Condições climáticas e de solo e tipo de sal encontrado em solo marciano podem criar água salgada na superfície do planeta. Medições foram feitas por instrumentos a bordo do robô Curiosity, da NASA.

Percloratos identificados no solo marciano pelo robô Curiosity e previamente pela missão Phoenix têm propriedades de absorver vapor de água da atmosfera e reduzir a temperatura de congelamento da água. Isso foi proposto por anos como um mecanismo para a existência de salmouras líquidas transientes em grandes latitudes em Marte, apesar das condições secas e frias do planeta.

Os novos cálculos foram baseados em mais de um ano de medições de temperatura e umidade pelo Curiosity. O resultado indica que as condições do local do robô, perto da Linha do Equador foram favoráveis para que pequenas quantidades de água salgada se formarem algumas noites pelo ano, secando ao nascer do sol. Em latitudes maiores, onde temperaturas mais baixas e mais vapor de água podem resultar em umidade relativa com maior frequência, as condições devem ser ainda mais favoráveis.

“Água líquida é uma necessidade para vida como conhecemos e um alvo para as menções de exploração de marte”, disse o autor líder do relatório Javier Martin-Torres, do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC), da Espanha, da Luleå Tekniska Universitet (LTU), da Suécia, e membro da equipe científica do Curiosity. “As condições próximas da superfície de Marte atualmente são pouco favoráveis para vida microbiológica como conhecemos, mas a possibilidade de água salgada na superfície possui implicações mais amplas para habitabilidade e processos geológicos relacionados à água.”

Os dados meteorológicos no relatório publicado ontem (13/04/2015) na Nature Geosciences vêm Rover Environmental Monitoring Station (REMS), do Curiosity, fornecido pela Espanha e que possui sensores de umidade relativa e de temperatura do solo, além de colher informações sobre pressão e temperatura atmosféricas, ventos e radiação ultravioleta. Mars Science Laboratory Project, da NASA, está usando o Curiosity para investigar as condições ambientais do passado e do presente na região da cratera Gale. O relatório também menciona medidas de hidrogênio no solo pelo instrumento russo Dynamic Albedo of Neutrons (DAN).

“Não detectamos água salgada, mas os cálculos da possibilidade de que pode existir na Cratera Gale durante algumas noites testemunham a favor do valor das medidas ao longo dos dias e do ano que o REMS está fornecendo”, disse o cientista do projeto Curiosity Ashwin Vasavada, do Jet Propulsion Laboratory (JPL), Pasadena, California, um dos co-autores do estudo.

Uma das longarinas do REMS se estende à esquerda do mastro (Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS)

Esta é a primeira missão a medir a umidade relativa da atmosfera marciana perto da superfície e a temperatura do solo durante todo dia e todas as estações do ano marciano. A umidade relativa depende da temperatura do ar, assim como da quantidade de vapor d’água nele. As medidas da sonda de umidade relativa variam de cerca de 5% nas tardes de verão as 100% nas noites de outono inverno.

RSL  O ar preenchendo poros no solo interage com um ar logo acima dele. Quando sua umidade relativa ultrapassa o nível limite, sais podem absorver moléculas de água o bastante para tornar esse dissolvidos no líquido, um processo chamado deliquenssência. Sais de perclorato são muito bons nisso. Uma vez que eu perclorato foi identificado tanto em regiões próximas aos polos quanto próximas ao Equador, ele pode estar presente por todo planeta.

Pesquisadores utilizando a câmera High Resolution Imaging Science Experiment (HiRISE) na sonda orbital Mars Reconnaissance Orbiter, também da NASA, documentaram nos últimos anos vários lugares em Marte onde fluxos escuros aparece esse estendem por encostas durante estações quentes que são chamados de “linhas de encostas recorrentes” (“recorring slope lineae“, RSL). Uma das melhores hipóteses para como eles ocorrem envolve a formação de água salgada por deliquenssência.

“A Cratera Gale é um dos lugares menos prováveis em Marte a ter condições para formação de salmoura, comparado os lugares em atitudes maiores ou com mais sombra. Então se água salgada pode existir lá, isso dá força a ideia de que poderia se formar e persistirá ainda mais em muitos outros lugares, talvez o bastante para explicar a atividade RSL”, disse o principal investigador da HiRISE  Alfred McEwen, da University of Arizona, Tucson, também co-autor do relatório.

Nos 12 meses seguintes ao pouso, em agosto de 2012, a sonda Curiosity encontrou evidências de leitos de corrente e um leito de lago de mais de 3 bilhões de anos que ofereciam condições favoráveis para vida microbiana. Agora, o robô está examinando uma montanha em camadas dentro da Cratera Gale em busca de evidências sobre como as condições ambientais antigas evoluíram. O JPL, uma divisão do California Institue of Technology, em Pasadena, gerencia o Mars Science Laboratory e a Mars Roconaissance Orbiter para o Science Mission Directorate, da NASA, em Washington.

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