Observações revelaram detalhes da superfície de planeta-anão; veja fotos. Autoridades ressaltaram pioneirismo do país.

Após nove anos e meio e quase 5 bilhões de quilômetros de viagem pelo Sistema Solar, a sonda New Horizons fez sua maior aproximação de Plutão nesta terça-feira (14/07/2015), 12,4 mil quilômetros, tornando-se a primeira missão a explorar um mundo tão distante da Terra.

“Após quase 15 anos de planejamento, construção e voo da New Horizons pelo sistema solar, alcançamos nossa meta”, disse o gerente de projeto Glen Fountain, no Jet Propulsion Labortory (JPL).

O encontro durou um minuto menos que o previsto quando a nave foi lançada, em janeiro de 2006. A espaçonave acertou um alvo de 60 x 90 km no espaço – o mesmo que um avião de linha acertar a posição com folga do tamanho de uma bola de tênis.

Como trata-se da espaçonave mais rápida já lançada, passando por Plutão a 49,6 mil km/h – uma colisão com uma partícula do tamanho de um grão de arroz poderia incapacitá-la.

Programada para passar o dia colhendo o máximo possível de dados. Para isso, o contato com a Terra foi sacrificado por 21 horas. Após esse período, a New Horizons ligou de volta pouco antes das 22h de Brasília, enviando uma série de mensagens de status ao centro de operações no Applied Physics Laboratory (APL), em Laurel, Maryland, da Johns Hopkins University, através da Deep Space Network, uma rede de antenas da NASA espalhadas pelo mundo usadas para comunicação com espaçonaves.

São tantos dados que serão necessários 16 meses para transmitir tudo para a Terra.

De montanhas a luas  O investigador principal da missão Alan Stern, do Southwest Research Institute (SwRI), em Boulder, Colorado, diz que a missão está escrevendo o livro-texto de Plutão. Segundo ele, “a equipe da New Horizons está feliz por ter completado a primeira exploração do sistema Plutão”. “Esta missão inspirou pessoas pelo mundo com excitação por exploração e o que a humanidade pode realizar.”

O sobrevoo da sonda pelo planeta-anão e suas cinco luas conhecidas está fornecendo uma introdução detalhada ao Cinturão de Kuiper, uma região externa do Sistema Solar populada por corpos com tamanhos dos de seixos aos de planetas-anões. Esses astros preservam evidências da formação do Sistema.

Para John Grunsfeld, administrador associado do Science Mission Directorate da NASA, em Washington, esta é uma “verdadeira missão de exploração que nos mostra por quê a pesquisa científica básica é tão importante”. “A missão teve nove anos para criar expectativas sobre oque veríamos durante a maior aproximação de Plutão e Caronte. Hoje temos uma primeira amostra do tesouro científico coletado furante estes momentos críticos e posso dizer a vocês que ultrapassa dramaticamente estas grandes expectativas.”

Home run!” brincou Stern. “A New Horizons já está retornando resultados incríveis. Os dados paracerem absolutamente deslumbrantes. e Plutão e Caronte são srpreendentes.”

Imagem de Plutão feita pela New Horizons em 13/07/2015 a 768 mil km (Foto: NASA/APL/SwRI)

A primeira característica a chamar a atenção apareceu numa imagem feita cerca de 16 horas antes da maior aproximação: um “coração” no Equador do astro estimado em 1,6 mil km. A região foi batizada em homenagem ao descobridor de Plutão – Clyde Tombaugh, designado a procurar pelo “Planeta X”, teorizado a existir além da órbita de Netuno. Em 1930, Tombaugh pode observar apenas um fraco ponto de luz.

A imagem também mostra que algumas regiões possuem várias crateras de impacto e são, portanto, relativamente antigas, talvez tenham bilhões de anos. Outras regiões, como o interior do coração, não mostram crateras tão evidentes e, assim, são provavelmente mais jovens, indicando que plutão possui uma história geológica longa e complexa. Algumas crateras parecem parcialmente destruídas, talvez por erosão. Também há sinais de que partes da crosta plutoniana foram fraturadas, como indicações pela série de características lineares à esquerda do coração.

Uma imagem posterior fechada em uma região equatorial na base da região em forma de coração do planeta-anão mostra uma cordilheira com picos de 3,5 ml km. Provavelmente as montanhas formaram-se no máximo a 100 milhões de anos – recentes se comparadas as 4,56 bilhões de anos do Sistema Solar. Isso sugere que a região da imagem, que cobre cerca de 1% da superfície do astro, pode ainda ser ativa geologicamente ativa.

“Esta é uma das superfícies mais jovens que já vimos no sistema solar”, disse Jeff Moore, da equipe Geology, Geophysics and Imaging (GGI) da missão, no Ames Research Center, da NASA, em Moffett Field, California.

Montanhas em Plutão com até 3,5 km vistas pela New Horizons são geologicamente recentes (Foto: NASA/APL/SwRI)

Ao contrário das lias geladas de planetas gigantes, Plutão não pode ser aquecido pelas interações gravitacionais com um corpo planetário muito maior. Algum outro processo deve estar por trás do surgimento das montanhas.

“Isso pode nos fazer repensar o que dá força a atividades geológicas em muitos outros mundos gelados”, diz o segundo no comando da equipe GGI John Spencer, no SwRI.

“A nova visão de Caronte revela um terreno variado e jovem. Cientistas estão surpresos pela aparente falta de crateras. Uma fileira de despenhadeiros e depressões esticando-se por mil quilômetros sugere uma fratura difundida da crosta da lua, provavelmente o resultado de processos geológicos internos. A imagem também ostra um canyon com profundidade estimada de 7 a 9 quilômetros. Na região do polo norte, as marcas escuras na superfície apresentam fronteiras difusas, sugerindo uma fina camada de depósitos ou maculação na superfície.

A sonda também observou os membros menores do sistema Plutão: Nix, Hidra, Estige e Cérbero. Uma espiada em Hidra revelou forma e tamanho irregulares: 43 x 33 km. As observações também indicam que a superfície de Hidra provavelmente é revestida de gelo de água.

Imagens futuras revelarão mais sobre a formação destes astros. Dados espectroscópicos obtidos pelos instrumentos revelam abundância de gelo de metano, mas com notáveis diferenças entre as regiões das superfície congelada de Plutão.

Caronte fotografada pela New Horizons em 13/07/2015 a 466 mil km (Foto: NASA/APL/SwRI)

Missão cumprida  “A exploração de Plutão e suas luas pela New Horizons representa o ponto crucial de 50 anos de exploração planetária pela NASA e os Estados Unidos”, disse o administrador geral da NASA Charles Bolden.”Mais uma vez conquistamos uma primeira [vez] histórica. Os Estados Unidos são a primeira nação a alcançar Plutão e com esta missão completou a pesquisa inicial de nosso sistema solar, um feito memorável que nenhuma outra nação pode comparar.”

“Sei que hoje inspiramos toda uma nova geração de exploradores com este grande sucesso”, disse Bolden. “Esta é uma vitória histórica para a ciência e a exploração. Nós realmente, mais uma vez, elevamos a barra do potencial humano.”

“Plutão foi descoberto há apenas 85 anos pelo filho de um fazendeiro do Kansas inspirado por um visionário de Boston e usando um telescópio em Flagstaff, Arizona”, disse John Grunsfeld. “Hoje, a ciência dá um grande salto observando o sistema Plutão de perto e voando em uma nova fronteira que irá nos ajudar a entender melhor as origens do sistema solar.”

“Seguindo nos passos de missões de exploração planetária como Mariner, Pioneer e Voyager, a New Horizons triunfou em Plutão, disse Alan Stern. “O sobrevoo da New Horizons completa a primeira era de reconhecimento planetário, uma empreitada de meio século que será para sempre um legado de nosso tempo.”

“Estou feliz com este feito mais recente da NASA, mais uma primeira [vez] que demonstra que os Estados Unidos lideram o mundo no espaço”, disse John Holdren, assistente presidencial para ciência e tecnologia e diretor do White House Office for Science and Technology Policy. “A New Horizons é a mais recente de uma longa linha de feitos científicos na NASA, incluindo múltiplas missões orbitando e explorando a superfície de Marte antecipando visitas humanas ainda por vir; a memorável missão Kepler para identificar planetas semelhantes à Terra ao redor de estrelas além da nossa; e o satélite DSCOVR que em breve estará enviando de volta imagens da Terra toda quase em tempo real de um ponto de vantagem a um milhão de milhas. Com a New Horizons completando seu sobrevoo de Plutão e continuando mais fundo no Cinturão do Kuiper, a jornada multifacetada de descobertas da NASA continua.”

Podemos adicionar à lista robôs explorando a superfície de Marte, a sonda Cassini, que revolucionou nossa visão de Saturno e o telescópio Hubble, há mais de 25 anos no espaço. Nos planos para o futuro, está o envio de astronautas para Marte na década de 30.

Primeira imagem de Hidra feita pela New Horizons, a cerca de 640 mil km (Foto: NASA/APL/SwRI)

“Em nome de todos no Applied Physics Laboratory da Johns Hopkins University, quero parabenizar a equipe da New Horizons pela dedicação , habilidade, criatividade e determinação demonstradas para alcançar este marco histórico”, disse o diretor do APL Ralph Semmel. “Estamos felizes em ser uma parte de uma equipe verdadeiramente incrível de cientistas engenheiros e especialistas em operações de missão de toda a nossa nação que trabalharam incessantemente para garantir o sucesso desta missão.”

O APL projetou, construiu e opera a nave New Horizons e gerencia a missão para o Science Mission Directorate da NASA. O SwRI lidera a missão, a equipe científica, as operações de carga e o planejamento científico do encontro. A missão é parte do New Frontiers Program, da NASA, gerenciado pelo Marshall Space Flight Center, em Huntsville, Alabama.

Plutão é o primeiro astro do Cinturão de Kuiper visitado pela New Horizons. Ela continuará sua exploração da região e de seus milhares de habitantes.

Mais sobre o sistema Plutão e a Missão New Horizons: Para redescobrir Plutão

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