Sinais de rádio detectados desde 1899 seriam de satélite artificial e até fotografias já teriam sido tiradas a partir de naves espaciais; mensagem decodificada indicaria origem e idade pré-histórica. Como chegamos a tais conclusões e até onde vai a verdade?

Neste ano, comecei a postar mais frequentemente, mas o início das aulas da minha graduação em Física bagunçaram reorganizaram meus horários. De qualquer forma, tentarei postar sempre que possível!

Se você já leu outros posts do BdA que não são sobre notícias, sabe que tenho vários rascunhos sobre diversos assuntos e vou trabalhando neles com o tempo. Este post não é um destes casos. Já pensava em escrever sobre o Cavaleiro Negro, mas nunca havia começado. Em uma noite de insônia após um período de pesquisa, o texto saiu, faltando apenas revisão e edição finais. Depois de publicar, fiz uma atualização acrescentando três parágrafos.

A lenda do Cavaleiro Negro circula por vários lugares da internet e há anos leio vez ou outra a respeito, mas, como de praxe, não é comum ver toda a informação em um lugar só e nem de forma que mereça crédito. Mesmo em palestras onde vi o assunto ser mencionado, era apresentado muito rapidamente e sem embasamento crível.

Já escrevi em outros posts, mas nunca é demais reforçar dois pontos. Primeiro: tento sempre abarcar o maior range de informações e filtrá-las – mas é claro que estou sujeito a enganos. Segundo: “o objetivo não é ser a referência, mas indicá-la”; não espero que você tenha este texto como sua fonte final de informação (apesar de meu esforço para “filtrar”, posso me enganar), mas gostaria que usasse-o como referência para uma pesquisa mais profunda sobre o tema. (E para isso, espero que a abordagem o torne interessante.) Até porque este post ficaria extenso demais.

Chega de lenga-lenga e vamos ao que interessa: o Cavaleiro Negro! O que é? De onde vem? Quem o construiu? Há quanto tempo está aqui? Qual seu propósito? De que se alimenta? Como funciona seu ritual de acasalamento? Nesta sexta, no Globo Repórter. Já vou avisando que é muito difícil chegar às respostas, mas isso não significa que não valha a pena tentar, pois podemos aprender muitas coisas interessantes pelo caminho.

Descoberta  De forma geral, atribui-se ao cientista, inventor e engenheiro austríaco Nikola Tesla (1856-1943) a descoberta do suposto satélite. Em seus experimentos com rádio em Colorado Springs, EUA, em 1899, ele captou sinais repetitivos com origem externa ao planeta. Ele chegou a dizer que viriam de Marte, mas depois disse que deveriam vir de outro lugar.

Vale mencionar que nesta época, ainda tinha-se como plausível a ideia de civilizações em Marte, Vênus e na Lua, por exemplo. Além disso, o próprio Tesla defendia que deveríamos usar rádio para tentar encontrar civilizações inteligentes em outros planetas e até nos comunicar com elas.

À esquerda, Nikola Tesla aos 34 anos de idade; à direita, Guglielmo Marconi (Fotos via Wikipedia)

Para a surpresa do engenheiro elétrico e inventor italiano Guglielmo Marconi (1874-1937), alguns dos sinais de código Morse que enviou retornaram a ele através de fonte que não foi capaz de determinar. (Vale a pena pesquisar sobre a treta Tesla/Marconi sobre o rádio…)

Durante os anos 20 e 30, radioamadores captaram sinais de algo que poderia estar em órbita. O caso mais interessante aconteceu em 1927, em Oslo, na Noruega: ao transmitir ondas curtas ao espaço, o engenheiro civil Jorgen Hals recebeu seus próprios sinais segundos após a transmissão.

Em uma carta ao físico norueguês Carl Stormer, ele escreveu: “No fim do verão de 1927, ouvi repetidamente sinais da estação holandesa de transmissão de ondas curtas PCJJ em Eindhoven. Ao mesmo tempo que os ouvi, também ouvi ecos. Ouvi o eco comum que circula a Terra com um intervalo de cerca de 1/7 de segundo assim como um eco mais fraco cerca de três segundos após o eco principal desaparecer. Quando o sinal principal estava especialmente forte, suponho que a amplitude para o último eco três segundos depois estava entre 1/10 e 1/20 da força do sinal principal. De onde o eco vem, nao consigo dizer no presente, posso apenas confirmar que realmente o ouvi.”

Várias vezes, transmissões de rádio eram enviadas de volta a seus emissores sem que fosse encontrada uma explicação.

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Manchetes de 14/05/1954: “Satélites artificiais estão circulando a Terra, diz escritor sobre ‘discos'” e “1 ou 2 satélites artificiais circulando a Terra, diz expert” (Foto via Alien Ufo Sightinsg)

Em 14 de maio de 1954, jornais publicaram a declaração do ex-aviador naval estadunidense Major Donald Keyhoe (1897-1988), diretor do National Investigations Committee on Aerial Phenomena (Comitê Nacional de Investigações sobre Fenômenos Aéreos, NICAP), de que a United States Air Force (Força Aérea dos EUA, USAF) havia encontrado um ou dois satélites orbitando a Terra. Poderiam ser satélites espiões soviéticos? (Lembrando que nosso primeiro satélite artificial, o vermelhinho Sputnik 1, só seria lançado em 4 de outubro de 1957.)

Em 23 de agosto, a revista Aviation Week & Space Technology publicou que o Pentagon (Pentágono, sede do Department of Defense – Departamento de Defesa, DoD) descobrira dois satélites em órbita, mas a informação não foi confirmada pelos militares.

Em 11 de fevereiro de 1960, quando Estados Unidos e União Soviética já possuíam satélites em órbita, jornais publicaram que radares da United States Navy (Marinha dos EUA, USN) projetados para descobrir satélites espiões haviam detectado algo que não era de nenhuma das potências: um objeto negro e “acrobático”.

Órbita  No dia seguinte, detalhes foram impressos. O objeto orbitava a cerca de 79° do equador em uma órbita bem excêntrica: apogeu (ponto mais distante da Terra) de 1.728 km e perigeu (ponto mais próximo) de 216 km. Cada órbita levava 104,5 minutos.

Na época, USN rastreava um objeto conhecido, um revestimento de um lançamento de Discoverer com menos de 6 metros. O Discoverer VIII fora lançado em 20 de novembro de 1959. O lançamento em si correu bem, mas a ejeção da cápsula de 136 kg nem tanto. Os revestimentos se separaram conforme o planejado, mas a cápsula desgarrou-se no espaço, entrando em uma órbita similar à do objeto e foi declarada perdida. A USN rastreou um dos revestimentos, que tinha uma órbita de 103 minutos a 80°, com apogeu de 950 km e perigeu de 187 km.

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Satélite Discover 1, lançado por um foguete Agena em 18/02/1959 (Foto: USAF)

Nos anos seguintes, o Cavaleiro Negro foi detectado por astrônomos em uma órbita polar, que passa sobre ambos os polos da Terra, mas ele ainda era intermitente, ou seja, aparecia e desaparecia, sem padrão definido, chegando a ficar desaparecido por anos. Nas palavras de Robert L. Johnson, então diretor do Adler Planetarium, em Chicago, “o objeto sequer tem a decência de manter uma agenda regular como qualquer outro corpo celeste ou feito pelo homem. Não sabemos quando vê-lo”.

1963, missão Mercury IX: o astronauta Gordon Cooper (1927-2004) relatou um objeto esverdeado em sua 15ª órbita e cerca de 100 pessoas na Muchea Tracking Station (Estação de Rastreamento de Muchea), da NASA, cerca de 60 km ao norte de Perth, Austrália testemunharam o alvo nas telas de radar.

Logo, especulava-se se o Cavaleiro negro não seria um emissário de uma civilização extraterrestre com a missão de nos observar ou mesmo se comunicar conosco. O satélite poderia permanecer adormecido até que nós inventássemos uma forma de enviar sinais a ele. (Uma interpretação semelhante é feita sobre o monólito de 2001 – Uma Odisseia no Espaço.)

Gordon Cooper com o traje da Mercury IX e lançamento do foguete Atlas com a cápsula Mercury Faith 7, em 15 de maio de 1963 (Fotos: NASA)

Mensagem  Em 1973, o astrônomo, escritor (inclusive de ficção científica) e jornalista escocês Duncan Lunan (1945- ) alegou descoberto o ponto de origem dos sinais: Lagrange L5. L4 e L5 são dois pontos na órbita da Lua, um 60° à frente e outro 60° atrás, nos quais os efeitos gravimétricos da Terra e da Lua manteriam um objeto no lugar. Além disso, Lunan alegou ter decifrado transmissões do objeto, inclusive as recebidas por Hals em 1927. O padrão dos sinais formava uma espécie de mapa estelar que lembra constelação de Boieiro. Ele concluiu que o desenho retrata a constelação como era há cerca de 13 mil anos. É isso mesmo. O Cavaleiro Negro estaria em órbita há milênios.

E tem mais: Lunan também foi capaz de decifrar uma mensagem.

START HERE. OUR HOME IS EPSILON BOOTIS. WHICH IS A DOUBLE STAR. WE LIVE ON THE 6TH PLANET OF 7 – CHECK THAT, 6TH OF 7 – COUNTING OUTWARDS FROM THE SUN WHICH IS THE LARGER OF THE TWO. OUR 6TH PLANET HAS ONE MOON, OUR 4TH PLANET HAS THREE, OUR FIRST AND THIRD PLANETS EACH HAVE ONE. OUR PROBE IS IN THE ORBIT OF YOUR MOON THIS UPDATES THE POSITION OF ARCTURUS SHOWN ON OUR MAPS.

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Duncan Lunan (Foto via Alchetron)

“Comece aqui. Nosso lar é Épsilon Bootis. Que é uma estrela dupla. Vivemos no 6º planeta de 7 – verifique isso, 6º de 7 – contando a partir do sol, que é a maior das duas [estrelas]. Nosso 6º planeta tem uma lua, nosso 4º planeta tem três, nossos primeiro e terceiro planetas tem uma cada. Nossa sonda está em órbita de sua lua isso atualiza a posição de Arcturus mostrada em nossos mapas.”

Caramba! Apontaram sua direção no céu. explicaram que Épsilon Bootes é uma estrela dupla e indicaram os planetas e suas respectivas luas, apontando de onde vem. Uma boa forma de puxar uma conversa interestelar! Mais evidente que isso só uma faixa sendo puxada pelo satélite!

Desde os anos 50, governos acusados de acobertamento insistem em negar a detecção do satélite alienígena. O que poderia servir como prova cabal? Uma fotografia!

Que tal várias? Sim, o sentinela extraterrestre que nos observa desde dias pré-históricos já foi fotografado em diferentes ocasiões. A foto mais famosa recebeu o código STS088-724-66 e foi tirada em 11 de dezembro de 1998 pela tripulação do Space Shuttle (Ônibus Espacial) Endeavour durante a missão STS-88 – a primeira da construção da International Space Station (Estação Espacial Internacional, ISS). A nave estava a 396 km de altitude sobre o Atlântico, próximo à África do Sul.

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Fotografia STS088-724-66; alega-se que a forma escura vista contra a atmosfera terrestre seja satélite Cavaleiro Negro (Foto: NASA)

Claramente, há uma forma escura contra a atmosfera terrestre… Evidência definitiva do Cavaleiro Negro! (Clique na imagem para ir direto para o arquivo online da NASA.)

Little Green Men  Agora que você já conhece os pontos mais contundentes sobre o Cavaleiro Negro, vamos aos aspectos que não se menciona com tanta frequência. Seguindo os ensinamentos de Elize Matsunaga, vamos por partes. Começando com o mais simples.

“Não acreditamos realmente que tínhamos captado sinais de outra civilização, mas obviamente a ideia passou por nossas mentes e não tínhamos prova de que tratava-se de uma emissão de rádio totalmente natural.” São notas da astrofísica Jocelyn Bell Burnell (1943- ) sobre si mesma e o rádio-astrônomo Antony Hewish (1924- ).

Em 28 de novembro de 1967, eles observaram independentemente pulsos de rádio separados por 1,33 s no mesmo tempo sideral oriundos do mesmo ponto no céu. Logo, eliminaram a maioria das fontes astrofísicas de radiação e, como os pulsos eram simultâneos, não poderiam ser algum tipo de interferência causada por atividade humana. Suas impressões transcritas acima foram escritas quando outro telescópio confirmou o sinal, descartando falha instrumental.

Dama Jocely Bell Burnell (Foto: ACGU/UCT)
Antony Hewish (Foto: LNLM)

Apelidaram a fonte de rádio de LGM-1. LGM: little green men, homenzinhos verdes. A hipótese dos homenzinhos só seria abandonada totalmente quando outra fonte pulsante de rádio foi descoberta em outra parte do céu.

E assim foram descobertos os pulsares – estrelas de nêutrons ou anãs brancas, muito pequenas e extremamente massivas, com campo magnético fortíssimo, em rotação, que emitem feixes de radiação eletromagnética. A radiação é captada quando o feixe passa apontando para a Terra, como um farol, rotacionando em períodos curtos e regulares.

É amplamente aceito que esta seja a fonte dos sinais captados por Tesla.

“What is a Pulsar?” (Vídeo: GSFC/NASA – Youtube)

O player não funciona?

Lembram-se dos ecos que Marconi ouviu? E que Hals captou em 1927? Pois bem, tratam se de ecos de longo atraso (long-delay echos, LDEs), configurados por um intervalo superior a 2,7 segundos. O que pode ter causado os LDEs que ouviram? Há 15 explicações plausíveis (sem contar um satélite alienígena em órbita há 13 mil anos) e a principal evoca efeitos na ionosfera, a camada superior da atmosfera, a partir de 60 km, capazes de refletir ondas de rádio.

(Flashback desnecessário: quando era um pequeno, meu avô, amante de geografia que teve apenas a escola básica, me mostrava estações de rádio da Europa em seu radinho de pilha e ficávamos entusiasmados com aquilo. Na adolescência, tive a oportunidade de explicar a ele porque isso só acontecia a noite.)

Donald Keyhoe (Foto via Podcast UFO)

É dito que a declaração de Keyhoe de 1954 (de que a USAF tinha conhecimento de dois satélites em órbita e mantinha segredo) não deveria ser levada a sério porque Keyhoe estava promovendo um livro sobre OVNIs na época. De fato, ele escreveu vários livros com a expressão flying saucer (disco voador) no título…

Quanto aos dois satélites mencionados pela Aviation Week & Space Technology, o Pentagon declarou serem astroides: um convite para a construção de uma teoria da conspiração.

Descobridores  Em março de 1960, a USN chegou a confirmar que o estranho objeto sendo acompanhado por radares era o revestimento do Discoverer, mas parece que explicações mundanas não dão audiência.

Em 1992, a Central Intelligence Agency (Agência de Inteligência Central, CIA) revelou o programa Corona, no qual os Discoverers eram na verdade satélites espiões. Eram lançados em órbitas polares pois elas permitem uma cobertura virtual de todo o planeta; órbitas semi equatoriais limitam a latitude de cobertura. Como ainda não havia como transmitir as imagens, usavam filmes fotográficos que seriam enviados de volta à Terra: após a abertura dos paraquedas, a câmera KH-1 seria recuperada em pleno ar por uma aeronave JC-130.

O Corona espiou a China e a União Soviética de 1958 a 72 com dezenas de satélites. Seria este o motivo da intermitência da detecção do Cavaleiro Negro?

Ok, o programa Discoverer era fachada. Mas, segundo os documentos liberados, os lançamentos e resultados relatados em jornais eram verdadeiros. A câmera a bordo do Discoverer VIII foi mesmo perdida e os revestimentos e órbitas excêntricas eram reais.

Ilustração da recuperação dos filmes fotográficos dos satélites Corona (Foto: NRO)

Alegações  1973, missão Mercury IX: os equipamentos de Cooper falharam e o astronauta inalou CO2 em excesso, o que o fez alucinar. E não há relatos do pessoal na Austrália a respeito do alvo no radar.

Cooper fez vários relatos de OVNIs ao longo da carreira e faleceu inflexível sobre um grupo de OVNIs que teria o sobrevoado quando estava baseado na Alemanha, mesmo que ninguém mais tivesse confirmado  relato. Sobre a Mercury IX, sua posição também era firme, porém contrária: nunca acontecera. Ele até chegou a oferecer as próprias transcrições originais, nas quais não há menção alguma ao OVNI. As transcrições oficiais da NASA também não incluem o avistamento.

A constelação de Boieiro (Foto via Bot Productions)

Uma pergunta pertinente que fiz assim que li a mensagem pela primeira vez: como esses caras chamam as estrelas pelos mesmos nomes que nós? E falam inglês? (Isso abre margem para o argumento de que estamos sendo vigiados…)

Visível a olho nu, Epsilon Bootis, também chamada de Izar e Mizak, é sim uma estrela dupla e está a 210 anos-luz. A mais brilhante, A, tem 4,5 vezes a massa do Sol e um diâmetro 33 vezes maior. Estima-se sua idade em 37 milhões de anos, enquanto a solar é de 4,5 bilhões. (Seriam menos de 40 milhões de anos tempos suficiente para o desenvolvimento de uma civilização inteligente? Aparecemos agora na Terra e ela existe há uns 4,5 bilhões de anos…)

Arcturus é a estrela mais brilhante de Boieiro (α) e uma das mais brilhantes de todo o nosso céu. Está a 33 anos-luz, tem o diâmetro 25 vezes maior que o do Sol e 3,5 massas solares.

Em 1976, Lunan reconsiderou a tal mensagem, admitindo que cometera “erros completos” e que seus métodos não tinham base científica.

Além disso, o escocês afirmara que a mensagem vinha de do ponto Lagrange L5, na órbita lunar – fora da órbita polar. Convenientemente, a mudança de órbitas faz parte da lenda do satélite fantasma.

Detalhes de fotografias tiradas em órbita supostamente mostrando o Cavaleiro Negro (Fotos: NASA)

Prova cabal?  E quanto à foto feita pela tripulação do Endeavour??? Cara, não pode haver prova mais contundente de algo assim que uma fotografia!

Calma lá! Os Shuttles sempre voaram em órbitas semi-equatoriais. Um objeto passando em uma órbita polar estaria a dezenas de milhares de quilômetros por hora, rápido demais para ser visível – imagine para fotos tão nítidas. Sendo mais específico, o objeto negro é uma manta térmica (prateada de um lado e negra do outro) perdida durante uma atividade extraveicular (extra-vehicular activity, EVA) conduzida pelos astronautas Jerry Ross e James Newman.

E as outras fotografias, na verdade, foram tiradas na mesma ocasião.

Durante caminhada espacial na missão STS-88, do Space Shuttle Endeavour, em 1998, tripulantes acompanham, fotografam e filmam manta térmica se afastando da nave (Vídeo: NASA / via Youtube/opua97)

O player não funciona?

Imagens externas da STS-88 mostram manta térmica se afastando da nave Endeavour durante caminhada espacial (Vídeo: NASA / via Youtube/opua97)

O player não funciona?

Também encontrei algumas imagens falsas sendo veiculadas como reais, seja por má índole o mera falta de informação. A imagem a baixo, retirada de um vídeo, por exemplo, é falsa. O objeto negro passando atrás do Shuttle foi recortado das fotos da STS-88 – compare as imagens.

À esquerda, detalhe da fotografia STS088-724-66 mostrando manta térmica perdida em caminhada espacial; à direita, frame de vídeo mostrando suposto Cavaleiro negro passando atrás de Shuttle (Foto: The Angry Ufologist)

(É possível encontrar com facilidade vídeos de supostas “naves alienígenas” voando próximo à ISS ou mesmo próximo ao Sol – até “sugando energia” da estrela, seja lá o que isso queira dizer. O foco deste post é o Cavaleiro Negro, por isso não vou me aprofundar nestes outros casos. Mas, genericamente, podemos catalogá-los como erros de identificação de lixo espacial e efeitos óticos e eletrônicos, respectivamente.)

Quanto a ideias, você pode encontrar de tudo um pouco. Há teorias relacionando o Cavaleiro Negro aos Annunaki e os deuses astronautas. (Fãs de Ancient Aliens, contenham-se!) Há quem fale que este satélite é “nosso”: uma civilização humana super-avançada do passado foi para o espaço, para Épsilon Bootes, e enviou/deixou este espião pra saber como a galera que ficou pra trás se virou.

Atualização interessante: depois que publiquei este post, um comentário feito no Facebook mencionou que “dizem que já desapareceu esse daí”. Como mencionei, a intermitência faz parte da lenda. Por outro lado, não consegui encontrar alegações de que ele teria desaparecido definitivamente, mas creio que não me surpreenderia se encontrasse. Faz parte de teorias da conspiração esquivar-se de testes de falseabilidade (testes que podem provar que ela é falsa) e simplesmente “desaparecer”, mesmo que temporariamente, seria uma manobra conveniente para inviabilizar a obtenção de mais evidências.

(Lembrei-me de Um Dragão em Minha Garagem, de Carl Sagan: sempre que existe algum teste que pode comprovar ou derrubar uma hipótese, sugere-se uma característica do objeto de estudo que permite um resultado negativo mas ainda mantém a viabilidade da hipótese.)

Não é estranho que, nas décadas mais recentes, com tantos astrônomos amadores (bem equipados, aliás), inclusive especializados em acompanhar satélites, e rádio-amadores (estes diminuirão nas últimas décadas, é verdade), nenhum tenha alegado encontrar o Cavaleiro Negro?

Nas palavras de Martina Redpath, do Armagh Planetarium, na Irlanda do Norte, o “Cavaleiro Negro é um emaranhado de histórias completamente distintas; relatos de observações científicas incomuns, autores promovendo ideias marginais, satélites espiões secretos e pessoas interpretando fotos equivocadamente. Estes ingredientes foram cortados, misturados juntos e cozidos na internet para um bocado inconsistente e incoerente de mitos”.

Foguete Black Knight em exposição em Woomera, Austrália, onde era lançado (Foto: Douglas Van Bossuyt)

E de onde veio o nome Black Knight? Durante a Corrida Espacial, um foguete britânico chamado Black Knight (Cavaleiro Negro) estava sendo usado em conjunto com mísseis Blue Streak (Linha Azul) para testar a reentrada na atmosfera. Entre 1958 e 65, 22 foguetes foram lançados, mas eles não chegavam ao espaço. Na verdade, o segundo estágio apontava para baixo para gerar mais stress no veículo sendo testado. Em 64, foi anunciado um programa de lançadores de satélites Black Knight, tido como prioridade pelo ministério britânico de aviação. O programa foi cancelado antes de colocar algo em órbita.

E como isso se relaciona com o satélite fantasma? Não parece haver ligação nem com o nome que pegou, mas temos que concordar que Cavaleiro Negro é uma belo nome para algo assim: mesmo sendo uma história escandalosa, mal embasada, construída sem nexo e até envolvendo informações falsas, sua propaganda ainda convence muita gente. Até poderíamos dizer que foi obra do marketeiro João Santana.

Acho difícil ser mais claro sobre uma conclusão. E você, o que acha do Cavaleiro Negro?

Watch the skies!

“Às vezes, eu penso que o sinal mais forte da existência de vida inteligente em outra parte do universo é que eles nunca entraram em contato conosco.”

– João Calvino (1509-1564), teólogo francês

Eduardo Oliveira,
editor

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