No Pacífico, primeiro contato com civilização fez figuras ocidentais serem adoradas como deuses; tribos ainda aguardam o retorno de militares com rádios, remédios, comida enlatada, dinheiro e Coca-Cola. Quais são os mecanismos envolvidos no processo e o que podemos aprender com tais seitas?

O último post desta categoria foi publicado HÁ MUITO TEMPO numa galáxia muito distante. Eu gosto muito de escrever aqui, por vezes sobre temas não tão ligados à astronomia. (Se você já viu outros destes textos, sabe que às vezes fujo um pouco para esses temas que também acho interessantes. Se ainda não, te convido a olhar o arquivo.) Infelizmente não tenho tido tempo suficiente para que os vários rascunhos cheguem à publicação. Este permaneceu como rascunho por bastante tempo.

Sem delongas, vamos para as ilhas da Melanésia, ao nordeste da Austrália, onde ocorre desde o Século XIX o culto à carga. Este fenômeno aconteceu a partir do contato de nativos com a civilização. Um exemplo deste culto são as pistas de pouso construídas pelos nativos na crença de que aparecerão aviões trazendo bens materiais ocidentais – carga. Calma, existe um significado profundo nisso, muito além da afeição pelas comodidades capitalistas.

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Os cultos são marcados por algumas semelhanças:

  • Um “sonho mítico”: uma “visão” ou “revelação” sobre o futuro, neste caso uma síntese de elementos indígenas e estrangeiros;
  • A expectativa de ajuda dos ancestrais;
  • Líderes carismáticos;
  • Crença na aparição de uma abundância de bens.

Ao longo da conversa, poderemos examinar esses pontos.

Na Melanésia, as sociedades indígenas tipicamente eram caracterizadas por um sistema político no qual os indivíduos ganhavam prestígio pela troca de presentes. Quanto mais riqueza um homem distribuísse, mais pessoas em débito com ele e maior seu nome. Aqueles que não eram capazes de reciprocidade, claro, não tinham renome e eram chamados de “homens de lixo”. Quando o colonialismo trouxe estrangeiros com bens de troca aparentemente sem fim, eles foram dominados nos termos de seu próprio sistema: sentiram-se todos “homens de lixo”.

Obviamente, a origem de tudo aquilo era desconhecido para eles e membros, líderes e profetas dos cultos mantém a posição de que os bens industrializados foram criados por meios espirituais – através de suas divindades e ancestrais, por exemplo. Estes itens eram para os nativos, mas os estrangeiros os obtiveram de maneira injusta por malícia ou engano. Assim, existe a crença de que agentes sobrenaturais darão muita carga valiosa e produtos manufaturados aos membros do culto.

Símbolos ligados ao Cristianismo e à sociedade ocidental moderna tendem a ser incorporados nestes rituais – como lápides em forma de cruz. Outros exemplos marcantes destes cultos são a construção de pistas de pouso, aeroportos, aviões, escritórios e salas de jantar e fetichização e tentativa de confecção de bens ocidentais, como rádios feitos com cocos e palha. Crentes encenam exercícios e marchas com toras representando rifles e pintam símbolos ao estilo de insígnias militares e nacionais em seus corpos e tentam parecer com soldados. As atividades de militares ocidentais são imitadas nos rituais religiosos para atrair a carga.

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Avião confeccionado em palha para atrair “espíritos trazendo produtos feitos por meios sobrenaturais”

Colonialismo e guerra  O primeiro culto à carga de que se tem conhecimento foi o Movimento Tuka, que começou em Fiji em 1885 no auge da era colonial de plantação britânica. Tuka era um líder que testemunhou a perda do poder dos ancestrais em sua sociedade, uma perda de terra e de tudo o que era importante para seu povo. O movimento começou com a o retorno prometido a uma era dourada de poder dos ancestrais. Pequenas alterações às práticas sacerdotais foram feitas para atualizá-las e tentar retomar tal poder. As autoridades coloniais viram Tuka como um rebelde e o exilaram, mas ele continuou retornando.

Vários cultos aconteceram pela ilha de Nova Guiné, como o Culto Taro, no norte da Papua Nova Guiné e a Loucura Vailala, que afloraram de 1919 a 1922. O último foi documentado por Francis Edgar Williams (1893-1943), um dos primeiros antropólogos a conduzir trabalho de campo em Papua Nova Guiné. Cultos menos dramáticos também apareceram no oeste de Nova Guiné, como aconteceu com as regiões de Asmat e Dani.

Na década de 1870, o antropólogo pioneiro russo Nikolas Miklouho-Maclay ficou um período em Papua Nova Guiné, compartilhando com os indígenas tecidos e ferramentas de aço. Cem anos depois, um grupo na ilha de Nova Hanover acreditava que se conseguissem instaurar o presidente estadunidense Lyndon Johnson como seu rei, os presentes viriam junto. E acreditavam mesmo: rebelaram-se contra as autoridades australianas, formaram seu próprio governo, fizeram uma vaquinha e propuseram comprar Lyndon Johnson dos Estados Unidos por mil dólares.

(Vários cultos merecem menção mas não vamos nos alongar neles porque sei que pode desanimar só de olhar a barra de rolagem e perceber que o texto é longo. Mais adiante, abordaremos casos mais estudados. Mas se for do seu interesse, ficam aí as dicas para pesquisa…)

A mistura do Cristianismo com superstições nativas causou situações interessantes. Durante a guerra alguns grupos australianos se preocuparam com o que viram como uma inclusão sacrílega dos princípios dos cultos com Jesus em Papua Nova Guiné. Yali, autoridade guinense instruída que estava em bons termos com os missionários, foi empregado pelos australianos para viajar e tentar dissipar a mitologia dos cultos. Sua recompensa foi uma viajem ao continente, onde três coisas o perturbaram e o fizeram repensar o trabalho, que durou anos.

A primeira foi a óbvia riqueza dos australianos em comparação à Nova Guiné. A segunda foi uma coleção de artefatos sagrados guinenses em exibição no Queensland Museum, que ele suspeitou ter sido roubada pelos Australianos, resultando em sua acumulação de bens materiais. A terceira, talvez a principal, foi a teoria da evolução – Yali concluiu que os missionários australianos, que os ensinaram a história de Adão e Eva, estavam mentindo. Para Yali, ele estava certo em querer a separação do Cristianismo e os cultos, mas estava do lado errado…

Monkey see, monkey do  A época de cultos à carga mais conhecida foi a II Guerra Mundial. Uma pequena população de povos indígenas observou, por vezes bem diante de suas moradias, a maior guerra da história das nações desenvolvidas tecnologicamente. Os japoneses chegaram primeiro, trazendo grande quantidade de suprimentos. Mais tarde, viriam os Aliados.

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Nativo com roupa característica, imitando uniforme, com insígnias, medalhas e sutache; segundo a crença figura lendária retornará trazendo produtos “maravilhosos” (Foto via Ceticismo Aberto)

A enorme quantidade de suprimento e equipamento militar que ambos os lados lançaram de paraquedas ou que transportaram pelo ar usando pistas nessas ilhas trouxeram mudanças drásticas ao estilo de vida dos nativos – muitos dos quais nunca haviam visto estrangeiros antes. Roupa fabricada, remédios, comida enlatada, barracas, armamento  e outros produtos chegaram em quantidades cavalares para os militares que frequentemente compartilhavam parte dos bens com os nativos que eram seus guias e anfitriões.

Com o fim da guerra, os militares deixaram as bases e não trouxeram mais carga. Em consequência, indivíduos carismáticos desenvolveram cultos entre as populações remotas que prometiam conceder a seus seguidores entregas de alimentos, armas, veículos, etc. Os líderes explicaram que as cargas seriam presentes de seus próprios ancestrais ou de outras fontes, como aconteceram com os exércitos estrangeiros. Para tentar fazer carga cair de paraquedas ou chegar em aviões ou navios, os nativos imitaram o que viam os militares fazendo.

[foto: marcha a frum]

O comportamento do culto geralmente envolvia imitações de atividades cotidianas e vestimenta, como exercícios de desfiles com rifles preservados ou confeccionados em madeira. Os nativos também fizeram fones de madeira e os usavam ao ficarem em torres de controle fabricadas. Agitavam sinalizadores nas pistas de pouso e faziam sinais de incêndio e tochas para iluminá-las. Para mim, a cena mais marcante que vi em um documentário antigo muitos anos atrás que incluo abaixo foi uma réplica de avião em tamanho real feito de palha.

Os membros do culto acharam que os estrangeiros tinham alguma relação especial com suas divindades e seus ancestrais – as únicas entidades poderosas o suficiente para produzir tais riquezas.

Tipicamente, esses cultos foram marcados por líderes individuais. Não está totalmente claro se eles foram sinceros ou estavam enganando os mais ingênuos. É difícil conseguir informações confiáveis sobre essas práticas pois, usualmente, eles realizavam rituais longe de cidades e autoridades coloniais.

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Frum seja louvado  Vale destacar o culto a Tom Navy, um personagem histórico associado à paz e à servidão, provavelmente Tom Beatty, de Mississippi. Ele serviu em Novas Hébridas (atual Vanuatu) como missionário e na Marinha em um batalhão de construção durante a guerra. Por vezes, ele é confundido com o culto a John Frum.

O culto a Frum, talvez o mais famoso e duradouro, acontece na Baía de Enxofre, aos pés do Monte Yasur, um vulcão ativo na ilha de Tanna, em Vanuatu, e começou antes da guerra e tornou-se um culto à carga depois. Os membros adoravam a um estadunidense que teria trazido carga à ilha durante a guerra e seria a entidade espiritual que traria mais no futuro. A religião ascendeu no fim dos anos 1930. (Há uma afirmação de 1949 de que ela começara na década de 1910.)

Os fatores que contribuíram para a origem da seita surgiram no Século XVIII, quando Novas Hébridas eram um condomínio: uma colônia administrada em conjunto por ingleses e franceses. Entre os primeiros colonos, estavam os missionários presbiterianos escoceses, que tinham uma perspectiva pessimista do estilo de vida desinibido dos nativos. Por volta de 1900, não havia governo colonial relevante e os missionários impuseram seu próprio sistema penal sobre os nativos, a Lei de Tanna. Muitas práticas tradicionais foram proibidas, como danças ritualísticas, poligamia, juramentos e adultério. Também impuseram a guarda do sábado. Talvez, a proibição mais inflamável tenha sido a de consumir kava, uma planta local que pode induzir alucinações. Quem violasse as regras era condenado a trabalho pesado.

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Aldeões da ilha de Tanna, em Vanuatu, próximos a uma “torre de controle” (Foto via Daily Mail)

Em meio a tanta opressão, surgiu um salvador: nos anos 1930, um nativo chamado Manehivi, usando a alcunha de John Frum, começou a aparecer entre as pessoas vestindo um casaco de estilo ocidental e assegurando que ele traria moradias, roupas, alimentos e transporte. Também é dito que Frum era uma visão espiritual induzida pela kava. Em versões posteriores, ele era um militar estadunidense.

O movimento sofreu influências de práticas religiosas pré-existentes, como o culto a Keraperamun, um deus associado ao Monte Tukosmera. Supostamente uma manifestação deste deus, Frum prometeu a aurora de uma nova era, na qual todas as pessoas brancas, incluindo missionários, deixariam as Novas Hébridas, deixando para trás seus bens e propriedades para os nativos. Para que isso acontecesse, no entanto, o povo de Tanna precisaria rejeitar todos os aspectos da sociedade europeia, como dinheiro, educação ocidental e o Cristianismo, e o trabalho em plantações de copra. Também teriam de retornar aos costumes tradicionais.

Em 1941, crentes se livraram de seu dinheiro em um frenesi de gastos, deixaram igrejas missionárias, escolas, vilarejos e plantações e se mudaram para participar de danças, rituais e festas tradicionais. As autoridades coloniais buscaram suprimir o movimento, chegando a prender um homem que chamava a si mesmo de John Frum, humilhamdo-o publicamente, aprisionando-o e exilando-o com outros líderes do culto em outra ilha do arquipélago. Mais um ingrediente adicionado à mistura: martírio.

Então, algo extraordinário aconteceu: a guerra chegou ao Pacífico. Nos anos seguintes, 300 mil militares estadunidenses estiveram nas Novas Hébridas, promovendo o contato dos nativos com dinheiro, remédios, comida industrializada, Coca-Cola… Vários nativos foram recrutados para trabalhar e foram pagos de forma (relativamente) justa. A vida era boa com liberdade para suas tradições e bens materiais ocidentais. A promessa de John Frum estava sendo cumprida na forma de um grande milagre na frente de todo o povo.

O culto chegou ao ponto de ter outras pessoas se dizendo John Frum e também algumas que se diziam filhos dele.

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Líder do culto a John Frum veste uniforme militar em celebração (Foto via Odd Culture)

Com o fim da guerra, os ocidentais foram embora e os seguidores os chamam até hoje construindo docas de bambu para que os navios aportem, enviados por Rusefel, o rei amigável da América (claramente uma alusão ao ex-presidente Franklin D. Roosevelt).

É claro que o movimento vai além destas superstições e esta não parece ser uma descrição justa. Sob opressão genuína, uma figura se aproxima da comunidade prometendo liberdade e distribuindo espadas. O resultado não é tão difícil de imaginar.

A profecia de John Frum foi cumprida por uma coincidência, mas é mais do que outras religiões podem sustentar… Assim, até hoje, ele olham para o mar e o céu esperando um retorno messiânico. Nas palavras de um chefe moderno, “John estava vestido todo de branco, como homens da Marinha Americana, e foi aí que soubemos que John era um americano. John disse que quando a guerra acabasse, ele viria até nós em Tanna com navios e aviões trazendo muita carga, como os americanos tinham na vila”.

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Homens do Exército de Tanna marcham em desfile vestindo calças jeans e carregando peças de madeira para imitar fuzis; itens seriam característicos de espíritos que passaram pelo vilarejo trazendo bens confeccionados por meios sobrenaturais (Foto via Daily Mail)

Em 1957, Nakomaha, um líder do movimento, criou o “Exército de Tanna”, uma sociedade ritualística não violenta a cargo de desfiles ao estilo militar de homens cujos rostos eram pintados e vestiam camisas com a inscrição “T-A USA” (Tanna Army USA, Exército de Tanna EUA). O desfile acontece todo dia 15 de fevereiro – data em que acreditam que Frum retornará e tida como Dia de John Frum em Vanuatu. Neste dia, vestindo réplicas de uniformes da II Guerra, seguidores marcham em uma praça com uma cruz vermelha e uma bandeira estadunidense.

Na década de 1970, os seguidores de John Frum foram contra a criação de uma nação independente e unida de Vanuatu. Para eles, um governo centralizado favoreceria a modernidade ocidental e o Cristianismo, que divergiriam de suas tradições. Mas a política vai além: o movimento possui seu próprio partido político, criado em 15 de fevereiro de 1957.

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Em cerimônias religiosas, seguidores de Frum marcham com causas jeans e “USA” pintado no peito (Foto via Odd Culture)

Em 2006, um repórter da Smithsonian Magazine esteve em Vanuatu e conversou com um líder, o Chefe Isaac Wan Nikiau, que explicou que “se continuarmos orando a John, ele voltará com muita carga”.

“John Frum voltou para nos ajudar a ter de volta nossos costumes tradicionais, nossa bebida de kava, nossa dança, porque os missionários e o governo colonial estavam destruindo nossa cultura”, ele disse. “John é um espírito. Ele sabe tudo. Ele é até mais poderoso que Jesus.”

Nas palavras de um ancião, “John prometeu que trará aviões e navios de carga da América se orarmos a ele. Rádios, TVs, caminhões, barcos, relógios, caixas de gelo, remédios, Coca-Cola e muitas outras coisas maravilhosas”.

Quando perguntado sobre o motivo de ainda acreditarem no retorno de Frum, mesmo após seis décadas de espera, o chefe respondeu: “Vocês cristãos têm estado à espera de 2.000 anos para que Jesus volte à terra, e vocês não perderam a esperança”.

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Seguidores do John Frum hasteiam bandeira dos EUA (Foto via Daily Mail)

Os cultos a John Frum são bastante amigáveis e abertos a visitantes. “Turistas vão a Tanna para ver o vulcão, mas quando estão na ilha, podem ir ao vilarejo de John Frum toda sexta-feira e ver o culto e as danças”, segundo o Escritório de Turismo de Vanuatu.

E quem foi John Frum? Historiadores têm apenas vagas ideias. Talvez houvesse alguém na ilha com o sobrenome alemão Frumm ou Fromme. Também se fala que o nome é uma contração de “John from America” (“John da América”). Mas se for assim, pode ser John de qualquer lugar. Isso também indica que o nome pode vir da forma como os militares se apresentavam: “I’m John, from New York”, “I’m John, from San Francisco”, etc.

Seja quem ele tenha sido – se é que existiu mesmo -, o culto chegou a ter 6 mil seguidores.

O príncipe  No sul da ilha de Tanna, no vilarejo de Yaohnanen existe outra seita. Esta cultua o Príncipe Felipe, Duque de Edimburgo, cônjuge de Sua Rainha Elizabete II. Segundo as antigas lendas, o filho de um espírito da montanha viajou pelos mares a uma terra distante. Lá casou-se com uma mulher muito poderosa. Como sempre, o retorno é aguardado pelos seguidores. Às vezes, dizem que ele é irmão de John Frum.

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Chefe Jack Naiva e aldeões posam com fotos enviadas pelo Príncipe Felipe; “Ele é um homem idoso na Inglaterra, mas em Tanna ele nunca morrerá”, Chefe Siko Nathuan (Foto via Express)

As pessoas de Yaohnanen viram o respeito das autoridades coloniais pela rainha e concluíram que o marido dela era o filho do espírito da montanha. Não está claro quando esta crença surgiu, mas provavelmente em algum momento nos anos 1950 e 60.

Ficou mais forte após a visita do casal real a Vanuatu em 1974 – quando alguns aldeões puderam ver o príncipe de longe. Na ocasião, ele não tinha conhecimento do culto, mas foi informado na década seguinte por John Champion, Comissário Britânico Residente nas Novas Hébridas.

Seguindo a sugestão de Champion, o príncipe enviou um retrato assinado de si mesmo. Os aldeões responderam enviando um nal-nal, um porrete usado para matar porcos. Então o príncipe enviou outra fotografia, posando com o presente. Uma terceira foto foi enviada em 2000 e as três foram guardadas pelo Chefe Jack Naiva, falecido em 2009.

A Princesa Anne, única filha de Elizabete II e Felipe, visitou Tanna em outubro de 2014. Ela esteve em Vanuatu em 1974, mas não chegou a visitar a ilha na ocasião. Membros do culto também viajaram à Inglaterra.

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Nativos de Yaohnanen exibem fotografias de visita à Inglaterra em 2007 (Foto: Christopher Hougue Thompson)

 

Reflexões  A expressão “culto à carga” (cargo cult) foi usada pela primeira vez de forma impressa em 1945 por Norris Mervyn Bird, repetindo um termo pejorativo usado na descrição feita por empresários e fazendeiros do protetorado australiano de Papua. A expressão foi adotada por antropólogos…

Como vimos, tais cultos desenvolvem-se numa combinação de crises. Sob stress social, estes movimentos podem se formar sob a liderança de uma figura carismática, que por vezes têm uma “visão do futuro”, uma “revelação” que pode levar à recuperação da sociedade. O contato com grupos colonizadores transformou a forma como povos indígenas da Melanésia pensam sobre outras sociedades.

As primeiras teorias para explicar os cultos presumiam que os praticantes não foram capazes de compreender tecnologia, colonização, e noções sociais e econômicas. Porém, muitos dos praticantes focam-se na importância de manter e criar novas relações sociais, ficando materiais em segundo plano.

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Já no final do Século XX, teorias alternativas ganharam espaço. Alguns estudiosos dão ênfase à caracterização europeia dos movimentos como uma fascinação com produtos industrializados e o que tal foco diz a respeito do fetichismo com as comodidades ocidentais. Outros apontam que cada movimento é um reflexo de um contexto histórico particular e evitam a expressão “culto à carga” a não ser que exista uma tentativa de suscitar uma relação de troca.

Certamente, há uma série de reflexões que pode ser levantada quando estudamos os momentos de nascimento de religiões – tendo em mente que nenhuma começou grande. Particularmente, decidi trabalhar neste rascunho pela leitura de O Livro das Religiões, de Jostein Gaarder, Victor Hellern e Henry Notaker, publicado no Brasil pela Companhia de Bolso. A motivação inicial – além da curiosidade pessoal – é a noção que a formação de tais cultos trazem para a ufoarqueologia (outro rascunho…), já que acabei escrevendo sobre ufologia vez ou outra aqui. (Tornou-se um conceito bem popular nos últimos anos, principalmente pela série Ancient Aliens, do History Channel: a possibilidade de que civilizações primitivas tiveram contato com seres extraterrestres muito mais avançados tecnologicamente e os interpretaram como divindades e afins.)

Quais circunstâncias limitam este tipo de fenômeno? E quais são necessárias para que os cultos ganhem força? Até onde ele pode chegar com o passar do tempo? (E até onde podemos tentar responder estas perguntas de cabeça aberta mas sem deixar o cérebro cair?)

E quanto às comunidades que praticam os cultos à carga? Vimos que os ilhéus vivem em uma atmosfera espiritual e “todo mundo acredita em feitiçaria e nos espíritos de seus ancestrais”, palavras de Ben Bohane, jornalista e fotógrafo que mora em Vanuatu e cobre o Pacífico há mais de 25 anos.

Para o escritor de ciência Brian Dunning, à primeira vista, os cultos podem parecer “ignorância da idade da pedra”, mas não são totalmente irracionais. Ele aponta que embora as seitas sejam “ingênuas e baseadas em confusão falaciosa”, os seguidores fazem o melhor para explicar o que veem. Este sistema de crença falha com as pessoas ao “substituir a necessidade de trabalhar duro para alcançar objetivos com a crença de que fé proverá”.

“Esta é a lição que melhor serviria a seus crentes e é a mesma lição à qual missionários e agentes sociais deveriam prestar mais atenção”, diz Dunning. “Ao invés de sorrir para a religiãozinha engraçada deles ou tentar substituí-la por outra, deveríamos dar a eles as ferramentas de que precisam para criar sua própria abundância de carga.”

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Valem o lembrete de sempre: você pode encontrar muito mais sobre o assunto exposto pela internet, mas fique atento à fonte!

Já faz tempo que gostaria de passar os textos na forma de vídeo. Infelizmente, não disponho dos recursos pra isso… (Mesmo depois de quase dez anos de (in)atividade do blog…)

Watch the skies!

“Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia.”

Terceira Lei de Clarke

Eduardo Oliveira,
editor

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