Dupla teoriza que planeta gigante seja responsável por perturbações em órbitas do Cinturão de Kuiper. Observação direta ainda não foi feita.

Este texto estava entre os vários rascunhos que tenho e nos quais trabalho quando tenho tempo. É baseado em material da NASA e passou por várias formatações, como é de costume.

Um planeta gigante vagando lentamente pelas regiões mais escuras e distantes do Sistema Solar, longe o bastante para não ter sido descoberto até os dias de hoje… A ideia do “Planeta X” já inspirou várias histórias de ficção científica, tabloides sensacionalistas e rumores mal intencionados de internet, até envolvendo o acobertamento da descoberta e a destruição de nosso mundo com a aproximação do planeta  gigante. Mas seria possível na vida real?

Para responder, precisamos entender como foram descobertos os planetas que conhecemos. (Não incluo exoplanetas aqui, até porque são assunto de outro rascunho.) Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno são visíveis a olho nu e já eram conhecidos pelos antigos. (Preciso mencionar a Terra?) Mas e os outros?

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Frederick William Herschel (Foto via Space.com)
Johann Gottfried Calle (Foto via Wikipedia)

Com árduo trabalho, em 1781, William Herschel (1738-1822) descobriu o primeiro planeta desconhecido na Antiguidade. Herschel tentou batizá-lo de Georgium Sidus (Planeta Georgeano) em homenagem ao Rei George, da Inglaterra, mas a comunidade científica escolheu Urano – o deus do céu na mitologia grega.

Urbain Le Verrier (1811-1877)e John Couch Adams (1819-1892) usaram matemática para prever a órbita de um planeta além de Urano e Johann Gottfried Galle (1812-1910) o descobriu observacionalmente em 1846. Galle tentou batizá-lo de Le Verrier, mas o nome escolhido pelos cientistas foi o do deus romano do mar – Netuno.

No início do Século XX, Percival Lowell (1855-1916) concluiu que as peculiaridades das órbitas destes dois planetas eram resultado da gravidade de outro ainda não descoberto. Ele organizou uma busca intensa com telescópios, mas terminou de mãos vazias.

1930, Observatório Lowell, em Flagstaff, Arizona: o jovem astrônomo Clyde Tombaugh (1906-1997) escaneava o céu na região da órbita do planeta misterioso previsto por Lowell usando fotografias tiradas por telescópio do campo de estrelas para ver se encontrava algo se movendo. Assim foi descoberto Plutão – batizado por sugestão de uma menina de dez anos com o nome do deus romano do submundo.

Hoje sabemos que a massa de Netuno fora estimada de forma incorreta – por isso as discrepâncias orbitais.

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Percival Lowell (Foto via Britannica.com)
Clyde Tombaugh (Foto via AP)

Em 2005, uma equipe liderada por Mike Brown (1965- )(nome muito citado quando se fala sobre este tipo de astro) descobriu um objeto cerca de três vezes mais distante do Sol que Plutão: Éris, deusa grega da discórdia. Era redondo, maior que Plutão e até tinha uma lua. Éris foi apenas um de vários objetos com propriedades físicas (como tamanho e forma – inclusive maiores que Plutão) e orbitais (período, excentricidade, dimensões, etc.) que não os permitiam ser classificados nem como asteroides, nem como planetas. Varuna, Quaoar, Makemake, Haumea, etc. (Personagens de diferentes mitologias.)

Alguns dos objetos trans-netunianos (OTNs, pois suas orbitas cruzam ou se aproximam da de Netuno) são membros do Cinturão de Kuiper – um gigantesco anel formados por incontáveis pequenos mundos após a órbita de Netuno. Outros, seguem órbitas enormes e muito alongadas que os levam para ainda mais longe.

Em 2006, após longo debate, a União Astronômica Internacional (UAI) decidiu criar uma classificação para estes astros: planetas-anões. Plutão entrou neste grupo.

Planeta X  Em 2014, Chad Trujillo (1973- ), descobridor de Éris e Makemake, e Scott Sheppard (1977- ) sugeriram que um pequeno planeta seria responsável pelas órbitas de pequenos astros do Cinturão – mas este planeta nunca foi realmente encontrado.

O que quero demonstrar é que não é novidade usar matemática para determinar a órbita de possíveis planetas e tentar encontrá-los a partir daí. E este método não ficou no passado.

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Em 2016, pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) anunciaram ter encontrado evidências de um planeta com uma órbita muito alongada que alcançaria distâncias muito maiores que a plutoniana. A pesquisa foi publicada no The Astronomical Journal. E não se trata de mais uma daquelas notícias falsas sobre a descoberta de Nibiru encoberta por conspiradores.

Do tamanho de Netuno ou Urano, ele teria 10 vezes a massa da Terra e orbitaria o Sol 20 vezes mais distante que Netuno (que orbita o Sol a cerca de 4,5 bilhões de quilômetros) – levando de 10 a 20 mil anos para completar uma órbita. (Netuno leva cerca de 165 anos).

Nibiru, planeta gigante de teorias de conspiração e astronautas antigos, passaria relativamente próximo da Terra, mas este teria seu periélio (ponto da órbita mais próximo do Sol) a cerca de 200 Unidades Astronômicas (a distância média do Sol à Terra – cerca de 150 milhões de quilômetros) da estrela.

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Ilustração criada com o Microsoft WorldWide Telescope para representar a órbita do Nono Planeta (Foto: Caltech/R. Hurt (IPAC))
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Concepção artística no Nono Planeta (Foto: Caltech/R. Hurt (IPAC))

Cadê???  Em janeiro de 2015, os astrônomos do Caltech Konstantin Batygin (1986- ) e Mike Brown (eu disse) anunciaram uma pesquisa que fornecia evidências de um planeta gigante com órbita alongada incomum no Sistema Solar Externo – lembrando – com base em modelos matemáticos e simulações por computador.

“Esta não é, porém, a detecção ou descoberta de um novo planeta. É muito cedo para para dizer com certeza que existe o chamado Planeta X. O que estamos vendo é uma previsão inicial baseada em modelos a partir de observações limitadas”, ressaltou o cientista planetário Jim Green (vou ficar devendo- ), diretor da Divisão de Ciência Planetária da NASA. “É o começo de um processo que poderia leva a um resultado animador.”

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Mike Brown e Konstantin Batygin (Foto: Lance Hayasida/Caltech)

Por ainda não ter ocorrido a detecção direta, há um caloroso debate na comunidade científica sobre a existência do “Nono Planeta”, como foi apelidado pela dupla. (Caso realmente seja descoberto, quem fizer a descoberta poderá batizá-lo oficialmente com aprovação da UAI.)

E os astrônomos já estão à procura. Qualquer objeto tão distante do Sol será muito escuro e difícil de detectar, mas eles acreditam que já seria possível fazê-lo com os telescópios atuais.

“Adoraria encontrá-lo”, disse Brown. “Mas também ficaria perfeitamente feliz se outra pessoa o encontrasse. […] Esperamos que outas pessoas sejam inspiradas e comecem a procurar.”

“A qualquer hora que temos uma ideia interessante como esta, sempre aplicamos as regras de Carl Sagan para pensamento crítico, que incluem confirmação independente dos fatos, busca por explicações alternativas e encorajamento de debate científico”, disse Green. “Se o Planeta X está lá fora, vamos encontrá-lo juntos. Ou vamos encontrar uma explicação alternativa para os dados que recebemos até aqui.”

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Cassini  Chegaram a circular notícias de que a órbita da sonda Cassini, da NASA, ao redor de Saturno teria sofrido perturbações inexplicadas e foi proposto que a gravidade do Nono Planeta seria responsável por isso. A verdade é que os navegadores da Cassini não observaram tais perturbações desde a chegada da nave a Saturno, em 2004.

“Adoraríamos se Cassini pudesse ajudar a detectar um novo planeta no Sistema Solar, mas não vemos nenhuma perturbação na nossa órbita que não possa ser explicada com nossos modelos atuais”, disse Earl Maize, gerente de projeto da Cassini no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL).

“Um planeta não descoberto além da órbita de Netuno e com 10 vezes a massa da Terra afetaria a órbita de Saturno, não da Cassini”, segundo o cientista planetário do JPL William Folnerm que desenvolve informação de órbitas planetárias usada na navegação de alta precisão de espaçonaves da NASA. “Isso poderia produzir uma assinatura nas medições da Cassini enquanto em órbita de Saturno se o planeta estivesse próximo o bastante do Sol. Mas não vemos nenhuma assinatura inexplicada acima do nível de ruído de medições nos dados da Cassini de 2004 a 2016.”

(As declarações foram publicadas pela NASA em seu site em abril de 2016.)

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A figura simples do Sistema Solar que vimos no livro de Ciências da escola é apenas um mapa rudimentar da região mais central de um reino vasto e inexplorado. E seus horizontes têm pequenos habitantes com muito a dizer sobre sua vida e o reino.

Além de Netuno, o Sistema Solar ainda é complexo e populado por incontáveis objetos. Graças à missão New Horizons, já vimos um deles de perto e sabemos que ele tem muito mais a contar do que esperávamos.

“Somos uma espécie avançada de macacos em um planeta pequeno de uma estrela mediana. Mas conseguimos entender o universo. E isso nos torna muito especiais.”

– Stephen Hawking, físico britânico (1942- )

Eduardo Oliveira
editor

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