrados mortos.

Mais recentemente, um helicóptero caiu aproximando-se da montanha. Nove pessoas estavam a bordo. Nesta ocasião, não houve mortes, mas chama a atenção sempre serem nove pessoas…

Há muitos livros, artigos e documentários a respeito do Incidente da Passagem de Dyatlov. Em 28 de fevereiro de 2013, foi lançado o filme “O Mistério da Passagem da Morte”, que me incentivou a escrever este post.

Memorial ao grupo de Dyatlov, próximo à Passagem

Entre muitos fatos sem explicação aparente, relatos que confrontam versões oficiais e levantam a hipótese de acobertamento e fenômenos “fora do comum”, nos resta apenas esperar por mais informações e continuar procurando nos materiais disponíveis. (Aliás, aí vão os links que mencionei. Estão em inglês ou russo.)

Já se passaram 55 anos. Quanto tempo mais vamos ter que esperar por respostas?

Fotografia presente em rolo de filme de câmera encontrada com o grupo

 

 

“Eu preferiria ter uma mente aberta pelo mistério que fechada pela crença.”
Gerry Spence, advogado estadunidense (1929- )

 

Eduardo Oliveira
editor

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